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Redação A Tribuna

O primeiro ano da pandemia e a memória do tempo da morte

| 27/02/2021, 13:54 13:54 h | Atualizado em 27/02/2021, 14:00

Por estes dias, faz um ano que mergulhamos para valer na atmosfera mortífera da pandemia. Ainda que não encerrado em sua dramática sucessão de mortes diárias aos milhares, tempo decorrido é tempo de memória. É o caso, então, de se alertar: o importante não é apenas o que se lembra, mas também, e fundamentalmente, o que se esquece.

Essa operação é crucial, posto que forja um passado para sustentarmos o hoje e um possível amanhã. Ademais, esse movimento não é involuntário ou casual. Apesar da aparente espontaneidade, lembrar e esquecer são atitudes social e politicamente pautadas, o que também remete ao fato de que, absolutamente subjetiva, a memória resulta do fenômeno coletivo de fixar recordações e promover esquecimentos.

A memória coletiva contém a memória individual e vice-versa. É assim que a dor geral das mortes em massa, mais de 250 mil, se atomiza e entra em cena a trágica experiência pessoal de laços desfeitos pela ausência – um a um! Nessa progressão de desaparecimentos e lamentos, milhões choram a perda de milhares. E daqui a pouco, também começam a marcar no cruel calendário da saudade o primeiro ano da falta, numa doída contagem que durará uma vida.

Morrer é uma pena. Morrer é uma dor. Morrer é uma tristeza. Morrer numa pandemia é uma tragédia. Morrer numa pandemia de abandonos, uma desgraça aviltante. Essa é a via-crúcis que se coloca às nossas possibilidades de lembrar e esquecer.

Talvez tentem enterrar na vala comum do esquecimento a catástrofe de desmazelos dentro da catástrofe sanitária, naturalizando cadáveres além da conta do vírus. Mas vale repisar que o horror vivo da pandemia não bafeja apenas pela mortal presença virótica, mas também e assustadoramente pelo desvalor ignóbil à vida entre nós.

Esquecer, jamais! Posto que olvidar o infame e assombroso número de óbitos e sua dupla causa mortis, a do vírus e a do desamparo, seria mesmo banalizar o mal, fazendo de cada vida morta mero número a mais no quadro de tantas mortes brasileiras.

Pela pulsão de vida que anima a alma, insistimos em olhar adiante. Mas é vital observarmos o panorama disposto ao “Anjo da História”, conforme Benjamin: “Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína [...]. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos de progresso”.

Ao contrário do Anjo, nossa face teima em contemplar o futuro, e dar as costas ao passado. Que assim seja, mas que nossa redentora devoção ao horizonte não nos deixe esquecer a história do que se passou e se passa. Senão, será só mais e mais escuridão – e ruína.

JOSÉ ANTONIO MARTINUZZO é pós-doutor em Mídia e Cotidiano e membro da Escola Lacaniana de Psicanálise de Vitória.

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