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Arcos de violino do Estado fazem sucesso na Europa

| 04/10/2020 20:13 h | Atualizado em 04/10/2020, 20:51

Os arcos de violino “made in Espírito Santo” conquistaram músicos estrangeiros e viraram sucesso, principalmente, na Europa, onde estão as maiores orquestras do mundo. São mais de 25 mil arcos exportados por ano.

A qualidade do produto, segundo os especialistas, está na madeira usada, o pau-brasil. O arco é utilizado em todos os instrumentos de corda de uma orquestra – violino, viola, violoncelo, contrabaixo e a, cada vez mais rara, viola da gamba.

Uma das oito empresas capixabas de archetaria (de fabricação de arcos para instrumentos de corda), localizada em Domingos Martins, na Região Serrana, exporta cerca de 100 arcos mensais. Eles são feitos com pau-brasil pelas mãos de 23 artesões.

Marco Raposo  mostra arco de violino feito com madeira de pau-brasil
Marco Raposo mostra arco de violino feito com madeira de pau-brasil |  Foto: Roberta Bourguignon
O proprietário da empresa, Marco Raposo, que atua no ramo há 21 anos, revela que, se o arco não for bom, tudo desafina.

“A tradição na Europa é o instrumento de corda. Nossa madeira é a melhor para os arcos, em densidade, sonoridade, propagação do som, e flexibilidade. Se o arco não for bom, a orquestra desafina”, destacou o empresário.

Ele contou que cada instrumento tem o seu arco e que o do violino tem o peso padrão de 60 gramas. “Para viola, é um pouco maior e tem 10 gramas a mais”.

Marco é de Brasília (DF). Ele atuava como comissário de bordo e, durante as viagens para a Europa, passou a vender arcos de violino produzidos por um amigo. Os primeiros foram vendidos em Viena, na Áustria.

Influenciado pelo amigo, Marco decidiu aprender a arte da archetaria. “Eu não imaginava que seria capaz de trabalhar com algo manual, mas pedi licença da empresa de aviação, onde fui comissário por 12 anos, e fui para a Universidade de New Hampshire, nos Estados Unidos, para aprender a fazer o arco. Fiquei lá dois anos e voltei para o Brasil, vindo morar no Espírito Santo”, lembra.

No Estado, Marco se deparou com uma primeira dificuldade: onde encontrar o pau-brasil?

A árvore ameaçada de extinção começou a ser estudada pelo empresário, que criou o Instituto Verde Brasil. Ele produziu sementes e, em parceria com o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), distribuiu, em 2004, mais de 200 mil mudas para plantio.

Enio Bergoli e Pedro Galvêas estudam as mudas de pau-brasil.
Enio Bergoli e Pedro Galvêas estudam as mudas de pau-brasil. |  Foto: Divulgação

Plantio começou em 2004

O plantio de 200 mil mudas de pau-brasil, em 2004, partiu de uma parceria entre o Instituto Verde Brasil, o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) e a Secretaria de Estado de Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag).

Na ocasião, 600 produtores receberam as mudas de pau-brasil. Parte dessas mudas foram plantadas nos três bosques do Incaper. Neste ano, o órgão começa a fazer a avaliação das mudas. Estão à frente das pesquisas o engenheiro agrônomo Enio Bergoli e o pesquisador, Pedro Galvêas, ambos do Incaper.

“Vamos medir essas árvores, a densidade, o peso, e vamos poder fazer indicações a partir desse projeto, dizendo qual melhor espécie para determinada região. Vamos poder dar essa garantia. O prazo para uma árvore chegar ao ponto ótimo é de 20 a 25 anos, para fazer o corte e a produção dos arcos”, explicou Enio Bergoli.

São três espécies de pau-brasil. “O folha de arruda; o folha de laranjeira, que só nasce na Bahia, e o folha do café, que só nasce no Espírito Santo e é o que mais nos interessa”, detalhou o engenheiro agrônomo. “O Incaper estabeleceu áreas para apoiar os produtores que, no futuro, terão um banco genético de sementes, possibilitando a plantação de outras árvores”.

Antes da produção no Espírito Santo, os produtores buscavam as sementes em Pernambuco. Agora, o Estado pode fornecer as sementes.

Arcos para variados instrumentos.
Arcos para variados instrumentos. |  Foto: Divulgação

Artesãos que fazem peças têm até curso de inglês

O empresário Marco Raposo explica que um artesão leva até três anos para virar um profissional. Alguns profissionais fabricam o arco do começo ao fim. Outros são divididos em três setores.

O primeiro setor transforma a madeira em vareta. O segundo trabalha o talão (a parte de trás do arco). Tem ainda o setor que cuida do acabamento, aplica o verniz e faz o corinho com fio de prata.

“A archetaria funciona como uma relojoaria. O arco de violino é lapidado. Tenho um artesão que produz, exclusivamente, os arcos profissionais e fabrica do começo ao fim. Ele produz dois arcos por mês”, relatou Marco.

Como as vendas acontecem no exterior, até aula de inglês o empresário já pagou para os seus artesãos.

“Eu já coloquei professores de inglês para ensinar os artesãos, mas eles não se interessaram. Somente um aprendeu inglês, e é o que está comigo e virou meu braço direito”, completou ainda Marco Raposo.

Faturamento de R$ 65 milhões por ano com exportação

Os arcos de violino movimentam, em média, R$ 65 milhões por ano no Estado. As peças fabricadas no Espírito Santo custam de R$ 1.600 a R$ 7 mil no mercado internacional.

Além dos países da Europa, os arcos capixabas vão parar também nos Estados Unidos, no Canadá e na Ásia.

“No Espírito Santo, oito empresas fabricam arcos, 200 artesãos se profissionalizaram em archetaria. Destes, 180 estão vinculados a essas empresas, e 20 trabalham de forma individual”, explicou o engenheiro agrônomo do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), Enio Bergoli.

O engenheiro destaca que, com a produção de árvores em grande escala no Espírito Santo, a fabricação de arcos pode aumentar, reduzindo os gastos com a matéria-prima e facilitando o trabalho dos artesãos.

“Nossa intenção não é sair cortando as árvores. Nossos bosques são para produção principal de sementes. Vamos continuar plantando”, ressalta Bergoli.

Para a produção dos arcos capixabas, é usado somente o cerne da árvore, que é o miolo do pau-brasil. Uma boa árvore pode gerar até três mil arcos.

Três espécies de pau-brasil.
Três espécies de pau-brasil. |  Foto: Divulgação

Saiba mais

Curiosidades

  • A maioria dos arcos produzidos no Espírito Santo é vendida para o exterior. As peças são vendidas a partir de R$ 1.600 e podem custar até R$ 7 mil. A qualidade do produto, segundo especialistas, está na madeira usada, o pau-brasil.
  • O arco é usado em todos os instrumentos de corda de uma orquestra – violino, viola, violoncelo, contrabaixo e, a cada vez mais rara, viola da gamba.
  • Os arcos possuem tamanhos diferentes. Para violino, o peso padrão de 60 gramas. Para viola, é um pouco maior e tem 10 gramas a mais. Uma peça de má qualidade pode desafinar uma orquestra.

Mudas

  • Em 2004, 200 mil mudas foram distribuídas para 600 produtores do Espírito Santo. Com a plantação, o Estado passou a produzir sementes.

  • O prazo para uma árvore chegar ao ponto considerado “ótimo” é de 20 a 25 anos, para fazer o corte e a produção dos arcos. Uma árvore gera até 3 mil arcos.

Fonte: Especialistas entrevistados.
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