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AT em Família

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Medo excessivo do parto atinge 14% das gestantes

Especialista afirma que sentimento indica um transtorno chamado partofobia, onde há riscos para a mãe e o bebê

Kariny Baldan | 31/10/2021, 13:16 13:16 h | Atualizado em 31/10/2021, 13:18

Imagem ilustrativa da imagem Medo excessivo do parto atinge 14% das gestantes
 

As preocupações com o momento do parto são naturais em todas as gestantes. Entretanto, em alguns casos o medo é tanto que chega a ser considerado um transtorno. Esse quadro é conhecido como partofobia e pode ter impactos também na saúde do bebê.

O sofrimento materno altera a fisiologia da gestante, elevando o risco de pré-eclâmpsia, parto prematuro e admissão do recém-nascido em unidades de terapia intensiva (UTIs), além de outras consequências, explica José Luis Leal de Oliveira, que é médico psiquiatra e diretor da Associação Psiquiátrica do Espírito Santo ( Apes ).

Segundo publicação da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), estudos internacionais demonstram uma prevalência da partofobia que varia entre 3,7% e 43%, sendo que a média gira em torno de 14% das gestantes.

Essas pesquisas indicam ainda que aproximadamente 80% das mamães apresentam temor do parto que não se configura como doença. Em entrevista ao AT em Família, o médico enfatiza a importância da avaliação psicológica ou psiquiátrica pré-natal, que pode prevenir a doença ou suas formas mais graves.

José Luis Leal de Oliveira é médico psiquiatra
José Luis Leal de Oliveira é médico psiquiatra |  Foto: Divulgação
 

AT em Família – Quais são as principais preocupações que afligem as pacientes com esse tipo de fobia?

José Luis Leal de Oliveira – As preocupações excessivas neste caso são relacionadas ao processo do parto em si, tanto com relação aos riscos para o bebê quanto para a mãe, inclusive o temor de não tolerar o processo expulsivo, de sucumbir à dor das contrações, de precisar de uma episiotomia e até de decepcionar a terceiros diante da expectativa excessiva de um parto normal.

Quando a insegurança deixa de ser natural e passa a ser considerada transtorno?

Quando começa a trazer prejuízo expressivo, com sofrimento intenso, insônia, ataques de pânico e sintomas físicos relacionados ao medo excessivo, tais como elevação da pressão arterial e dos batimentos cardíacos, temperamento e humor instável, comportamentos impulsivos e decisões precipitadas até mesmo no sentido de mudar o plano do tipo de parto (do normal ao cesáreo).

Qual o perfil de mãe mais afetado?

As primigestas, ou seja, as mães na primeira gestação apresentam um risco aumentado. Aquelas que sofreram violência obstétrica em parto prévio também apresentam risco elevado. A chance de ter a partofobia é maior quando há estressores psicológicos relevantes, como uma gravidez indesejada ou que não seja aceita por familiares. Fatores tais como baixa autoestima, história de transtornos de ansiedade ou transtornos depressivos, história de abuso sexual, fraca rede de apoio social, relacionamentos amorosos conflituosos ou debilitados, e experiências adversas prévias com parto ou perdas gestacionais são fatores de risco.

Quais são as consequências da partofobia para a mãe e para o bebê?

O sofrimento materno altera a fisiologia da gestante, com aumento da pressão arterial, prolongamento da fase ativa da dilatação cervical, maior risco de préeclâmpsia, parto prematuro, cesariana de emergência, parto vaginal operatório, depressão pós-parto, baixos índices de amamentação e maior admissão do recém-nascido em unidades de terapia intensiva ( UTIs ).

Há também chance aumentada de apresentar privação do sono, do bebê nascer pequeno para a idade gestacional, dificuldade em estabelecer vínculo afetivo apropriado com o bebê e de apresentar mais dificuldade no aleitamento materno.

Como é o tratamento?

O tratamento ideal é o preventivo. Geralmente uma avaliação psicológica ou mesmo psiquiátrica pré-natal pode evitar o desenvolvimento da doença ou de suas formas mais graves. Já o tratamento quando o quadro já se instalou de modo grave é a combinação da psicofarmacoterapia com psicoterapia.

PERGUNTA DOS LEITORES

As emoções se estabilizam após o nascimento da criança ou a mãe permanece com reflexos do transtorno?
Milena Rocha Nascimento, 23 anos, designer de sobrancelha

Às vezes elas se estabilizam, mas há uma chance maior de haver reflexos como evoluir para uma depressão pós-parto, o que resulta em elevadíssimo risco de suicídio, assim como transtornos ansiosos e outros transtornos psiquiátricos.

Como as mães devem se preparar para o momento do parto? 
Ana Célia Martins, 53 anos, costureira

É importante que os pais pesquisem sobre o desenvolvimento da gravidez e sobre o trabalho de parto. E que tenham um profissional obstetra ou equipe obstétrica de confiança, inclusive com doulas para acompanhar o trabalho de parto de modo acolhedor e encorajador, oferecendo conforto e segurança.

FIQUE POR DENTRO

A PARTOFOBIA é uma patologia caracterizada pelo medo excessivo do parto. É um transtorno de ansiedade do tipo fóbico, de causa multifatorial, tendo como base fatores psicológicos, sociais e biológicos.

AS ACOMETIDAS são as mães. No entanto, o transtorno afeta negativamente os familiares em razão do intenso sofrimento que causa. Até o bebê sente os reflexos da condição na mãe.

SE INSTALA mais frequentemente no terceiro trimestre gestacional, quando se está mais próximo do momento do parto. Ou pode iniciar durante o trabalho de parto.

APÓS O NASCIMENTO do bebê, o quadro da mãe pode evoluir para depressão pós-parto.

EPISIOTOMIA – Incisão no períneo (região entre o ânus e a vagina) para facilitar o parto natural.
DILATAÇÃO CERVICAL - Abertura do colo do útero da gestante para permitir a passagem do bebê.

OS NÚMEROS

80% das grávidas apresentam temor do parto que não se configura como doença

14% das gestantes, em média, são atingidas pela partofobia

3º trimestre de gestação é a fase mais comum de surgir a fobia

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