Precisamos de educação sexual nas escolas, diz especialista, em meio a aumento de casos de violência
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*Alerta: o texto abaixo aborda temas sensíveis como violência contra a mulher, violência doméstica e estupro. Se você se identifica ou conhece alguém que está passando por esse tipo de problema, ligue 180 e denuncie.
A nova edição da Pesquisa Nacional de Saúde de Escolares (Pense), divulgada nesta quarta-feira, 25, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou que 8,8% dos adolescentes de 13 a 17 anos no País dizem já terem sido forçados a fazer sexo contra a sua vontade. Outros 18,5% revelaram terem sofrido algum tipo de violência sexual.
Gerente de Educação do Instituto Alana, uma organização da sociedade civil que atua na proteção e garantia de direitos de crianças e adolescentes, Gabriel Salgado destaca em entrevista ao Estadão que os resultados da pesquisa reforçam a necessidade de mudanças no ensino. “É urgente pensarmos uma educação sexual de fato nas escolas brasileiras”, diz.
No quesito da saúde mental, outro dado da pesquisa chamou atenção: 25% dos jovens já pensaram em “se machucar de propósito”, porcentagem que chega a 43% entre as meninas.
Como o senhor avalia os principais resultados dessa pesquisa?
Acho que uma das principais coisas que a pesquisa aponta é justamente a importância de olharmos de forma integrada e multisetorial para os nossos adolescentes, com as diferentes características dos grupos sociais, mas também outros atravessamentos, como saúde mental e a relação dos estudantes entre eles mesmos. Enfim, é uma boa contribuição para fortalecer políticas voltadas para a adolescência.
Um número que chama atenção é o de 8,8% dos estudantes dizendo já terem feito sexo contra sua vontade e 18,5% declarando já terem sofrido algum tipo de abuso sexual. Esses números te surpreenderam?
Ainda que a gente tenha acesso a dados de uma realidade de grande violência, inclusive sexual, toda vez que vemos um retrato como esse é importante e alerta cada um de nós sobre a importância de nos aprofundarmos nesses dados. Os adolescentes não estão isolados da sociedade. Mais de um milhão de adolescentes relataram terem sido vítimas de relações sexuais forçadas; é um grande sintoma da vulnerabilidade dessas crianças e adolescentes, e também de toda a nossa sociedade, pautada pela agressividade, o uso da força, da violência, da falta de diálogo. E, quando olhamos os dados da violência sexual, percebemos que ela ocorre em espaços conhecidos e é cometida por pessoas que estão no cotidiano dessas crianças.
Em geral, as estatísticas de que dispomos sobre violência sexual contra crianças e adolescentes são daqueles poucos que fazem registro ou que têm alguma passagem pelo sistema de saúde. Não é comum uma pesquisa em que os próprios adolescentes falem sobre isso.
Sim, a pesquisa joga luz sobre uma realidade que, na maior parte das vezes, é invisibilizada, embora afete uma parcela significativa da população. A violência sexual tem a marca da subnotificação, seja porque as vítimas estão em condição de extrema vulnerabilidade física e psicológica, seja porque não encontram um caminho para fazer a denúncia. No caso das crianças e adolescentes, elas vivenciam a violência por parte de alguém com quem convivem, que amam, o que torna ainda mais difícil de relatar. A pesquisa revela a importância da escola como um espaço fundamental para garantir não só o direito à educação, mas o desenvolvimento integral dessas crianças. Algumas vezes, a violência é perpetrada dentro da escola e até pela própria escola. Mas, em grande parte, a escola também contribui para a proteção de crianças e adolescentes.
Um outro dado da pesquisa revela que 25% dos adolescentes já sentiram vontade de “se machucar de propósito”. Entre as meninas, a porcentagem chega a 43%. O que esses números significam?
Desde a pandemia, a gente tem acompanhado relatos preocupantes, com grande ênfase em crises de saúde mental afetando crianças e adolescentes. São situações de autoflagelo, crises de ansiedade, mudanças repentinas de comportamento que apontam a importância de termos políticas que olhem especificamente para a realidade desses estudantes. Como a pesquisa também mostra, além da questão do autoflagelo há outras questões de autoestima e aceitação do próprio corpo. Precisamos abrir um espaço de escuta e compreensão.
O senhor disse que os relatos vêm aumentando desde a pandemia. Há alguma razão específica para isso?
Não temos elementos de causalidade, mas temos uma realidade em que observamos cada vez mais o isolamento de crianças e adolescentes e o maior consumo de telas, além do acirramento das disputas entre diferentes grupos políticos e sociais.
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De acordo com os dados do IBGE, embora os adolescentes estejam postergando um pouco a iniciação sexual, a porcentagem daqueles que usam proteção na primeira relação é baixa e a gravidez na adolescência é um problema que persiste, sobretudo entre as alunas das escolas públicas. Como o senhor analisa esses dados?
Historicamente, a gravidez na adolescência é uma das principais causas da evasão e exclusão escolar e afeta as adolescentes em maior vulnerabilidade. Os dados que a pesquisa traz sobre gravidez na adolescência e iniciação sexual sem prevenção apontam para um problema que já é bem conhecido e deve resgatar a urgência de pensarmos uma educação sexual de fato nas escolas brasileiras, que dialogue com os diferentes contextos e identidades dos estudantes. Passamos por uma disputa política intensa nos últimos anos que prejudicou a possibilidade de conversarmos diretamente com crianças e adolescentes. Tem uma frase que um aluno me disse uma vez que nunca esqueci: “A gente não preserva e não cuida do que não conhece”. Ele estava falando de um projeto de preservação socioambiental, mas levo para outros espaços porque também se refere a nós mesmos.
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