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“Sinais do déficit de atenção não devem ser ignorados”, alerta neurologista

Marcela Delatorre, do jornal A Tribuna | 24/01/2022 08:25 h

Agitação, inquietação, ter dificuldade de se manter atento em atividades longas, repetitivas ou que não sejam interessantes. Esses são apenas alguns dos sinais de que uma criança pode sofrer com o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).

O médico neurologista da infância e adolescência Thiago Gusmão ressalta a importância de diagnosticar e tratar a TDAH de forma precoce. “Se o transtorno não for tratado, ele pode levar a desistências escolares e está muito associado ao maior consumo de ilícitos, ansiedade, depressão e com risco grande de suicídio, principalmente entre adolescentes e adultos”.

Thiago Gusmão é neurologista da infância e adolescência e especialista no Transtorno do Espectro Autista.
Thiago Gusmão é neurologista da infância e adolescência e especialista no Transtorno do Espectro Autista. |  Foto: Leone Iglesias/AT
 

A Tribuna –  Em muitos casos, uma criança com TDAH pode ser confundida com uma criança “agitada”?

Thiago Gusmão – O TDAH é um transtorno e possui critérios de diagnóstico que são importantes para não sair falando que tudo é hiperatividade. De uma forma bem didática, o reconhecimento do Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) deve ser feito seguindo o Manual de Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais 5ª Edição (DSM5). Ele traz informações importantes para que o diagnóstico seja feito da forma correta.

Por exemplo: o TDAH deve se manifestar antes dos 12 anos, precisa estar presente por no mínimo seis meses e em mais de um ambiente, ou seja, a criança precisa exibir os sinais tanto em casa quanto na escola ou em outro lugar. Além disso, a palavra-chave é “prejuízo”. É importante que os pais percebam se há prejuízo no rendimento escolar ou em qualquer atividade da vida diária do filho. Eles devem saber que não é qualquer sintoma que vai afirmar a existência do transtorno.

Quais os principais sinais e sintomas?

Os critérios de desatenção são: não conseguir prestar atenção a detalhes, sempre cometer erros por descuido nos trabalhos da escola ou atividades do dia a dia, dificuldade de manter a atenção e o foco em tarefas diárias ou nas atividades de lazer, sempre deixar as tarefas da escola e da casa pela metade, entre outros.

Já os critérios de hiperatividade são: sempre mexer com as mãos e pés. É uma criança que parece estar sempre em movimento, tem dificuldade de brincar ou se envolver em atividades mais calmas, fala em excesso, entre outros.

A exposição às telas  pode atrapalhar a capacidade de concentração?

Muito! O estímulo exagerado com as telas funciona como um mecanismo de recompensa que esgota a dopamina (neurotransmissor responsável pelas funções executivas). Isso quer dizer que a dopamina é importante para manter a atenção, além de ser responsável por regular a memorização e também pela velocidade e organização do pensamento.

Como a exposição às telas é uma espécie de recompensa dada aos filhos, eles gastam a maior parte dessa dopamina enquanto estão jogando videogame, assistindo à televisão ou mexendo no celular, que são situações não obrigatórias. O que quero dizer é que as telas são responsáveis por manter a criança atenta a essas atividades e acaba não sobrando estímulos adequados para a parte principal, que é o estudo.

E para crianças que já sofrem com o TDAH essa exposição pode prejudicar ainda mais porque ela já tem dificuldade de manter a concentração.

Como diferenciar algo pontual, como esse efeito dos múltiplos estímulos, de um possível diagnóstico de TDAH?

O diagnóstico de TDAH é de origem neurobiológica e é preciso ter o quarteto que falei bem delimitado (antes dos 12 anos, mais de seis meses, em mais de um ambiente e prejuízo). A criança que fica exposta às telas pode ir bem na escola, mas quando ela tem um transtorno, essa exposição prejudica ainda mais. Então a diferença tem a ver com o real prejuízo e com a intensidade do prejuízo. Por isso, os sinais do déficit de atenção não devem ser ignorados.

Como é feito o diagnóstico?

É um diagnóstico clínico! Isso quer dizer que o paciente passa por uma avaliação médica citando seu histórico de vida,  para que sejam reconhecidos os critérios citados no DMS5.

Obviamente, em muitos casos, podemos fazer uma avaliação neuropsicológica para ver como está o QI e identificar prejuízos atencionais. Não há necessidade de exames de imagem ou sangue, a não ser que o médico suspeite de outras causas associadas.

Como o ensino EAD pode afetar essas crianças?

A aula online não é favorável ao processo de memorização porque a criança não tem a maturidade de ficar tanto tempo no computador mantendo o mesmo foco e o mesmo nível de atenção. Então a tendência é que elas tenham uma dificuldade imensa de reter o conteúdo. Crianças e adolescentes que possuem esse e outros transtornos sofrem mais com esse sistema. O melhor tipo de aprendizado para elas é o ensino presencial.

Inclusive, é importante citar a existência da lei estadual nº 11.076, que garante alguns direitos ao paciente com TDAH. Ele pode, por exemplo, sentar-se na primeira fileira da sala de aula, receber uma adaptação do material quando necessário, esforço pedagógico e até um maior tempo na avaliação de provas quando necessário. É importante que a escola cumpra esse papel porque o aluno tem grandes avanços quando ela é parceira da família.

Quantas crianças sofrem com esse transtorno no Brasil?

Em torno de 3% a 5% das crianças e adolescentes sofrem com o TDAH no Brasil e no mundo. Se for para colocar em uma proporção média, no Espírito Santo devemos ter cerca de 120 mil a 150 mil pessoas com o transtorno, sendo que podem ser pacientes já diagnosticados ou não.

Além disso, o TDAH está associado a outras comorbidades. Cerca de 25% a 35% sofrem de ansiedade, entre 10% e 30% sofrem com depressão, entre 10% e 18% sofrem com TOC e 20% a 50% dos pacientes têm dificuldade para ler.

Qual a importância de um tratamento adequado?

O tratamento do TDAH tem base inicial com acompanhamento terapêutico, reforço escolar e fonoaudiólogo. Alguns casos também precisam de terapia medicamentosa, com os medicamentos chamados neuroestimulantes, que aumentam o aporte de dopamina para melhorar a atenção.

Quanto mais precoce eu começo, melhor vai ser a qualidade de vida do paciente. Sem o tratamento ele pode desenvolver depressão, ansiedade, ter prejuízos importantes na escola, além de prejuízos afetivos e emocionais na vida adulta. Então quando o diagnóstico é postergado ou feito de forma tardia, o paciente provavelmente já teve um nível de sofrimento que poderia ter sido amenizado a partir de um tratamento adequado.

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