Do medo de virar o barco na maré ao ouro sul-americano
Depois de ser campeão na Argentina, atleta relembra a início em Cariacica, fala sobre crescimento da modalidade e mira 2028
Aos 35 anos, Vangelys Reinke, o “Garça”, vive um dos momentos mais importantes de seus 22 anos de carreira no remo. Natural de Cariacica, o atleta conquistou a medalha de ouro no remo de praia ao lado de Kissya Cataldo nos Jogos Sul-Americanos, em Santa Fé, na Argentina, e agora se prepara para novos desafios no cenário internacional.
Após a conquista, Vangelys ainda terá pela frente uma aclimatação na Austrália antes de seguir para a China, onde disputará o Mundial da modalidade.
Em entrevista ao Apita Aí, da TV Tribuna/Band, o capixaba falou sobre a conquista, a evolução do remo de praia, o sonho olímpico e o desenvolvimento da modalidade no Espírito Santo.
"No remo de praia, o Brasil começa a ganhar espaço por sua tradição nos esportes de praia. O país está evoluindo"
A TRIBUNA -Por que seu apelido é “Garça”?
Vangelys Reinke - No remo, existe uma tradição de ter apelidos. Antes de mim, bem antes, todo mundo tinha um apelido diferente.
Quando cheguei à garagem, até então, eu não tinha um apelido. O professor Júlio falou: “Vangelys, você sabe nadar?”. Eu falei que sabia, mas não sabia nadar. Eu morria de medo de virar ali na maré e mostrar que realmente não sabia nadar. Eu sabia bater o braço, mas nadar mesmo, não sabia.
Como éramos 50 garotos, todo mundo queria ver o outro virar, ver o outro se dar mal. Eles deixavam o que chamamos de forqueta, que é onde prendemos os remos, aberta.
Na rampa do Saldanha, do Álvares e do Caxias, aqui no Espírito Santo, você tem que entrar na água. Você entra, coloca um pé dentro do barco e o outro fica do lado de fora. Eu sempre conferia se as forquetas estavam fechadas. Então, eu estava com uma perna dentro da água, a outra encolhida dentro do barco, todo empoleirado. Parecia uma garça.
O professor viu a garça parada na frente, encolhidinha, e falou: “Olá, olá, Garça!”. Pronto. Não gostei e saí. É aí que ficou. Hoje já lido bem com o apelido. Tenho até uma garça tatuada na minha perna.
O que diferencia o remo tradicional do remo de praia?
No remo tradicional, a prova é em linha reta, com 2 mil metros e todos largando juntos. Já no remo de praia, há um sistema de mata-mata entre duplas, com tomada de tempo, oitavas, quartas, semifinal e final, começando com uma corrida na areia, seguida pela entrada no barco e um slalom de 250 metros.
Como você avalia o nível do remo de praia mundial e as chances do Brasil para os Jogos Olímpicos de 2028?
No remo tradicional, a Europa é dominante há anos, com Alemanha, Holanda e Nova Zelândia entre as principais potências.
No remo de praia, o Brasil começa a ganhar espaço por sua tradição nos esportes de praia. Após um início mais lento, o país vem evoluindo e teve David Faria em quinto no Mundial do ano passado. Agora, a equipe chega mais forte para buscar um resultado ainda melhor.
Como você vê o desenvolvimento do remo de praia no Espírito Santo?
A modalidade ainda é nova e, em termos de embarcações, o Clube de Regatas do Flamengo, a Confederação Brasileira e a Marinha do Brasil são as três entidades que mais possuem barcos de remo de praia. Também temos as federações do Rio Grande do Norte e do Espírito Santo. No Brasil, porém, ainda são poucos os estados que têm essa estrutura.
Eu vim do Projeto Navegar, que ajudou a fortalecer o remo tradicional no Espírito Santo e levou muitas crianças para a modalidade. Sou da comunidade Flexal 2 e, para mim, ter acesso ao remo era algo muito distante.
Foi difícil chegar ao projeto, ter essa iniciação e, depois, me manter na modalidade e nos treinamentos. Tive muito apoio do meu treinador, mas minha família não era tradicional do esporte. Então, existem obstáculos como entender como tudo funciona e acreditar que o esporte pode oferecer um futuro.
O que representa conquistar um título desse tamanho para o Espírito Santo, Cariacica e a Grande Vitória?
É grandioso para mim porque não represento apenas o Vangelys, mas também os remadores que começaram comigo, minha comunidade e todos os treinadores que fizeram parte desses 22 anos de carreira. Levar a bandeira, subir ao pódio e cantar o hino nacional é uma emoção indescritível. Sou muito patriota, como atleta e torcedor, e a vida na Marinha também reforçou essa característica.
Acho que o Espírito Santo tem muito a mostrar em outras modalidades, com vários atletas levando nossa bandeira. Por isso, considero muito importante que os meios de comunicação do Estado valorizem e deem espaço para esses atletas.
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