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Pais pedem liberação de bermudas para as meninas

Falta de opções de peças mais frescas e a diferença de tratamento em comparação aos meninos a partir do 6º ano abrem discussão

Francine Spinassé, do jornal A Tribuna | 28/02/2022 16:25 h

Sejam dias de sol ou de chuva, meninas de vários colégios particulares da Grande Vitória têm uma opção de uniforme para o dia a dia: calças compridas. A falta de opções mais frescas e a diferença do tratamento com relação aos meninos a partir do 6º ano do ensino fundamental, que podem também usar bermudas, têm criado polêmica em alguns colégios.

A advogada Renata Galvão, mãe de três alunas de um colégio particular de Vitória, contou que  fez parte do movimento para que as alunas não pudessem usar apenas calça comprida. “Isso não começou este ano. A partir do 6º ano, as meninas já sabiam que não teriam outra opção de uniforme. Este ano, alguns pais se juntaram e nós redigimos uma carta, juntamente com 150 assinaturas. O que pedimos foi uma isonomia, uma opção de uniforme mais fresco, assim como o dos meninos”.

Renata afirmou que a direção recebeu um grupo de pais e disponibilizou a opção da calça corsário. Para ela, foi uma saída agradável, pois pode ficar logo abaixo ou pouco acima do joelho. 

Em outra escola particular e tradicional de Vitória, a queixa dos pais é a mesma: a partir do 6º ano, as meninas só podem usar calça. 

Em um comunicado na agenda dos alunos, já dizia que as bermudas  do material helanca não eram mais permitidas a partir do 6º ano, apenas “a calça comprida do uniforme de frio”. 

A servidora da Justiça Maria Inês Costa contou que os pais já tentaram conversar com a direção da escola, mas não houve uma abertura para que um grupo de mães fosse falar sobre o tema, apenas para conversas individuais. 

“Eles liberam apenas os shorts para o momento da Educação Física. Mas tem de sair da sala, trocar o short, fazer a aula e, depois, suadas, colocar a calça de novo. Não é possível. Então todas as meninas preferem fazer esportes de calça”.

Para ela, além do calor que as meninas sentem, a medida tem um viés  machista, de que as meninas de short estariam se expondo. “Escola também é lugar de educar. Por que não falar sobre o respeito, no lugar de proibir uma bermuda?”. 

Pelo menos uma queixa com relação à diferença no uso do uniforme chegou até o Ministério Público Estadual (MPES), que enviou odcio para  ouvir a escola.

Especialistas dizem que  momento deve ser de  educar

Diante da polêmica envolvendo os uniformes escolares, especialistas afirmam que as escolas devem aproveitar o momento  para iniciar  debates e conversas voltadas a  educar as crianças e os adolescentes e quebrar estigmas enraizados na sociedade. 

A psicóloga e psicanalista infantil Paula Santos destacou que é papel também das escolas criar discussões e posicionamentos a respeito de temas como esses.

“É uma questão de educação mesmo, de como meninos e meninas devem se respeitar. De que os direitos conquistados ao longo da história pelas mulheres não podem ser perdidos”, destacou.

Para ela, tanto as famílias quanto as escolas precisam investir tempo  para ensinar além das disciplinas de Português e Matemática. 

“É fundamental investir  no ser humano, enquanto ser emocional. Muitas escolas já têm projetos assim, que trabalham essas questões emocionais, outras ainda não possuem”, afirmou Paula Santos.

A psicóloga clínica Marina Miranda afirmou que a escola é um ambiente importante, por refletir  uma cultura da nossa sociedade.

Para ela, o pensamento de “proteger” as adolescentes de olhares desrespeitosos, no lugar de ensinar meninos e meninas sobre o respeito ao corpo, é realmente a forma que a sociedade tem se colocado ao longo dos anos. 

“A preocupação é a escola estar reforçando essa ideia, pois ela tem oportunidade de quebrar isso. A  cultura do machismo é aprendida  muito antes mesmo do 6º ano (do ensino fundamental). Então é desde cedo que deve ser mudada”.

Para ela, no curto prazo, as escolas podem avaliar como trabalhoso desenvolver discussões, rodas de conversas e debates sobre o tema. Mas, a longo prazo, os resultados seriam muito importantes. “Poderíamos reduzir casos de assédio, de abusos e de traumas que mulheres carregam”, ressalta Marina.

Proibir as meninas de usarem as bermudas, para Marina, é o mesmo que reforçar o dito popular “segure as cabritas, que meu bode está solto”. “São sempre as meninas que têm de proteger seus corpos, pois os homens não são ensinados que não podem invadir, assediar e desrespeitar mulheres”.

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