‘Onde um dia foi a minha casa, não tem nada’; moradores buscam abrigo em escolas de Juiz de Fora
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JUIZ DE FORA - “Escutei um barulho e falei: Jesus, me guarda”. Ana Júlia, de 53 anos, havia acabado de colocar o leite na panela, passado maionese em duas fatias de pão, quando precisou sair às pressas da casa onde morava no bairro Três Moinhos, em Juiz de Fora, na noite desta segunda-feira, 23. Foi o tempo de deixar casa, dois carros e os “gatinhos” de estimação até que a lama de uma encosta cobrisse parte do imóvel.
“Fiquei sem casa, sem carro, sem nada”, conta, ao lado de um saco preto com roupas doadas, uma bermuda ainda suja de lama e um celular que serve apenas de lanterna, o único bem salvo.
Ana e ao menos outras 70 pessoas buscaram refúgio na Escola Municipal Raymundo Hargreaves após as fortes chuvas que deixaram, até o momento, 30 mortos na Zona da Mata de Minas, sendo ao menos 21 em Juiz de Fora e sete em Ubá. Juiz de Fora enfrenta o fevereiro mais chuvoso de sua história, com 589 mm acumulados até o momento, mais de três vezes o volume esperado para o mês (170 mm).
Na Escola Municipal Raymundo Hargreaves, Ana Júlia recebeu comida, roupas limpas, água e a companhia de outras dezenas de desabrigados, que ainda buscam informações de parentes e amigos.
“Eu fiquei tão apavorada que eu parei. Quando o morro estava descendo, que eu vi que estava cobrindo tudo, caiu tudo. A mulher: “Sai daí, sai daí”, eu não saía dali, eu não conseguia sair. Soterrou dois carros meus e a minha casa está soterrada”, lamenta.
‘Lá, onde um dia foi a minha casa, não tem nada’
Fabiana Silva de Oliveira, de 47 anos, o marido e a filha, moradores de Três Moinhos, escaparam de ser soterrados por questões de minutos. Eles saíram para comemorar o aniversário da sobrinha dela pouco antes de a casa deles ser coberta pela encosta do terreno.
Moradora da região desde os 11 anos, Fabiana já havia percebido o movimento do terreno ao observar que um pé de abacate estava se movimentando ao longo dos anos, cada vez para mais perto da casa onde morava. A tragédia, no entanto, durou poucos minutos. Ao retornar para casa após o temporal, já não havia mais casa.
“Era aniversário da minha sobrinha. Minha irmã resolveu fazer um cachorro quente para ela, um bolo. Eu desci para casa da minha mãe. Questão de uns 20 minutos depois que eu desci para comer o bolo com a minha sobrinha, a minha casa foi ao chão. Veio uma avalanche de terra, de entulho, da rua de cima levando tudo. Lá, onde um dia foi a minha casa, não tem nada”, lamenta.
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