Marcos Piangers: Um pai presente muda tudo
Autor de best-seller sobre paternidade diz que o papel dos pais está mudando e hoje eles participam mais da vida dos filhos
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É fato: o papel do pai na sociedade está mudando. Sai a figura do genitor que somente provê o sustento, mas não é presente na vida do filho, e entra o pai participativo, que conversa, dá carinho e divide funções e responsabilidades com a mãe.
É a chegada de um novo modelo de pai, mais feliz, equilibrado, conectado com seus afetos e até mais bonito. Afinal, “um pai presente muda tudo”.
Quem garante é o comunicador e palestrante Marcos Piangers, pai da Anita, 16 anos, e da Aurora, 9, e autor de um livro best-seller sobre paternidade: “O Papai é Pop”, que teve mais de 500 mil cópias vendidas e foi adaptado para o cinema com Lázaro Ramos e Paola Oliveira.
“O pai participativo é uma libertação para a mulher, mas também para o homem, que descobre a alegria que é estar perto dos filhos. Ele se torna mais feliz”.
A Tribuna:
- A construção social pelo machismo criou uma imagem equivocada do que é ser pai?
Marcos Piangers: Algumas transformações no século passado deram uma bagunçada naquele conceito de família que tínhamos. Nos últimos 100 anos, as mulheres entraram no mercado de trabalho e acumularam funções, cuidando também da casa e dos filhos, e hoje já temos no Brasil 49% dos lares sustentados por mulheres. A gente olha esse acúmulo de função e vê que tem problema. Devemos repensar no nosso papel confortável de homem, que também batalha, que trabalha muito, mas em geral somos colocados afastados da família.
O homem não é menos homem por cuidar da casa, buscar o filho na creche, não deixar as funções somente para a mulher. Nessa nova proposta, as mulheres têm mais liberdade, pois o marido é uma figura parceira, mas o homem também descobre a alegria de estar perto dos filhos e a romantizar essa relação que antes era distante e bruta. É uma libertação para ambos. O pai também pode “maternar”, pelo dengo, carinho, afeto, brincadeira, e a mãe pode “paternar”, ser mais rígida e apresentar o mundo para a criança. É um processo saudável que traz um referencial melhor para a criança.
- O abandono paterno é uma das consequências desse modelo “antigo” de pai?
Aquele estereótipo do pai que não participa nos trouxe para um Brasil com 11 milhões de mães solos, com 6 milhões de crianças sem o nome do pai na certidão... Com homens que são maioria no sistema penitenciário, moradores de rua, que se matam mais. É um comportamento de masculinidade autodestrutiva.
- O papel do pai já está mudando ou ainda é cedo?
Já está mudando. Mas sempre tivemos grandes pais, mesmo no passado, que também ajudaram a pavimentar essa discussão de hoje, mostrando que a construção de vínculo e afeto funciona. Hoje, somos frutos de uma geração com dois comportamentos: uma parte dos homens se inspiram nesses bons pais de antigamente, que eram carinhosos e fortaleceram os vínculos e a inteligência emocional dos filhos. A outra parte, de pais ausentes, abusivos, jovens que formam uma geração que questiona e fala: 'isso não funcionou e eu preciso ser melhor que o meu pai'.
- O quão difícil é mudar a mentalidade de quem já foi criado dessa forma?
É muito difícil, porque o padrão é a repetição. A tendência é repetir o que o pai fez e achar que uma pequena melhora já é suficiente. Quando batemos nos nossos filhos e eles reclamam, falamos: 'você não imagina o quanto meu pai me batia'. É um processo que o pai tem que tratar, pois a criança não tem nada com isso. Então, não devemos comparar a nossa relação com nossos filhos com os pais do passado. A criança é um ser que merece respeito e não diz respeito a quanto seu pai era ausente ou violento.
- A nova geração já vai vir com essa nova consciência de paternidade?
Acho que não. Por mais que a gente se esforce para criar meninos preparados para a paternidade, a sociedade passa uma série de sinais equivocados. Esse menino, mesmo bem criado, vai lidar com amigos que dizem que menina não sabe jogar bola, que não pode brincar com os meninos, que o menino que veste rosa é menos homem, tem a masculinidade colocada em xeque quando encosta no amigo. Além de outras situações da sociedade, como a licença-paternidade menor que a maternidade, não ter trocador de criança no banheiro masculino, círculos masculinos que não falam de paternidade.
Por mais que a criança tenha uma boa base, tudo isso reforça a ideia de uma masculinidade autodestrutiva. Então, essa geração não vai vir já com essa consciência de fábrica. Temos que constantemente educar e reforçar.
- É comum ver mães publicando sobre maternidade nas redes sociais, seja celebrando ou mostrando as dores reais. O pai, de forma geral, não faz isso. Por quê?
A masculinidade, em geral, é construída em oposição à feminilidade. O feminino tem características bem marcadas, como instinto, o toque de si mesmo, a autoaceitação, o cuidado. Mas quais são as características do homem? É colocado a valentia, a coragem, o senso de justiça e a proteção dos mais fracos, que são valores importantes, mas que são valores tratados, muitas vezes, de forma autodestrutiva, como o valente que bate, o corajoso que se arrisca no trânsito.
Não percebemos a característica como mansidão e temperança como característica masculina, que também são valores importantes que devem ser cultivados. E com isso o homem se sente desconfortável com tudo que é “feminino”, sensível, instinto, cuidado, e isso deixa o homem constrangido para falar de paternidade.
Mas isso está mudando. Já estamos criando referenciais para que o homem se torne mais participativo dentro de casa. E isso é bom, torna um homem mais feliz, equilibrado e conectado com seus afetos, e até mais bonito, segundo a ciência. É a construção de um novo pai, participativo, que é mais feliz participando da família, que consegue dar conta do trabalho, mas também é um bom pai.
- Há uma percepção de que a maternidade já começa na gravidez, mas a paternidade só vai começar muito tempo depois? É algo que precisa mudar?
Até podemos incentivar o homem a participar desde cedo, mas é um processo bem natural, pois a mulher é impactada pelo biológico e o homem é impactado pela chegada da criança.
- Qual a importância do pai falar sobre temas que tradicionalmente são abordados apenas pela mãe, como sexualidade?
É importante que a criança tenha mais referenciais e mais pessoas para falar de assuntos importantes. Ela vai achar afinidades nos assuntos com o pai, assim como é com a mãe. É importante ter famílias saudáveis e com círculo de apoios para criar filhos, com pai, mãe, avó, avô, mais gente se percebendo como cuidador na sociedade. E isso passa por uma transformação masculina, não sendo mais violento, assediador, não se percebendo como alguém que é proprietário das mulheres e pode ser agressivo com as crianças.
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