Câncer afeta mais pacientes com menos de 50 anos
Alimentação, obesidade e sedentarismo têm forte relação com o aumento no número de casos, apontam especialistas
Mais de 780 mil novos casos de câncer por ano são estimados no Brasil entre 2026 e 2028, considerando todas as faixas etárias. Ainda que por décadas o câncer tenha sido considerado uma doença associada ao envelhecimento, estudos mostram que esse cenário tem mudado.
Análise publicada pela World Cancer Research Fund (Fundo Mundial de Pesquisa do Câncer) apontou que o número de casos de câncer em pessoas com menos de 50 anos aumentou nas últimas décadas. Os pesquisadores analisaram a evolução de 12 tipos de câncer entre 2000 e 2023 nos Estados Unidos e na Holanda, e entre 2001 e 2023 na Inglaterra.
O câncer colorretal, ou de intestino, foi o que mais aumentou entre homens e mulheres nos Estados Unidos, na Holanda e na Inglaterra, assim como os tumores de rim e fígado.
Coordenadora do serviço de Oncologia do Hospital Evangélico de Vila Velha (HEVV), a oncologista Morgana Stelzer percebe diagnósticos de câncer em idades cada vez mais precoces, abaixo dos 50 anos.
“Alguns tumores aparecem inclusive em pacientes com menos de 30 anos, o que antigamente não era tão evidente. Os tumores que mais aparecem nessa faixa etária são os cânceres de mama e colorretal, mas também percebemos tumores de tireoide e de rim”.
Segundo o oncologista Fernando Zamprogno, coordenador da Oncologia da Rede Meridional, existe uma relação muito forte entre o estilo de vida e os casos de câncer entre os mais jovens. A obesidade, de acordo com o médico, é um dos grandes fatores de risco.
Em 2011, um estudo do Reino Unido, com mais de 15 mil pessoas, demonstrou um aumento de cerca de 16 vezes no risco de câncer entre pessoas obesas em comparação com as não obesas.
Zamprogno chama atenção para o fato de que a alimentação, a obesidade em seus diferentes graus e o sedentarismo têm forte correlação com o aumento dos casos de câncer em pessoas com menos de 50 anos”.
“Também estamos comendo pior, em ritmos menos saudáveis, e preferindo produtos industrializados pela praticidade, muitos deles com aditivos”, ressalta.
Diagnóstico errado atrasa tratamento
Vontade constante de evacuar, mudança no formato e sangramento nas fezes e desconforto abdominal foram os sintomas que a psicóloga Daiane Lamberti, de 36 anos, apresentou antes da descoberta do câncer de intestino.
Em abril de 2025 ela passou por uma médica proctologista que tratou os sintomas como hemorroida, sem passar por uma colonoscopia para investigação. “Eu contei para a médica sobre os sintomas, mas ela chegou a dizer que eu estava impressionada com a morte da cantora Preta Gil”.
Daiane foi submetida a uma cirurgia para tratar hemorroidas, mas continuou com os sintomas. Como o avô materno faleceu por câncer de intestino, ela procurou por outra médica e fez a colonoscopia, que acusou a doença, em outubro de 2025, que estava em estágio mais avançado.
“Passei por quimioterapia, radioterapia e por uma cirurgia robótica. Hoje, graças a Deus, estou bem, mas sigo em acompanhamento”.
Tipos da doença variam com a idade
Câncer
A maior concentração de casos e mortes ocorre nas idades avançadas. Entretanto, os tipos de câncer mais frequentes diferem ao longo do curso da vida.
De 0 a 19 anos, destacam-se leucemias, tumores do sistema nervoso central e linfomas.
Entre 20 e 49 anos, aumenta a participação dos tumores sólidos.
A partir dos 50 anos, as taxas de incidência e mortalidade são geralmente mais elevadas.
Perfil entre adultos jovens
Segundo o Globocan 2022 (IARC/OMS), no Brasil, os cânceres de mama, tireoide e colo do útero se destacam entre as mulheres de 20 a 49 anos; o câncer colorretal apresenta importância em ambos os sexos.
A divisão de Vigilância e Análise de Situação/Conprev/Inca identificou crescimento estatisticamente significativo da incidência de câncer de cólon e reto entre 20 e 49 anos em algumas localidades brasileiras.
Fonte: Chefe da Divisão de Vigilância e Análise de Situação (Divasi) do Inca, Luis Felipe Martins.
Rastreamento a partir dos 40 anos
Entre 2024 e este ano, o Espírito Santo registrou 9.433 casos de câncer. Foram 4.881 em 2024, 3.283 em 2025, e 1.269 até 15 de outubro deste ano. Os dados são do Painel Oncologia do Ministério da Saúde, informados pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa).
A enfermeira e doutora em Saúde Coletiva Larissa Soares Dell'Antonio explica, por exemplo, que o Instituto Nacional de Câncer (Inca) preconiza o rastreamento de câncer de mama em mulheres a partir de 50 anos, mas, no Espírito Santo, desde 2024 esse rastreamento foi ampliado para 40 anos.
“Quando a gente amplia é natural que vamos começar a detectar mais casos nessa faixa etária. Isso não é ruim, porque antes ela chegava ao consultório com um tumor palpável. Antecipando essa mamografia é possível achar esse tumor quando ele ainda está do tamanho da cabeça de um alfinete”.
A oncologista Morgana Stelzer destaca que o diagnóstico precoce não depende apenas dos exames de rastreamento. “Envolve acesso à informação, conhecimento do próprio corpo e realização de exames no momento oportuno. Minha preocupação é fazer com que esse paciente identifique qualquer sinal de alerta”.
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