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TRIBUNA LIVRE

Diagnóstico não é sentença

Avanços na oncologia ampliam as possibilidades de tratamento e reforçam a importância de olhar para a vida além do diagnóstico

Virgínia Altoé Sessa | | Atualizado em
Tribuna Livre

Leitores do Jornal A Tribuna


          Imagem ilustrativa da imagem Diagnóstico não é sentença
Virgínia Altoé Sessa é médica oncologista do Hospital Santa Rita |  Foto: Divulgação

Receber um diagnóstico de câncer de mama ainda é um daqueles momentos capazes de interromper o tempo. De repente, planos, rotina e certezas parecem perder o lugar. É comum que a primeira palavra que venha à cabeça seja medo.

Por isso, é salutar falar sobre o quanto a relação com o câncer mudou. Durante muito tempo, receber um diagnóstico de câncer esteve associado, no imaginário coletivo, a uma sentença. Ainda hoje, algumas pessoas escutam a palavra “câncer” e imediatamente pensam no pior desfecho possível. Mas a oncologia mudou.

Hoje sabemos que câncer de mama não é uma doença única. Existem diferentes tipos, características biológicas distintas e diferentes formas de comportamento. O diagnóstico deixou de ser apenas o nome de uma doença e passou a ser também o ponto de partida para compreender, com cada vez mais precisão, qual é o tumor daquela paciente e qual estratégia terapêutica pode fazer sentido para ela.

Os tratamentos também se transformaram. Novas terapias ampliaram as possibilidades para diferentes perfis de pacientes, enquanto o conhecimento acumulado ao longo dos anos nos permite tomar decisões cada vez mais individualizadas.

Isso não significa minimizar a gravidade do câncer, mas reconhecer que uma mulher que recebe o diagnóstico hoje não está diante da mesma realidade de décadas atrás. E existe uma outra mudança igualmente importante: começamos a olhar mais para a vida que existe depois e além do tratamento.

Sobreviver ao câncer também envolve acompanhar possíveis efeitos tardios, cuidar da saúde, retomar projetos, lidar com o medo da recidiva, reconstruir a relação com o próprio corpo e, muitas vezes, aprender novamente a fazer planos.

É nesse ponto que o diagnóstico pode deixar de ocupar o lugar de uma sentença e passar a ocupar outro espaço: o de uma parte da história daquela mulher.

Uma experiência que pode transformar prioridades, relações e a maneira de olhar para a própria vida. Mas ainda assim, uma parte.

E isso muda a maneira como nós, profissionais de saúde, precisamos conversar com nossas pacientes. Não se trata de oferecer falsas garantias ou de transformar toda história de câncer em uma narrativa de superação, pois cada paciente tem seu percurso, suas incertezas, seus medos e suas possibilidades.

O que podemos oferecer é informação, tratamento baseado em evidências, acompanhamento e, sobretudo, uma visão que enxergue a mulher para além do tumor. Neste Outubro Rosa, é importante ampliar a conversa. Falar sobre prevenção e diagnóstico precoce continua sendo fundamental, mas precisamos falar sobre tratamento, sobre novas possibilidades e sobre a vida que continua sendo construída durante e depois do câncer.

Sabemos que nem todas as histórias têm o mesmo desfecho, mas olhar para os avanços alcançados até aqui é importante.

E essa é uma das mudanças mais relevantes: trocar o medo do desconhecido pela possibilidade de compreender melhor a doença, discutir caminhos e tomar decisões com mais informação.

É uma mudança que não apaga a gravidade do diagnóstico, mas muda, profundamente, a maneira de atravessá-lo.

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