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CRIME

“Mulheres estão identificando mais a violência psicológica”

Especialista orienta vítimas de abusos em relacionamentos amorosos a buscarem apoio na família, nos amigos e na terapia

14/11/2021 17:09:02 min. de leitura

Imagem ilustrativa da imagem “Mulheres estão identificando mais a violência psicológica”
Sabrina diz que abusador tenta distanciar a vítima da família e dos amigos Foto: Kadidja Fernandes/AT
 

Enquadrada como crime somente em julho deste ano, após a criação da Lei 14.188, a violência psicológica sempre agiu de forma silenciosa.  No País, identificar a situação  ainda é um grande desafio, sobretudo por causa da banalização dessas agressões nos relacionamentos amorosos.    

Porém, para a psicóloga Sabrina Matias, as mulheres – que são as mais afetadas pelo problema – estão conseguindo  denunciar o crime cada vez mais cedo e, até mesmo, ajudando outras vítimas a se “empoderarem” para não sofrerem  nas mãos dos seus abusadores.    

A TRIBUNA – O que define a violência psicológica?

Sabrina Matias – De forma geral, são aquelas atitudes que o abusador toma para conseguir o que ele quer da vítima, sem,  necessariamente, envolver agressão física.   Vale citar algumas frases clássicas, como,  por exemplo: “Se você não fizer o que eu mandar, não vou te dar dinheiro”, ou “Se não voltar para mim, vou tomar  a guarda do  seu filho”.

Essa agressão também costuma ser expressa em ameaças, constrangimentos na frente dos outros, humilhações, isolamento,   ridicularização, entre outras ações. 

Como a pessoa pode identificar que está sofrendo essa violência?

Uma das formas mais fáceis de perceber que você está sofrendo violência psicológica é sentir medo do que  vai vestir, falar, medo do seu comportamento e de alguma reprimenda do seu parceiro.

Também é muito comum que o abusador faça de tudo para distanciar a  família e os amigos da vítima dela, pois todos eles servem como uma rede de apoio importante para livrá-la dele.

Os relatos sobre violência psicóloga têm crescido nos consultórios? 

Essa situação sempre existiu, mas as mulheres aceitavam  isso como algo que tinham de viver, algum tipo de carma. Agora, elas  estão aprendendo, aos poucos, a identificar  a violência  psicológica  e, por isso,  começaram a procurar mais  os consultórios. 

No entanto, esse número  ainda é  pequeno.  Há muitas mulheres que vivem um relacionamento  achando que tudo o que está acontecendo é culpa delas.

As redes sociais têm ajudado nesse diagnóstico?

Sim. Na internet, as mulheres têm falado muito sobre as próprias  dores, e isso faz com que  se identifiquem. Elas conseguem até se empoderar diante da história de uma desconhecida.

Quais empecilhos explicam a dificuldade de se romper esse ciclo de violência?

Estamos falando de um tipo de relacionamento que, até pouco tempo atrás, era tido como normal e havia, até mesmo, repreensões, caso algumas mulheres viessem a não aceitá-lo.

Infelizmente, isso é consequência de  um simbolismo que a sociedade colocou, de que as mulheres precisam encontrar o “príncipe encantado” dela. 

Quando ela  acha que encontrou, custa a acreditar que há algo muito tóxico nessa relação. Mas, normalmente, o homem usa disso para   deixá-la ainda mais vulnerável.

Se esses abusos se tornarem frequentes, o que pode acontecer?

Podem aparecer transtornos, síndrome, compulsões e depressão nessa vítima. 

Quais os primeiros passos que devem ser  tomados após reconhecer o problema?

Em primeiro lugar, eu acho que um grande passo é voltar a tentar uma reaproximação com amigos e familiares, já que, provavelmente,  eles estarão mais afastados. Segundo, e mais importante, fazer terapia. 

Outra ideia bacana é  fazer  atividades físicas, até porque, elas  liberam vários hormônios que ajudam a ter mais energia e felicidade. 

A vida espiritual dessa vítima também é muito importante.Ter fé em algo é extremamente importante, porque há um apego e uma perspectiva de melhora. E, lógico, aprender a criar uma autocompaixão, para conseguir se perdoar e entender o que a fez chegar até aquela situação. O ideal é que ela consiga se lembrar de quem era antes dessa relação abusiva.   

Como amigos e familiares podem ajudar?

 Não é apropriado chegar e falar para sair do relacionamento, como se fosse algo fácil.  É preciso muito respeito e apoio, mesmo se esse abusador tentar afastá-la da família e dos amigos.

Como os governantes podem ajudar a melhorar a situação?

Hoje,  a Lei 14.188/2021 dá um respaldo a essa mulher que sofreu violência psicológica, mas ela ainda é muito desacreditada. Isso deveria ser mudado com urgência.      

Outras atitudes também seriam importantes, como a propagação do conhecimento de que essas atitudes não são normais; uma rede de apoio gratuita, com psiquiatras e psicólogos;  e o acolhimento  social dos filhos, pois muitas vítimas só aguentam a barra por causa das crianças.