Uma casa mal assombrada resultante da fúria da natureza e com futuro incerto
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St. Petersburg, Flórida - A casa mal-assombrada do beisebol ainda está à espreita na rodovia, impossível de passar despercebida. Ao longo de três décadas, o teto branco e inclinado do Tropicana Field pairou acima da Interstate 275. Agora o céu azul brilha por entre suas vigas.
“Triste”, segundo o arremessador do Tampa Bay Rays, Shane McClanahan. “Devastador”, apontou o catcher Ben Rortvedt. “Horrível”, afirmou Joe Maddon, ex-treinador da equipe. “Não consigo acreditar”, disse Kevin Cash, atual técnico da equipe.
Já se passaram mais de cinco meses desde que o furacão Milton lançou a fúria da natureza sobre o Trop, deixando fragmentos de seu telhado de fibra de vidro balançando com os ventos de 160 km/h. Esses fragmentos sumiram. Mas há muitas perguntas sobre o que virá a seguir – para o estádio e para a equipe que ele abrigava.
Hoje o Trop está praticamente vazio, enquanto políticos e os Rays decidem seus próximos movimentos. “Parece aqueles shoppings abandonados”, disse o closer do Rays, Pete Fairbanks. “Coisa de louco”. “Para mim, parece mais uma casa mal-assombrada”, eu falei, e ele concordou com a cabeça.
Os Rays vão jogar esta temporada da MLB no centro de treinamento de primavera do New York Yankees, o George M. Steinbrenner Field, em Tampa. Mas eles também anunciaram que cancelaram o contrato de US$ 1,3 bilhão do estádio em St. Petersburg, então é difícil dizer onde jogarão em 2026 e nos anos seguintes.
Na quinta-feira, a Câmara Municipal de St. Petersburg autorizou o financiamento de um novo teto para o Tropicana Field no valor de US$ 22,5 milhões (R$ 130,5 milhões na cotação atual). A cobertura poderá ser instalada até dezembro.
Desde a década de 1990, uma torre de concreto branco de oito metros de altura vinha se mantendo firme e orgulhosa, dando as boas-vindas a milhares de visitantes do Tropicana Field. Hoje ela praticamente desafia a gravidade. O furacão a arrancou da fundação e a deixou inclinada.
A torre inclinada do Tropicana foi a primeira visão chocante que tive ao me aproximar do Trop a pé. Não foi a última. Pedi permissão aos Rays para ver o interior do estádio, mas me foi negada. Então circulei pela parte externa.
Perto da torre, dois trabalhadores cavavam uma faixa de grama do lado de fora do estádio. “O que vocês estão consertando?” perguntei. “Nada”, disse um deles. “Pelo menos por enquanto”.
Isso resumiu a situação de quase todos os reparos do local no momento da minha visita. Mas continuei orbitando o estádio, só para ver com meus próprios olhos. Vi um enorme buraco numa parede externa, nas proximidades da arquibancada superior da terceira base. Ele tinha sido coberto com uma lona azul que ondulava na brisa.
Um pouco mais adiante, balancei a cabeça ao ver uma placa “Casa dos Rays”. Pensei que não era mais casa de quase nada. Continuei em frente, passando por portões trancados e bilheterias vazias. Quando cheguei ao Portão 3, me peguei olhando através de uma enorme janela de vidro, encarando uma escada rolante que levava a lugar nenhum.
Olhei para dentro da loja da equipe. De um lado, camisetas ainda penduradas nas vitrines. Do outro, dezenas de caixas empilhadas quase até o teto. Parecia o prenúncio de uma liquidação – mas só para quem viesse de capacete.
De repente, a porta de aço da doca de carga começou a se abrir, o que me permitiu vislumbrar o campo e as arquibancadas. Uma lona gigante cobria grande parte do anel inferior. Mas a visão mais impressionante foi uma que jamais pensei que viveria para ver: o céu mais azul de todos os tempos em um estádio coberto.
Foi difícil de processar. Nos dias seguintes, entrei em contato com pessoas que têm alguma ligação com o lugar e perguntei o que elas pensavam quando viam aquele céu que não era mais invisível brilhando através de um teto que não estava mais lá.
“É triste”, disse Maddon, que passa pelo estádio várias vezes por semana. “Sempre pensei naquele teto inclinado como, tipo, o maior cheeseburger do mundo, se você olhar bem para ele. Uma ótima promoção seria vestir o estádio como um cheeseburger e depois tocar ‘Cheeseburger in Paradise’, do Jimmy Buffett, todas as noites. Seria perfeito para aquele lugar”.
Só que agora o cheeseburger não tem pão. “Certo. A parte de cima do pão não está mais lá, cara”, disse ele. “Então, aquela coisinha na parte de cima é tipo um palito de dente que segura o hambúrguer”. Esta é a aparência da casa mal-assombrada do beisebol vista de fora. Poucas pessoas conseguem descrever como ela está por dentro.
Os que melhor pintaram esse quadro foram os arremessadores do Rays, que tiveram permissão para arremessar e treinar nas entranhas do estádio durante a baixa temporada. O campo em si, castigado pelas intempéries e sem sistema de drenagem para lidar com tudo isso, era zona proibida. Mas a sede do clube, a oficina de arremessos e a sala de treinamento saíram ilesos.
“Os vídeos que vimos eram muito ruins”, disse Rortvedt. “Só dá para ter uma boa noção quando você está lá dentro. Fui lá duas ou três vezes na pré-temporada. É uma loucura. Também fui lá num dia de tempestade, o campo inteiro estava inundado. Então foi mais maluco ainda”.
Ele acrescentou: “É a sua casa, e quando sua casa está destruída, é muito devastador. Foi um choque para todo mundo”.
