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Caminhoneiro perde família e vai viver nas ruas

Após a mulher de Marcos Cuti, 52, grávida de 8 meses, morrer em acidente, ele foi demitido de uma mineradora

Francine Spinassé, do jornal A Tribuna | 04/02/2022 16:46 h

Marcos ganhou uma bicicleta, que usa para recolher material reciclável nas ruas e vender
Marcos ganhou uma bicicleta, que usa para recolher material reciclável nas ruas e vender |  Foto: Lucas Sandonato/AT
 

“Bom dia, família!” É com a tradicional fala e um sorriso no rosto que Marcos Cuti, de 52 anos, cumprimenta a todos que passam pela frente da sua “casa”, montada de forro de PVC em uma calçada do bairro Mario Cypreste, em Vitória.

Ele contou que viver nas ruas foi resultado de uma série de situações difíceis pelas quais passou ao longo da vida, desde a morte da mulher grávida de oito meses em um acidente de trânsito há mais de 10 anos, até a perda do emprego como motorista de caminhão em uma mineradora.

Marcos contou que chegou a trabalhar como encarregado em um lava a jato depois, mas conseguir um emprego formal ficou cada vez mais difícil com o passar dos anos. 

“Nunca deixei de trabalhar mesmo assim. Trabalho com reciclagem todos os dias. Vendo o que encontro de material e aproveito o que posso na minha casa e na região. Mantenho a rua limpa, mas esses dias levaram minha vassoura e estou à procura de outra, pois não gosto de nada sujo por aqui”.

Deixar as coisas mais “bonitas” é uma regra para Marcos. É difícil passar pelo local e não olhar para a casa branca, com quadros e cercada de plantas, que ele faz questão de cuidar todos os dias. Mensagens de motivação também são escritas por ele em placas. “Todos me conhecem e recebo ajuda de amigos da região. Ganhei de comerciantes uma bicicleta para trabalhar e não ter que empurrar mais na mão o carrinho de reciclagem”.

Desde o início da vacinação contra a covid-19, a região onde mora tem sido cada vez mais visitada, já que fica de frente para um dos maiores pontos de aplicação do imunizante, o Maanaim.

Ele contou que espera a liberação de um valor de uma ação na Justiça Trabalhista, em trâmite desde 2012, contra empresas em que trabalhou.

Com o valor, ainda sem previsão de sair, ele sonha em montar seu próprio ferro-velho, que já tem até nome: Reciclagem Família. Ele quer, assim, poder deixar as ruas e ajudar outras pessoas. 

O advogado de Marcos na ação, Esmeraldo Ramacciotti, confirmou que já existe decisão favorável no processo, mas que ainda está na fase de cálculos e discussão sobre valores.


“Sonho em ter meu próprio ferro-velho”


Ao lado do fiel escudeiro, o cão carinhosamente chamado de “Bebê”, Marcos Cuti, de 52 anos, contou a trajetória que o levou, há três anos, a morar nas ruas.

Marcos com o cão “Bebê”: família
Marcos com o cão “Bebê”: família |  Foto: Lucas Sandonato/AT
 

A Tribuna –  O que levou o senhor a viver nas ruas?

Marcos Cuti – As circunstâncias da vida mesmo. Eu trabalhei muitos anos como motorista de caminhão em uma mineradora. Fui contratado aqui em Vitória, mas depois me mandaram para trabalhar em uma mina, em Minas Gerais. Cheguei a ganhar um bom salário, mais de R$ 4 mil por mês. Morei em Bairro de Fátima, na Serra.  Tive duas casas em Feu Rosa, mas hoje não tenho mais nada. 

O que aconteceu?

Eu perdi o emprego e depois foi difícil recuperar. Cheguei a trabalhar como encarregado em um lava a jato depois por um tempo, mas conseguir emprego ficou cada vez mais difícil.

E não tem família?

Não tenho ninguém por mim. Perdi minha mulher, que estava grávida da minha filha, há mais de 10 anos, em um acidente. Eu estava junto e fiquei internado. Quando saí do hospital, tinham enterrado as duas.

Depois disso, as coisas foram acontecendo na minha vida. Praticamente dei as casas que tinha, pois vendi a preços muito baixos. Há três anos passei a ficar sem lugar para viver.  

Cheguei a morar nas ruas na Serra por um tempo, mas saí. Há mais de um ano estou em Vitória. Fiz minha casinha com PVC, que encontrei, tenho um sofá para dormir, meus quadros, plantas.   

Minha única família é o bebê (cachorro), que está sempre comigo.

Casa foi construída por Marcos, feita de PVC, no bairro Mario Cypreste. Local tem ainda plantas e frases motivacionais para as pessoas da região
Casa foi construída por Marcos, feita de PVC, no bairro Mario Cypreste. Local tem ainda plantas e frases motivacionais para as pessoas da região |  Foto: Lucas Sandonato/AT
 

Hoje sobrevive como?

Eu trabalho com reciclagem. Recolho materiais, vendo bem próximo para uma pessoa muito bacana.  Compro minha própria comida, mas quando não é possível, também tenho pessoas que me ajudam muito por aqui. 

Alguns amigos, comerciantes da região, chegaram a me dar a bicicleta, que uso para carregar o material que recolho. Antes eu tinha que ficar empurrando o carrinho.

Sou muito grato e todos me conhecem, gosto de manter a rua sempre limpinha, varrida. Coloco minhas plantas para ficar bonitinho.

Qual o seu maior desejo hoje?

Queria fazer as cirurgias que preciso. Também quero conseguir abrir meu próprio ferro-velho e trabalhar. Com o que receber, sonho em poder ajudar outras pessoas em situação difícil, como a minha.

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