Vendas crescem no comércio após proibição das bets, aponta relatório
Estudo vê famílias redirecionando para o consumo básico o dinheiro que antes ia para apostas, sobretudo entre as de menor renda
O consumo de alimentos e remédios aumentou após a proibição das bets. É o que aponta um relatório de análise do BTG Pactual sobre o Assaí Atacadista, rede nacional do setor supermercadista, indicou sinais de melhora no consumo após o endurecimento das regras das apostas on-line.
O documento reúne avaliações feitas após uma reunião com o presidente da empresa, Belmiro Gomes, o diretor financeiro, Rafael Sachete, e a responsável por relações com investidores, Gabrielle Helu.
O banco afirma que a administração do Assaí identificou sinais iniciais de melhora no consumo em cidades do interior e bairros de menor renda, possivelmente relacionados aos primeiros efeitos de restrições mais rigorosas às apostas.
Para o coordenador do Connect Fecomércio-ES, André Spalenza, esse reflexo faz sentido quando se faz análise do ponto de vista econômico.
“O nosso estudo mostra que grande parte dos apostadores no nosso estado é de famílias que têm renda de até dois salários mínimos. O dinheiro que eu estou destinando à aposta vai para o consumo de entretenimento como um todo, comércio, serviços, e também entram os supermercados e farmácias”, comenta.
Ele afirma que, embora ainda não seja possível dizer com absoluta certeza que esse aumento de vendas é uma consequência direta da proibição — devido aos levantamentos ainda não terem sido consolidados —, há um indicativo muito forte.
“Uma vez que essa renda não é mais direcionada às bets, ela tende a ser direcionada a outros tipos de consumo, com um impacto muito maior nos consumos essenciais”, diz.
O economista e presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon-ES), Ricardo Paixão, concorda que as apostas esportivas passaram a disputar uma parcela importante do orçamento das famílias brasileiras, especialmente naquelas que têm uma renda menor.
“Portanto, as bets podem, sim, influenciar as decisões de compra do mês, levando os consumidores a reduzir a quantidade de produtos adquiridos”, diz.
Paixão ressalta, porém, que é importante compreender que a recuperação do consumo depende não apenas da redução das apostas, mas também da renda disponível, do tamanho do endividamento das famílias, da inflação e das condições do mercado de trabalho.
Maioria dos pequenos negócios a favor da proibição
A maioria dos donos de micro e pequenas empresas brasileiras apoia o fim das apostas on-line no País. É o que aponta uma pesquisa inédita do Sebrae, que revela que 66% dos pequenos negócios são a favor da proibição das bets, sendo 57% totalmente favoráveis e 8,8% parcialmente favoráveis.
Em contrapartida, 23,5% declararam-se contrários à medida (17% totalmente contra e 6% parcialmente contra).
O estudo aponta um impacto direto e negativo no desempenho comercial das empresas nos últimos 12 meses: 26% dos respondentes relataram redução no faturamento associada ao avanço das apostas virtuais.
Outros 23% afirmaram não saber avaliar a extensão da perda no caixa, 51% não identificaram efeitos diretos e apenas 0,2% registraram ganho com o segmento.
A perda do poder de compra dos clientes é o principal problema percebido no comércio de vizinhança. Do total de entrevistados, 48% identificaram ao menos uma mudança no comportamento do consumidor.
Com a proibição das apostas, o sentimento no setor produtivo é de otimismo. Perguntados sobre a expectativa para as vendas com o fim das bets, 38% esperam aumento no faturamento, enquanto 42% acreditam que as vendas continuarão iguais.
Saiba mais
Proibição
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, assinou no final de setembro uma medida provisória que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas e jogos on-line no Brasil, as chamadas bets.
A partir da publicação da MP, as plataformas ficam impedidas de receber novos apostas.
O governo prevê reforço da fiscalização contra plataformas ilegais e das investigações sobre movimentações financeiras relacionadas às apostas. A estratégia inclui a identificação e derrubada de sites ilegais, o bloqueio de contas bancárias utilizadas irregularmente para apostas e a integração de informações entre órgãos públicos.
Dinheiro circulando
Cerca de R$ 1,3bilhão que permaneceu nas contas de apostadores após o encerramento das plataformas de apostas on-line devem voltar a circular na economia brasileira.
Saldos não restituídos foram direcionados para a Caixa. O banco será responsável por devolver o dinheiro restante nos casos em que houver dificuldade operacional que impeça a devolução dos montantes.
Impacto no orçamento
As apostas on-line provocaram uma saída líquida de R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias em 2025, segundo a terceira edição do Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros.
entre outubro de 2024 e março de 2026, essa perda média foi estimada em R$ 4,7 bilhões por mês, de acordo com o levantamento.
Segundo um outro estudo, do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made-USP), as apostas retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025, o que equivale a cerca de 0,9% a 1,1% do PIB daquele ano.
Setores impactados
Os supermercados estão entre os primeiros setores que podem se beneficiar, segundo o economista Ricardo Paixão. Segundo ele, por comercializarem produtos essenciais, principalmente alimentos, produtos de higiene e limpeza.
Quando uma família deixa de comprometer parte da renda com apostas, aumenta a capacidade de direcionar esses recursos para necessidades cotidianas. Isso pode resultar tanto na compra de uma quantidade maior de produtos quanto na aquisição de itens de melhor qualidade, diz o especialista.
outros segmentos, como comércios de roupas, calçados, farmácias, restaurantes, pequenos estabelecimentos e prestadores de serviços, também são beneficiados.
Paixão analisa que, quando as famílias recuperam parte da renda disponível, podem voltar a realizar compras que estavam sendo adiadas. “Isso beneficia especialmente o comércio local, que depende diretamente da capacidade de consumo da população.”
Fontes: BBC, g1, Agência Brasil e economista Ricardo Paixão.
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