Alertas para "namorados" criados por Inteligência Artificial
“Pessoas” virtuais estão cada vez mais convincentes, aumentando os riscos de golpes financeiros e manipulação emocional
Personagens com rostos atraentes, vozes realistas e histórias de vida capazes de despertar paixões.
Criados por Inteligência Artificial, namorados e namoradas virtuais estão cada vez mais convincentes e acendem um alerta entre especialistas sobre os riscos de golpes financeiros, manipulação emocional e relacionamentos com pessoas que sequer existem.
O perigo ganhou repercussão após o pedreiro Edimar Rocha Martins, de 49 anos, viajar mais de 2 mil quilômetros, do Maranhão até Minas Gerais, para encontrar uma mulher por quem acreditava estar apaixonado. Ao chegar ao destino, descobriu que a pretendente era uma personagem criada por IA.
O advogado especialista em Direito Digital Felipe Lima destacou que a IA é uma ferramenta extraordinária, que veio para ficar. “O problema nunca é a tecnologia, mas a forma como ela é usada. O caso do Edimar mostra que qualquer pessoa pode ser enganada, porque hoje uma máquina consegue imitar rosto, voz e sentimentos”.
Ele orienta as pessoas que desconfiem de perfis perfeitos. “Peça uma chamada de vídeo ao vivo e nunca tome decisões como viajar ou enviar dinheiro, sem confirmar que a pessoa existe”, afirmou Felipe, que é presidente da Comissão de Proteção de Dados, Privacidade e Inteligência Artificial da Ordem dos Advogados do Brasil Seccional Espírito Santo (OAB-ES).
Já para as famílias, ele ressalta a necessidade de conversarem com seus pais, avós e parentes mais vulneráveis sobre essas situações.
O advogado especialista em Direito Digital Bruno Guerra também chama a atenção para a evolução das ferramentas capazes de simular rostos, vozes e até comportamentos humanos. “Quanto mais a tecnologia evolui, mais difícil é a gente detectar o que é verdadeiro e o que é falso”.
Bruno explica que, embora a criação de personagens virtuais não seja necessariamente criminosa, o uso dessas ferramentas para enganar pessoas e obter vantagens ilícitas pode configurar estelionato. Tem que ver muito qual é o objetivo de quem está usando”.
Ele ressalta que, mesmo quando não há elementos suficientes para caracterizar um crime, determinadas situações podem gerar responsabilização civil, como nos casos em que há prejuízos financeiros ou danos morais comprovados.
Entenda o caso
Viagem encontrar mulher criada por IA
O pedreiro Edimar Rocha Martins, 49, viajou de ônibus de Imperatriz, no Maranhão, até Belo Horizonte, em Minas Gerais, para encontrar uma mulher por quem acreditava estar apaixonado.
Ao chegar à cidade, no último domingo, ele descobriu que a suposta pretendente havia sido criada por Inteligência Artificial (IA).
Fazendeira
A personagem virtual se apresenta nas redes sociais como Jéssica Oliveira, também conhecida como Jéssica Fazendeira, e acumula mais de 300 mil seguidores no TikTok.
Nos vídeos, ela aparece como mulher que procura um companheiro para morar em uma fazenda e promete sustentá-lo.
Algumas frase da IA postadas no perfil: “Eu quero que você venha pra cá pra viver vida de rei. Olha o tamanho dessa fazenda que vai ser sua”.
A personagem de IA também chega a dizer que pretende sustentar o homem: “Algumas pessoas falam que eu sou besta, mas eu amo trabalhar e deixar o homem deitado” e “Eu quero te bancar. Quero que você pare de trabalhar pra ficar só tranquilo”.
O perfil também divulga alguns produtos à venda em plataformas.
O que motivou a viagem?
Edimar contou que a solidão foi um dos motivos que o levaram a procurar um relacionamento. Ele acreditava que poderia construir uma vida ao lado dela. Sem saber o endereço da suposta mulher, chegou a pedir informações nas ruas de Belo Horizonte e buscar ajuda em uma rádio.
Responsável pelo perfil
O criador da personagem gerada por IA disse criou a personagem em 2025 com o único intuito de gerar vendas para uma plataforma de compras. Ele usava a página para fazer os anúncios e, assim, fazer uma renda extra.
Ele afirmou também que nunca conversou com Edimar Rocha Martins.
O que diz a lei
A criação de personagens fictícios por Inteligência Artificial não configura, por si só, um crime.
não existe uma obrigação legal geral de identificar toda publicação produzida por Inteligência Artificial (com exceção do contexto eleitoral).
Se um perfil fictício for utilizado para enganar pessoas e obter dinheiro ou outras vantagens ilícitas, a conduta pode configurar estelionato, inclusive na modalidade de fraude eletrônica, dependendo das circunstâncias.
Golpes mais perigosos
Segundo especialistas, Inteligência Artificial permite reproduzir rostos, vozes e movimentos de maneira cada vez mais realista.
Por isso, é preciso ter atenção, já que criminosos podem utilizar essas ferramentas para simular pessoas conhecidas, criar relacionamentos falsos e conquistar a confiança das vítimas antes de solicitar dinheiro ou informações pessoais.
Como identificar IA
Entre os sinais que podem despertar desconfiança estão falas muito padronizadas, ausência de trejeitos naturais, imagens praticamente estáticas e movimentos ou expressões que se repetem nos vídeos.
No entanto, esses indícios não são provas de manipulação, já que tecnologias estão cada vez mais sofisticadas.
É importante desconfiar de pedidos urgentes de dinheiro, confirmar a identidade de quem entra em contato por outros canais e evitar compartilhar informações pessoais com desconhecidos.
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