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Saúde

"Envelhecer bem está ao alcance de todos", diz escritora

13/05/2021 09:34:10 min. de leitura

Imagem ilustrativa da imagem "Envelhecer bem está ao alcance de todos", diz escritora
Cris Guerra diz que muitas vezes os filhos têm excesso de zelo Foto: Márcio Rodrigues
“Envelhecer bem está ao alcance de todos, mas para isso precisamos mudar nossa forma de encarar e de lidar com o envelhecimento.”

Esse é o conselho de Cris Guerra, de 50 anos, que é escritora, publicitária, produtora de conteúdo
digital e palestrante.

Cris avalia que o passar dos anos, desde que acompanhado de amadurecimento, é uma libertação.

“Ficamos mais tranquilos com nós mesmos e não ficamos mais muito preocupados com o que os outros pensam”.

A resistência em aceitar esse processo natural tem impactos negativos no próprio indivíduo e também
no entorno, já que pode influenciar na relação com os mais idosos e reforçar o chamado “etarismo”. O termo se refere ao preconceito em relação aos mais velhos.

O etarismo se manifesta por meio de comportamentos, como sempre supervisionar os idosos ou nunca deixá-los fazer algo sem ajuda, assumindo de antemão que são incapazes de se cuidar.

Até situações em que as pessoas acreditam que apenas estão sendo zelosas com os idosos podem ser
indicativo de preconceito.

“Claro que com o passar dos anos a pessoa precisa de atenção, mas não se pode julgar a capacidade dos mais velhos de antemão”, considera Cris.

Como todos caminham para velhice com o passar dos anos, Cris considera essa uma possibilidade de autorreflexão para avaliar as próprias atitudes com os outros e consigo mesmo.

Afinal, quem não combate o etarismo hoje sofrerá com esse preconceito no futuro.

A TRIBUNA – O que é o “etarismo”?
CRIS GUERRA – É o preconceito baseado na idade. Eu já usei para falar do preconceito dos mais velhos aos mais novos, mas tenho aprendido que o termo é mais direcionado ao preconceito dos mais novos em relação aos mais velhos.

> Há uma explicação por trás desse comportamento?
Apesar de estar falando bastante sobre etarismo, eu falo a partir das minhas próprias experiências. Eu
gosto de estudar assuntos a partir das minhas vivências.

Não encontrei a origem do etarismo, mas arrisco a dizer que tem relação com a obsolescência programada, que está ligada com a “utilidade” da pessoa.

No mundo ocidental, ainda existe uma relação pior com a idade até relacionado aos padrões de beleza. A longevidade é um dado novo na nossa vida. Antigamente as pessoas viviam até os 30 ou 40 anos e agora ultrapassam os 70 anos. Mas temos de aprender a lidar com isso. A pirâmide está se invertendo e os estudos indicam que daqui alguns anos teremos mais idosos do que pessoas de outras faixas etárias.

> Esse aumento na expectativa de vida influência no preconceito com os mais velhos?
Eu brinco que o etarismo é um velho preconceito que foi batizado agora. Eu não sabia até dois anos atrás quando me percebi etarista.

> Qual reflexão surgiu a partir dessa autopercepção?
Esse é um preconceito novo no mercado e traz algo interessante. Como todos podem envelhecer, talvez ele nos inspire empatia. Diferente de outros preconceitos.

Com o racismo, por exemplo, a gente não muda de cor, então posso nunca ser sensível ao que o outro sente porque nunca vai sentir na pele o que o outro sente.

No caso do etarismo, o fato de estarmos caminhando para a velhice nos faz ter que pensar nisso. Se não fizermos nada para mudar a sociedade quanto ao etarismo, vamos sofrer com ele lá na frente.

Posso estar sendo utópica, mas talvez esse seja um preconceito que nos ajude a nos livrar de outros preconceitos, pois ele nos leva à reflexão e nos faz pensar sobre todos os nossos preconceitos.

> Como se reconhecer etarista? Muitos filhos até acreditam que estão apenas sendo zelosos com os pais quando os supervisionam.
Mesmo que a intenção seja boa, essa é uma forma de etarismo. O preconceito ocorre quando se infantiliza a pessoa mais velha e age como se ela fosse incapaz. Ocorre quando os filhos não conseguem enxergar a necessidade de autonomia dos pais e têm excesso de zelo.

A atitude do etarismo está em subestimar a capacidade da pessoa. Quando é uma pessoa que já se sabe que tem confusão mental ou alguma outra necessidade, realmente é bom não deixar sozinha. Claro que com o passar dos anos a pessoa precisa de atenção, mas não se pode julgar a capacidade dos mais velhos de antemão.

>Esse comportamento está ligado à forma como as pessoas lidam com o próprio envelhecimento?
Muitas pessoas têm pavor do envelhecimento. Lidam com ele da pior forma possível e não aceitam envelhecer, sendo que é o normal.

Vemos que até a nomenclatura dos produtos falam de antiaging (antienvelhecimento). Por que não
querer envelhecer, mas envelhecer bem?

Por outro lado, estamos vivendo uma fase legal porque tem muita gente “saindo do armário” e assumindo seu envelhecimento. A visibilidade das pessoas conhecidas ou não é uma grande oportunidade para mudarmos essa visão de que envelhecer é ruim. Observar quem está envelhecendo bem e não está nem aí é uma oportunidade.

>Então você entende o envelhecimento como algo positivo?
Sim, quando o envelhecimento vem com o amadurecimento, ele traz libertações. Nós ficamos mais tranquilos com nós mesmos, nos sentimos bem com a nossa pele, não ficamos mais muito preocupados com o que os outros pensam.

Ainda estamos ligados à ideia da juventude como a melhor fase da vida. Precisamos ressignificar a velhice e a juventude apenas como características. Até porque não somos só a nossa idade.

Enquanto estou envelhecendo, estou fazendo outras coisas. Eu namoro, crio os meus filhos... Não estou me ocupando do envelhecimento. Ele acontece enquanto vivo. Mas quero me dedicar a envelhecer bem, pois o envelhecimento traz coisas boas.

O bom envelhecimento está ao alcance de todos, mas para isso precisamos mudar nossa forma de encarar e de lidar com ele.

> Quais são as consequências para quem não consegue ter essa perspectiva?
Para si mesmo, é não encarar vida como ela é. O fato de a gente não lidar com ele de forma saudável pode ser por querer evitar a finitude da vida. Mas não existe garantia de que os mais velhos vão partir primeiro. Esse medo de confrontar a morte faz viver pior.

Não adianta ficar engessado perseguindo a juventude, porque essa é uma briga que a pessoa vai perder.

Certamente, é uma frustração e o resultado é uma saúde mental debilitada. Se não se aceita envelhecendo, não se aceita como é.

Quem é

Cris Guerra
> É ESCRITORA, publicitária, produtora de conteúdo digital e palestrante.
> TEM GRADUAÇÃO em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
> COM SEIS LIVROS publicados e aos 50 anos, a comunicadora compartilha reflexões sobre o comportamento contemporâneo.
> ABORDA temas de etarismo, maternidade, moda, protagonismo e saúde mental, por meio de palestras e participações em eventos de diversos perfis e em suas redes sociais.