Excesso de cloro causou morte em piscina de academia em SP, diz polícia
Negligência em tratamento com piscina era "recorrente", apontou manobrista responsável pela limpeza
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O uso excessivo de cloro foi o que causou a morte de uma aluna após usar a piscina de uma academia em São Paulo, no último fim de semana. Informação foi repassada pela Polícia Civil hoje.
Negligência em tratamento com piscina era "recorrente". O manobrista responsável pela limpeza, Severino José da Silva, deixou claro que a negligência no tratamento da piscina "é coisa corriqueira" na academia, explicou Alexandre Bento, delegado responsável pelo caso.
"Houve por parte dos proprietários da empresa um descuido deliberado de forma gananciosa, para que o resultado ocorresse, por isso foram indiciados noite de ontem. Que fique claro que os sócios apareceram aqui sem um agendamento prévio. A delegacia não esperava essas pessoas na tarde desta quarta-feira (11), contudo aproveitamos para colher o depoimento deles. O pouco que disseram foi para tentar incriminar o Severino", disse o delegado Alexandre Bento.
Sócios Cesar Bertolo Cruz, Celso Bertolo Cruz e Cezar Miquelof foram indiciados por homicídio com dolo eventual, conforme apurou o UOL. O dolo eventual ocorre quando o investigado não deseja diretamente o resultado morte, mas assume o risco de produzi-lo ao adotar determinada conduta.
Defesa dos empresários enviou uma petição à Justiça "com esclarecimentos para que o pedido de prisão temporária não prospere". Em nota, uma representante da academia informou que o documento foi encaminhado pelos advogados do estabelecimento ao juiz de Direito da 2ª Vara do Tribunal do Júri da Comarca de São Paulo.
Apesar do indiciamento, nenhum dos sócios foi preso ainda. A Polícia Civil pediu a prisão deles ao judiciário, responsável por apreciar a solicitação.
Sócios foram pegos de surpresa com o pedido de prisão temporária, segundo seus advogados. Na petição enviada à Justiça, Rafael Serra Oliveira e Julia de Moraes argumentam que a detenção requerida pela Polícia Civil foi baseada na informação "inverídica" de que os empresários não teriam constituído advogado e que não teriam comparecido para prestar depoimento.
Donos da academia compareceram hoje para depor no 42° DP, no Parque São Lucas, zona leste da capital. Os sócios foram intimados ontem pelo delegado do caso, Alexandre Bento, e prestaram seus depoimentos por volta das 17h, segundo informado pela assessoria da academia.
Procurado, delegado do caso informou que novas informações sobre o andamento das investigações serão divulgadas apenas amanhã. Uma coletiva de imprensa foi marcada para o meio-dia.
Funcionário que limpava a piscina afirmou ontem que um dos sócios da academia apagou mensagens enviadas a ele com orientações sobre a limpeza do local. A informação foi repassada pelo manobrista do estabelecimento, Severino José da Silva, em depoimento à polícia. Na ocasião, ele afirmou que, por ordem dos donos da academia, realizava serviços de limpeza e manutenção da piscina, mesmo sem habilitação técnica para realizar a tarefa.
Instruções sobre limpeza e manejo de produtos usados na piscina eram repassadas ao manobrista apenas à distância, de acordo com delegado. Nas mesmas trocas de mensagens mencionadas pelo funcionário, um dos sócios enviava orientações relacionadas à proporção de cada produto químico que deveria ser usado para a limpeza da água, conforme Alexandre Bento.
FUNCIONÁRIO TAMBÉM AFIRMOU NÃO TER HABILITAÇÃO DE PISCINEIRO
Severino também afirmou à polícia que não tem formação para manusear produtos químicos e que o dono da academia sabia. Ele revelou que assumiu a função da limpeza da piscina após o antigo manobrista sair da empresa. O antigo funcionário repassou as instruções de que o procedimento consistia em medir os níveis da água e do cloro, fotografar o resultado e enviar a imagem diretamente ao dono da academia, que orientava quais produtos deveriam ser utilizados e em qual quantidade.
Há um ano, a água da piscina ficou bastante suja, com formação de espuma, relembrou o manobrista. Na época, ele disse que o dono da academia contratou um técnico que trabalhou por aproximadamente uma semana até estabilizar a água. Segundo o funcionário, esse profissional ofereceu seus serviços de manutenção permanente, mas o sócio optou por não contratá-lo.
No último sábado (7), o funcionário contou que preparou de seis a oito medidas de cloro para limpar piscina. Ele detalhou que realizou o teste e enviou a foto para o dono da academia, recebendo como orientação que fossem aplicadas as medidas do cloro. Apesar disso, ele revelou que não chegou a aplicar o produto, apenas preparou a solução.
Balde com água e cloro foi colocado a cerca de dois metros da borda da piscina. Sete alunos ainda nadavam na piscina, quando o homem é visto em câmeras de segurança deixando o recipiente no local.
Procurada mais cedo, a direção da academia afirmou que "segue colaborando integralmente com as autoridades competentes. Em nota, a diretoria divulgou que seus sócios "sempre estiveram à disposição da autoridade policial" e que seguem "contribuindo com todas as etapas da investigação em andamento". Leia mais do posicionamento abaixo.
REAÇÃO QUÍMICA PODE TER CAUSADO INTOXICAÇÃO
Em poucos minutos, a polícia acredita que uma reação química tenha liberado gases e causado a intoxicação nas vítimas. "Ele esperava acabar a aula para jogar o produto na água que estava bastante turva, em razão do uso da piscina. Mas começaram a exalar os gases e as pessoas foram asfixiadas", afirmou ontem o delegado responsável pela investigação, Alexandre Bento.
Manobrista disse ter percebido que havia movimentação incomum na academia, com uma mulher sendo socorrida pelo marido. Ele esclareceu que voltou à área da piscina com um pano no rosto, para cobrir a boca e o nariz, e retirou o balde do local.
O homem disse que a marca do cloro foi trocada em fevereiro. Até janeiro, os proprietários compravam outro modelo. Ele declarou também que nunca recebeu equipamentos de proteção individual para manuseio de produtos químicos.
Investigadores já conseguiram acessar o celular dele. Ele forneceu a senha do aparelho para que as mensagens fossem acessadas, de forma a colaborar mais rapidamente com a investigação.
O QUE DIZ A ACADEMIA
Em nota enviada ontem, a direção da Academia C4 Gym lamentou "profundamente" o ocorrido após a morte da professora. Também informou que prestou "imediato atendimento a todos os envolvidos" e que tem mantido contato direto com as pessoas envolvidas a fim de oferecer todo o suporte.
"Assim que os alunos relataram odor forte na área da piscina, toda a academia foi evacuada e o SAMU e o Corpo de Bombeiros foram acionados. Devido à demora do SAMU, um dos atendentes da academia solicitou auxílio a uma viatura da GCM, que se dispôs a socorrer Juliana. Os policiais informaram que poderiam levá-la apenas ao hospital mais próximo, na Vila Alpina, mas os acompanhantes optaram por levá-la a uma unidade de seu plano de saúde, em Santo André", disse a C4 Gym, em nota.
Academia afirmou ainda que possui Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros, está regular junto ao CREF (Conselho Regional de Educação Física) e mantém alvará da Vigilância Sanitária válido desde 2023. "O advogado da academia, inclusive, esteve presente e solicitou acompanhar a vistoria do Corpo de Bombeiros e da Polícia Civil, mas o pedido não foi autorizado", divulgou na mesma nota.
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