Quem é a médica condenada por lavar dinheiro do tráfico de drogas
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A médica Larissa Gabriela Lima Umbuzeiro, de 30 anos, foi condenada a 16 anos e seis meses de prisão acusada de integrar organização criminosa e praticar lavagem de dinheiro. A Justiça baiana concluiu que ela e cinco familiares estavam envolvidos em um esquema que favorecia o tráfico de drogas em Feira de Santana. Os condenados poderão recorrer em liberdade.
A defesa da médica afirma que ela sofre “prejuízos sociais” por crimes que não cometeu. O advogado Nestor Távora argumenta que Larissa é “vítima do contexto patriarcal” (leia mais abaixo).

A decisão foi proferida pela 3.ª Vara Criminal da Comarca de Feira de Santana na terça-feira (1.º). Além de Larissa, foram condenados: Niedja Lima (mãe de Larissa), Clênia Maria Lima Bernardes (irmã de Niedja), Paulo Victor Bezerra Lima (esposo de Larissa), Gabriela Raizila Lima de Souza (sobrinha de Niedja) e Robélia Rezende de Souza (prima de Niedja).
O advogado de Niedja afirmou que recorrerá da decisão. As defesas de Paulo, Clênia, Gabriela e Robélia não foram localizadas.
Entre os seis condenados, Larissa e Niedja receberam as maiores penas — 16 e 14 anos, respectivamente. Na sentença, que detalha o envolvimento de cada um dos réus com base em informações policiais, relatórios de inteligência financeira e interceptações telefônicas, mãe e filha aparecem como as chefes do núcleo financeiro, responsáveis pela gestão e pelo fluxo de dinheiro ilícito, organizando o esquema de lavagem.
Os condenados em primeira instância, segundo o Ministério Público da Bahia (MP-BA), “integravam um grupo familiar criminoso que atuava há décadas em Feira de Santana e região, abastecendo o mercado de drogas ilícitas local e lavando os lucros do crime com a compra de imóveis, entre apartamentos de luxo e fazendas”.
A Justiça determinou o confisco de bens avaliados em até R$ 50 milhões, incluindo mais de 500 cabeças de gado, 15 veículos e 11 imóveis. Uma semana antes da condenação, Larissa seguiu sua rotina normalmente em Feira: trabalhou, com tornozeleira eletrônica no calcanhar, em plantões como médica generalista e publicou vídeos em que dava dicas sobre cuidados com a pele nas redes sociais, o que tem feito desde fevereiro deste ano em seu perfil profissional.
Na antiga página pública no Instagram, Larissa compartilhava trechos mais pessoais de sua rotina, como viagens e festas. A médica tenta se distanciar publicamente do sobrenome Umbuzeiro desde 2024, quando foi presa temporariamente pela primeira vez em São Paulo, ao sair de um hotel para um evento médico, no âmbito da Operação Kariri.
O pai de Larissa, Rener Umbuzeiro, apontado como líder da organização criminosa, também foi alvo da ação. Ele morreu após trocar tiros com policiais que cumpriam um mandado de prisão, segundo a versão oficial.
Niedja e Paulo também foram presos no curso da Operação Kariri, iniciada em 2019 após a apreensão de 900 kg de maconha escondidos em um caminhão carregado de bananas, em Irecê, na Bahia. Ao mapear a origem da droga, a Polícia Federal (PF) afirma ter encontrado seis fazendas com plantação de maconha, todas ligadas a Rener.
A investigação apontou que a família Umbuzeiro usava um “esquema sofisticado” de repasse familiar para ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro. Os imóveis, segundo os autos, eram registrados em nome dos três filhos de Rener e Niedja e depois transferidos para parentes e terceiros, usados como laranjas para dificultar o rastreamento da origem do dinheiro.
A investigação também identificou movimentações bancárias fracionadas, com depósitos sucessivos em espécie para evitar a detecção e a obrigação de reportar grandes transações.
Em 2021, conforme trecho do julgamento de um habeas corpus acessado pelo Estadão, Larissa e Paulo já estavam preocupados com as investigações. A médica temia que a existência de um processo judicial público na internet a prejudicasse profissionalmente. E Paulo, segundo as investigações, chegou a ameaçar o policial federal que presidia o inquérito: “Se esse delegado vier a citar Larissa, aí eu invado aquela academia ali para ‘picar’ a mão nele. Eu ‘armo’ uma para ele”.
Organização criminosa em expansão
A família Umbuzeiro chegou a Feira de Santana, vinda do sertão de Pernambuco, no início dos anos 2000. O motivo da mudança para o interior baiano não é conhecido, mas o inquérito da PF aponta que Rener, que se apresentava como agricultor e pecuarista, já estava envolvido com o plantio de maconha havia pelo menos três décadas e pretendia expandir a organização criminosa para outros Estados, como Alagoas.
Larissa ainda era criança quando desembarcou na Bahia e cresceu entre a classe média alta e rica da cidade. Em 2015, iniciou a graduação em Medicina em uma faculdade privada de Salvador, cuja mensalidade é de R$ 13 mil. Morou durante os seis anos de graduação na capital baiana. Aos olhos de ex-colegas, Larissa era uma mulher “tranquila e esforçada”. Foi ela, por exemplo, quem fundou a Liga Acadêmica de Medicina Generalista da faculdade onde estudava.
“Ela era como qualquer outra aluna, não tinha nada de muito diferente”, afirmou um ex-colega, sob condição de anonimato. “A gente sabia, sim, que ela tinha boas condições financeiras, porque morava em um apartamento enorme, em um bairro nobre da cidade”, diz. “Mas isso era bem comum entre outros estudantes.”
O imóvel ao qual ele se refere é um dos três de que Larissa é proprietária. Comprados em espécie entre 2013 e 2014, os bens estão relacionados na sentença judicial à lavagem de dinheiro. E Larissa, ainda de acordo com a investigação, não só sabia disso como mantinha contato com um contador para tentar driblar a Receita Federal e regularizar a situação fiscal dos bens.
O advogado de Larissa, Nestor Távora, contesta essa versão. “Um pai colocar um imóvel no nome de um filho é algo normal”, afirma. Távora argumenta que Larissa é “vítima do contexto patriarcal”. “Todos os meios estão noticiando que ela é traficante e foi condenada por tráfico, e isso é mentira”, diz. “O pai de Larissa, não posso falar por esse homem porque não sou o advogado, mas no único processo que existiu contra ele, ele foi absolvido. Ele foi citado nessa operação de 2019, então presume-se que tudo que ele teve na vida foi adquirido de forma ilícita.”
Depois da graduação, Larissa retornou a Feira, onde se casou com Paulo Lima (também condenado), dono de uma loja de ferramentas. Um dia após a condenação, Paulo seguia ativo nas redes sociais: compartilhou no Instagram um vídeo com dicas para evitar estresse em reformas.
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