Síndrome do cadáver ambulante
Crônicas e dicas do doutor João Evangelista, que compartilha sua grande experiência na área médica
Dr. João Evangelista
João Evangelista Teixeira Lima é médico formado pela Emescam, com pós-graduação pela PUC-RJ. Especialista em Gastroenterologia e Clínica Geral, é colunista de A Tribuna e do Tribuna Online, onde também apresenta o quadro “Doutor João Responde” na TV Tribuna, abordando saúde e prevenção com linguagem simples.
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Antes de saber o que sente um paciente, o médico deve saber quem é esse paciente, galopando pelos campos dos pensamentos dele. Doenças raras geram curiosidade, que é o alimento da ciência. Enquanto o mistério não é descortinado, o doutor deve obedecer à hierarquia das evidências.
Entre a luz e a sombra, existe uma nebulosa enfermidade que gera amor “próprio póstumo”, denominada Síndrome de Cotard.
É importante não confundir sentir-se morto, que ocorre após um período de mudanças ou uma má gestão emocional, com Síndrome do Cadáver Ambulante.
Quando alguém diz que se sente morto por dentro, na verdade está pedindo ajuda e tentando transmitir que perdeu a motivação, o entusiasmo e a capacidade de sentir prazer ou interesse pela vida. Deve-se sempre alertar que a morte é o fim, mas não deve ser a finalidade da vida.
Ao contrário do vazio existencial, a Síndrome de Cotard, outrora conhecida como Delírio de Negação, é uma doença mental acompanhada de melancolia, ansiedade, insensibilidade à dor, negação da existência do próprio corpo e crença delirante de estar morto.
Quem padece dessa enfermidade se considera como um morto-vivo, condenado à danação eterna, ou, paradoxalmente, sofrendo de delírios de imortalidade.
Ao contrário dos zumbis da ficção, estes mortos-vivos da psiquiatria são bem reais e estão sujeitos a grande sofrimento, sendo frequentes os comportamentos suicidas. A origem desses distúrbios é desconhecida, levando o paciente a acreditar que está morto ou que seus órgãos não estejam mais funcionando, ou ainda que seus familiares, amigos ou o mundo que o rodeia não existem mais.
Este quadro bizarro pode apresentar diferentes graus de gravidade. Nas formas brandas, o indivíduo demonstra sentimento de desespero, enquanto que nos quadros mais severos, a pessoa nega a própria existência ou a existência do mundo.
O fato de o paciente acreditar, delirantemente, que está morto, em estado de decomposição ou que já apodreceu, evidencia um pensamento depressivo, sendo sua descrição relacionada com quadros melancólicos.
Como a pessoa com esse delírio niilista não acredita que esteja viva, ela negligencia aspectos importantes da sua vida, como a saúde e a higiene pessoal.
O aspecto mais curioso é que alguns pacientes acreditam ser imortais devido ao fato de já se considerarem mortos. Por acharem que o corpo não precisa de energia, eles recusam alimentos, até o limite da desnutrição.
A causa da Síndrome de Cotard é desconhecida. Acredita-se que esteja associada a certas áreas do cérebro que estão ligadas à personalidade, à atrofia cerebral, ao transtorno bipolar, à esquizofrenia, à enxaqueca e à depressão prolongada.
Não existe cura definitiva para a Síndrome de Cotard, pois ela não é considerada uma doença isolada, mas sim um conjunto de sintomas causados por outras condições médicas.
Se o paciente, que vive essa ilusão macabra, não sabe o que é a vida, como poderá saber o que é a morte?
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PÁGINA DO AUTORDoutor João Responde
A coluna “Doutor João Responde” é publicada todas as terças-feiras no Jornal A Tribuna e no Tribuna Online. O espaço trata de saúde e prevenção em linguagem acessível, onde esclarece dúvidas do público e comenta temas de saúde que estão em destaque no Espírito Santo.