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“Vivemos uma revolução da velhice”, diz antropóloga Mirian Goldenberg

A especialista garante que vivemos uma era de quebra de preconceitos, que vai libertar os mais jovens do medo de envelhecer

Lorrany Martins, do jornal A Tribuna | 21/06/2022 10:35 h

Rugas, cabelos brancos e marcas de expressão. Homens na cozinha, rodeado dos netos e filhos. Mulheres gargalhando com as amigas em encontros semanais. 

Essas são imagens que vão se tornar cada vez mais comuns aos olhos do brasileiro com os passar dos anos. A visão do que a antropóloga, escritora e professora Mirian Goldenberg chama de bela velhice.  

Durante mais de 20 anos, a especialista estudou sobre o envelhecimento, escreveu livros sobre o assunto, como “A Invenção de Uma Bela Velhice”,  e garante que vivemos uma revolução que vai quebrar preconceitos, mostrar que os mais velhos também são felizes, e libertar até os mais jovens do medo de envelhecer. 

A Tribuna - O que é a curva da felicidade e qual a relação desse conceito com o envelhecimento? 

Mirian Goldenberg -  Esse conceito veio de uma pesquisa mundial, que também fiz aqui no Brasil com cinco mil homens e mulheres. O estudo mostrou que, quando as pessoas nascem, têm suas necessidades de carinho, de alimento e conforto atendidas. Então, o nível de felicidade é o topo.

Ao longo da vida, começamos a receber “não”, a ter frustrações, a fazer comparações e essa curva da felicidade vai caindo até ela chegar no seu ponto mais baixo, que é próximo dos 45 anos. É o momento que os filhos estão adolescentes, as mulheres já estão chegando na menopausa, os homens também estão questionando seu trabalho. É a fase que estão se comparando muito às outras pessoas que têm a mesma idade.

Tanto é que o Brasil é o maior consumidor no mundo de ansiolíticos, antidepressivos, remédios para dormir. E isso retrata muito bem o nível de infelicidade que vivemos. 

Mas a partir do ponto mais baixo, a curva da felicidade começa a subir e passa a ter o formato de uma letra “U”.  Ou seja, tem o seu ponto mais alto quando se é criança e quando se é mais velho. 

E o que explica essa subida do curso depois dos 50 anos? 

A primeira coisa que a pesquisa mostrou foi a diferença do uso do tempo. Como se tem uma urgência muito maior de viver, as pessoas pensam em como usar melhor o tempo e, com isso, começam a dizer “não”. E isso é uma questão muito difícil, principalmente para as mulheres mais jovens. 

Outra coisa: eles param de se comparar aos outros. Começam a valorizar o que têm, e não o que falta. Quando se é mais velho, olha o que se tem, estabelece prioridades e simplifica a sua vida. Para de ter tantas expectativas e ambições e começa a valorizar o presente, que é o tempo que temos.   

Você disse que a curva da felicidade começa a subir quando se está mais velho, mas pesquisas recentes mostram que a parcela de idosos com depressão e ansiedade tem crescido no Brasil. O que você acha que está acontecendo?

O índice de depressão, ansiedade, insônia aumentou para todas as idades, não só para a terceira idade. No  Brasil, ainda mais. 

Há condições externas que contribuíram muito para isso. Antes da pandemia, por exemplo, já tinha a discussão sobre a aposentadoria, aumento do desemprego que, para os mais velhos, é mais cruel.

Na pandemia, eles foram os mais afetados. Não só pela letalidade do vírus, mas por todo um discurso contra os idosos. Ouvimos que velhos podiam morrer, que o grande problema do Brasil é que as pessoas queriam viver 100 anos, que eles estavam prejudicando a sociedade. Imagina o que é viver sendo acusada de ser um peso social? Não tem como. Não dá nem para falar sobre felicidade.   

Porque  ainda há essa visão preconceituosa do envelhecimento?

Sempre fomos uma cultura de muitos jovens. Até os anos 1960, as pessoas viviam 40, 50 anos e nasciam seis, sete filhos por família. Hoje, nasce 1,7 filho por família, não é nem a taxa de reposição de homem e uma mulher. 

Mas toda essa mudança foi muito rápida, diferentemente da Europa, que já convive com os mais velhos há muito tempo. E os valores demoram a mudar. 

Aqui, a grande novidade é que vivemos uma revolução da velhice. Uma nova forma de viver, de pensar, de envelhecer.

Essa geração que está envelhecendo hoje é a mesma que fez uma revolução comportamental nos anos 1960. As mulheres eram prisioneiras de papéis muito restritos e elas mudaram tudo na época. Se observar, quem está revolucionando, quem está mudando tudo hoje são as mulheres.

E o que podemos esperar dessa revolução?

É o que já está acontecendo, e vai se consolidar. É uma maior liberdade para mulheres e homens viverem essa fase da vida com mais  plenitude, mais dignidade. 

Toda minha pesquisa mostra que se tivermos uma sociedade mais justa, mais digna, conseguimos viver com mais plenitude essa fase da vida que,  para muitos, é a melhor parte. Então, vamos acabar com esse pânico de envelhecer, com esse preconceito. 

Isso pode trazer uma liberdade maior para as mulheres novas também, né?

Com certeza! Recebo muitos comentários de mulheres de 30, 40 anos que me agradecem por falar sobre o assunto porque assim elas perdem o pânico de envelhecer. Mostro que tem vida da velhice, que tem o belo envelhecimento. 

Temos de mudar a forma de enxergar a velhice. Colocamos o foco no cabelo branco, nas imperfeições e não olhamos o que é belo, pleno em uma pessoa que chega aos 80, 90, 95 anos com felicidade, amor, realizações, com propósito. Enxergar a beleza da velhice, não nos detalhes da aparência. Isso é uma prisão!

Perfil

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- |  Foto: Divulgação
  

Mirian Goldenberg

> Antropóloga e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

> Doutora em Antropologia Social, estuda há mais de 20 anos sobre o envelhecimento. 

> Autora de 30 livros, entre eles: “A Bela Velhice”; “ Velho é Lindo!”; “ Toda Mulher é Meio Leila Diniz”; “De Perto Ninguém é Normal”; “Por que os Homens Preferem as Mulheres Mais Velhas?”

> E lança em janeiro “Amor, Sexo e Tesão: A Revolução da Maturidade”, sobre a sexualidade na velhice.

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