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A nobre e desafiadora missão de cuidar do outro

13/10/2021 10:56:56 min. de leitura

Com o envelhecimento, é comum surgirem limitações típicas da terceira idade. Os indivíduos ficam mais propensos a doenças crônico-degenerativas ou dificuldades comuns dessa fase da vida, que podem ocasionar numa dependência funcional.

Nesse contexto, há a necessidade de um cuidador, cuja missão é desempenhada por um profissional ou familiar próximo. As responsabilidades, em muitos casos, vão desde os afazeres domésticos até os cuidados indispensáveis aos idosos (banho, alimentação, remédios e muitos outros). Nesse universo que envolve tantas particularidades, vale destacar, não apenas a importância dos cuidadores, mas a necessidade de se olhar também para quem cuida.

Cuidado requer atenção, dedicação, cautela, paciência, resiliência e, muitas vezes, o cuidador zela tanto por quem está sendo assistido que esquece ou não tem tempo de cuidar de si mesmo. Uma recente pesquisa, encomendada pelo Instituto Lado a Lado pela Vida (LAL) e a Veja Saúde, com o apoio da Novartis, traçou o perfil e os desafios encontrados pelos cuidadores no Brasil.

Um ponto da pesquisa que chama a atenção é que seis em cada 10 cuidadores têm pelo menos 50 anos de idade, sendo que 27% têm 60 anos ou mais. Entre esses participantes, 90% contaram que tiveram que assumir a missão de cuidador por ser o familiar mais próximo e não terem renda para contratar os serviços de um profissional. Assim, vemos uma geração de idosos ou quase idosos que precisam cuidar de seus familiares mais velhos, e muitas vezes não lhes sobra tempo para darem a devida atenção às suas próprias necessidades.

O estudo aponta que já passou pela cabeça de 46% desses familiares renunciarem à atividade, mas apenas 3% realmente o fizeram. Essa revelação chama a atenção para a saúde mental e emocional desses cuidadores. O desgaste emocional pode estar relacionado a diversos fatores, como jornada exaustiva, dificuldades financeiras, falta de apoio de outros familiares e até mesmo divergências entre eles. Tudo isso faz com que a tarefa de cuidador seja repleta de sentimentos diversos e contraditórios, já que a maioria, mesmo diante dos obstáculos, não abandona seus entes queridos à própria sorte.

Diante dessa realidade, podemos destacar duas prioridades. A primeira é o autocuidado: é preciso dedicar um tempo para cuidar da saúde, do próprio corpo e também para o relaxamento. A segunda é o revezamento das obrigações. É necessário que haja uma divisão de tarefas com demais familiares ou amigos que possam, de alguma forma, ajudar a reduzir a sobrecarga que recai sobre uma só pessoa. A nobre missão de cuidar do outro pode ser muito gratificante, mas se não houver o mínimo de cooperação, é inevitável que haja um esgotamento.

Embora desafiador, o papel de cuidador não precisa ser sinônimo de exaustão constante e pode – e deve – se tornar uma união de esforços em que todos saem ganhando: o idoso merecidamente bem assistido e o cuidador desfrutando da alegria de se dedicar a quem ama sem precisar abrir mão de si mesmo.

Gustavo Genelhu é médico geriatra.