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Tribuna Livre

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A polêmica dos distanciamentos sociais durante uma pandemia

| 02/06/2020, 07:10 07:10 h | Atualizado em 02/06/2020, 09:39

Estudos buscam resposta sobre a utilidade dos distanciamentos sociais. Utilizam as mais variadas metodologias e chegam a conclusões frequentemente antagônicas. Pretendo aqui recuar um passo, fugir desse ambiente frequentemente sujeito a vieses cognitivos, retornar aos conceitos já bem fundamentados da chamada “medicina baseada em evidências” e, a partir deles, voltar aos tais estudos com uma base mais racional.

Eficácia: é a capacidade intrínseca do isolamento social em evitar transmissão, doença e morte. Não se questiona que essa medida seja eficaz, constatação evidente por si só, já que no caso de uma doença contagiosa ao se evitar o contato entre indivíduos saudáveis e doentes quebra-se a cadeia de transmissão.

Efetividade: uma medida pode ser eficaz, mas ter a sua efetividade reduzida ou até anulada, já que outros fatores (extrínsecos) entram em ação. Pelo princípio da complacência, podemos utilizar experiências com outros tipos de infecções.

Contudo, uma extrapolação pode ser temerária, tendo em vista as inúmeras especificidades do vírus atual. Características essas que explicam em grande parte ou totalmente o evento raro que vivemos.

Ser transmitido rapidamente por assintomáticos ou sintomáticos leves e a precariedade dos testes diagnósticos são fatos que levam à possibilidade do novo coronavírus já ter circulado em determinada população muito antes do primeiro caso confirmado. Isso levou à adoção tardia de medidas, dentre elas o isolamento social, o que pode ter comprometido, em variados graus, a sua efetividade.


Custo-efetividade: nas situações médicas convencionais, o denominador (efetividade) geralmente tem maior relevância que o numerador (custo). Contudo, a situação atual pode ser outra coisa, mas não convencional. Devemos dimensionar e levar em conta esse custo, que são todas as consequências desfavoráveis (conscientes ou não) dessa medida.


Aumento de mortalidade por outras causas (cardiovasculares, renais, neoplásicas), transtornos psíquicos em graus variados e mortalidade infantil em regiões mais pobres (estima-se aumento de até 45%). Além disso, o “custo monetário” talvez seja um dos maiores da história, afetando todas as economias, levando a falência de empresas, aumento de desemprego, criminalidade, violência, doenças e mortes.

Na ausência de um estudo que contemple todo esse complexo sistema, a tomada de decisão na implementação ou intensificação de isolamentos sociais deve, ao menos, tentar abarcar todos esses conceitos.

Na “medicina baseada em evidências”, a extrapolação de dados para a “vida real” deve ser feita sempre à luz das especificidades do indivíduo. Nosso “indivíduo” é uma população complexa e repleta de “comorbidades”.

Tomar um ou dois gráficos e a partir daí investir apenas em um remédio, desconsiderar seus efeitos adversos, retirar os que eram usados para as “comorbidades”, aumentar a dose indefinidamente e, em um momento em que talvez não tenha mais tanta efetividade. Isso tudo pode representar um ato desesperado, mas não se pode dizer que seja científico.

Flavio Luiz Rua Ribeiro é cardiologista.

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