Fairbanks foi um dos três arremessadores, além do starter Ryan Pepiot e do reliever Kevin Kelly, que visitaram o Trop regularmente em janeiro para dar início ao seu programa de arremessos da pré-temporada.
“Naquele momento, a parte de baixo estava boa”, disse Fairbanks. “Agora talvez já não esteja muito boa, porque chegou a estação das chuvas e a panela está sem tampa, certo? Então, acho que a panela provavelmente está cheia d’água. O vestiário, a sala de treinamento e todo o resto estava bem. Mas aí começou a chover. É tipo quando você joga água no telhado para ver se tem vazamento. De repente, ela começa a aparecer em todo lugar, nas saídas de ar-condicionado, nas luminárias, em tudo.
“A água tem seu jeito de encontrar o caminho de volta ao chão. Nosso vestiário descobriu isso em janeiro. Parecia que estávamos num chafariz”.
O vazio do Tropicana afetará mais do que apenas a equipe, claro. O bar esportivo de Mark Ferguson, o Ferg’s, fica a cerca de 300 metros do estádio. “Afetou muito a minha vida”, disse ele sobre o furacão. “Ainda estamos tentando entender o que fazer. Você sabe, a jornada nem sempre é uma linha reta”.
Durante 27 temporadas, cada noite de jogo dos Rays era uma festa, e o Ferg’s quadruplicava seus negócios habituais. Mas não este ano.
Então o Ferg’s está planejando festas para assistir aos jogos à noite, na esperança de atrair os torcedores do Rays que não viajam a Tampa. Mas Ferguson calcula que a mudança para o outro lado da baía reduzirá seu movimento em 30%. E quem sabe o que isso significará para as outras empresas da vizinhança.
Até recentemente, Ferguson estava esperançoso com um acordo para o estádio de St. Petersburg. Em vez disso, o que ele recebeu do proprietário do Rays, Stuart Sternberg, foi um banho de água fria.
“Eu realmente achava que ele levaria o negócio adiante”, disse Ferguson, “ou que alguém compraria a equipe e levaria o negócio adiante. Então foi um soco no estômago quando eles disseram: ‘Não, não sabemos o que vamos fazer. Estamos perdidos’. Fiquei sem palavras”.
Ninguém sabe ao certo o futuro do Tampa Bay Rays. Mas vamos fazer um exercício de imaginação.
Na quinta-feira, a Câmara Municipal aprovou o financiamento de US$ 22,5 milhões (R$ 130,5 milhões na cotação atual) para o novo telhado e outros reparos no Trop. Vamos supor que o local possa reabrir a tempo da estreia em 2026 (o que não é garantido).
Os Rays então seriam legalmente obrigados a jogar mais três temporadas no Tropicana Field e precisariam de uma nova casa para 2029. É aqui que a situação pode ficar complicada: se os reparos demorarem mais do que o esperado e os Rays não puderem voltar ao local até 2027.
Se isso acontecer, eles precisariam encontrar uma casa temporária para mais uma temporada – sem nenhuma garantia de que os Yankees estariam tão dispostos a convidá-los de volta ao Steinbrenner Field. Isso também estenderia o contrato de aluguel do Trop até a temporada de 2029, pois as letras miúdas acrescentam um ano para cada temporada em que o time não jogar lá.
Enquanto isso, conforme relatado pelo The Athletic, a MLB está frustrada com Sternberg porque os executivos da liga não veem nenhum caminho para um novo estádio em St. Petersburg ou Tampa enquanto ele for o proprietário. Portanto, a MLB está pressionando para que ele venda o time – e torcendo quase que abertamente por uma solução que permita a construção de um estádio em Tampa.
Mas isso parece o objetivo final do comissário Rob Manfred, não de Sternberg. O presidente dos Rays, Matt Silverman, disparou durante uma entrevista na rádio local: “O time não está à venda”. Mas, ao optar por sair de um acordo que até então parecia fechado com cadeado, o relógio de Sternberg agora está correndo. Para construir um estádio até 2029, ele precisaria fazer um outro acordo, realocar o time ou vender a franquia nos próximos 12 a 18 meses.
Ou, como o Tampa Bay Times relatou recentemente, ele poderia estender esse prazo com uma extensão de 10 anos no arrendamento do Trop, junto com grandes reformas e um novo conceito de estádio. Mas não se esqueça: a liga e um monte de políticos de Tampa Bay têm suas próprias opiniões a respeito.
A coisa toda é muito triste, disse McClanahan, o arremessador dos Rays. “Nossas orações e pensamentos estão com a comunidade”, ele disse. “No grande esquema das coisas, o beisebol parece mínimo quando você sabe que as pessoas perderam suas casas e seus entes queridos.
“Então, com certeza, vamos nos adaptar. Vamos superar. Podem nos jogar em qualquer campo de fundo de quintal, no meio de qualquer estado que você queira, ainda assim vai ser a Major League Baseball”.
Tudo o que eles podem fazer, por enquanto, é jogar 162 partidas de beisebol onde quer que o calendário diga para jogar.
“É mais fácil para nós, porque sabemos que nosso trabalho não vai mudar”, disse Fairbanks. “Nosso trabalho ainda é correr, rebater e ganhar os jogos, certo? Sabe, meu pai sempre ficava bravo quando eu me preocupava com coisas que não podia controlar. Ele dizia: ‘Controle sua esfera’. Então, se controlarmos nossa esfera e ficarmos nessa bolha que encapsulamos, vai ficar mais fácil enfrentar tudo isso”.
Bem-vindo ao Rays Baseball 2025. Controle sua esfera. Tente não se fixar muito na casa mal-assombrada. E reze para que um dia desses, alguém coloque a tampa de volta na panela.
Este artigo foi originalmente publicado no New York Times./ TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU
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