Após licença do Banco Central, Pagaleve quer chegar a 100 milhões de clientes
Com mais de 7 milhões de clientes, a Pagaleve movimenta até R$ 7 bi por ano e quer fazer do parcelamento no Pix um hábito nacional
Com mais de 7 milhões de clientes e presença em mais de 10 mil varejistas, a Pagaleve quer transformar o parcelamento no Pix em uma alternativa cada vez mais presente no dia a dia dos brasileiros. A fintech recebeu licença do Banco Central e mira alcançar entre 50 milhões e 100 milhões de consumidores no País.
A empresa movimenta entre R$ 6 bilhões e R$ 7 bilhões em compras por ano e, em julho, ultrapassou a marca de US$ 100 milhões em receita anualizada. Segundo o CEO e cofundador Henrique Weaver, a Pagaleve chegou a cerca de US$ 110 milhões (R$ 600 milhões) por ano.
Morando em Vitória há cerca de três anos e meio, Weaver afirma que o Espírito Santo tem uso proporcionalmente forte da plataforma.
Ao Histórias Empresariais, ele falou sobre crescimento, inteligência artificial, inadimplência, relação com os bancos e os próximos passos da empresa.
A Tribuna — O que é e como funciona a Pagaleve?
Henrique Weaver — A Pagaleve é uma plataforma de pagamentos. Hoje, mais de 10 mil varejistas no Brasil a oferecem como forma de pagamento. De pequenas lojas até grandes nomes como Shein, Temu, Raia Drogasil, Pague Menos, Reserva, Farm e Vivara.
O foco principal é o e-commerce, embora também tenhamos iniciado uma frente em lojas físicas. Quando o consumidor chega ao checkout, além de cartão e Pix, encontra a Pagaleve. Permitimos parcelar no Pix, com opções com e sem juros. A sem juros é disparado a mais popular.
A ideia é trazer acessibilidade para quem não tem cartão, tem limite insuficiente ou simplesmente não quer usar cartão de crédito.
Essa operação tem risco?
Tem risco de fraude e de crédito, e esse risco é 100% nosso. Quando fechamos contrato com um varejista, ele não corre esse risco. Se vender uma calça jeans, por exemplo, recebe integralmente o valor.
Nós analisamos aquela transação específica, não apenas a pessoa. São mais de 100 variáveis avaliadas em tempo real: produto, preço, horário da compra, tipo de loja e perfil do consumidor. Para saber se a transação tem um risco compatível com o que queremos assumir.
Vale a pena correr esse risco de inadimplência em uma compra sem juros?
Sem dúvida. A forma de rentabilizar o negócio é cobrar uma taxa do varejista por compra processada. Como nossa inadimplência é baixa, a conta fecha. No nosso principal produto, a inadimplência fica em torno de 2%. Quando se compara com cartão de crédito, a média está em torno de 8% a 9%.
Hoje aprovamos 65% dos pedidos de compra. No crediário, por exemplo, a aprovação fica entre 12% e 15%, e na emissão de novos cartões de crédito fica abaixo de 20%.
A Inteligência Artificial faz muita diferença no processo. Desde o início investimos fortemente em machine learning e análise de risco.
E qual é hoje a movimentação financeira da Pagaleve?
Em valor movimentado, processamos de R$ 6 bilhões a R$ 7 bilhões por ano. Em julho, ultrapassamos uma meta importante para empresas em crescimento, que é US$ 100 milhões de receita anualizada. Chegamos a US$ 110 milhões, o que dá de R$ 550 milhões a R$ 600 milhões por ano.
Quando fomos comparar com fintechs globais, vimos que fomos uma das mais rápidas do mundo a atingir essa marca. Fomos mais rápidos que Klarna, Adyen e Airwallex. Recebemos inclusive um convite da Nasdaq, em Nova Iorque, para comemorar esse feito.
Quais são os planos da Pagaleve para o futuro? Há ambição de atuar com cartão de crédito ou como instituição bancária?
Olha, acabamos de receber autorização do Banco Central. Digo isso em primeira mão! Ganhamos nossa licença na semana passada.
Agora somos oficialmente uma instituição de pagamento pós-paga com habilitação em ITP (habilitação para iniciar pagamentos, com autorização do cliente, diretamente da conta dele). Isso nos dá credibilidade e também possibilidades de testar coisas novas.
Nossa ambição é ser sinônimo de parcelamento para todos os brasileiros. Quando você pensa em refrigerante, pensa em Coca-Cola. Quando pensa em carona compartilhada, pensa em Uber. No parcelamento, ainda não existe uma marca tão óbvia. Queremos ocupar esse espaço.
A visão passa por estar na maior parte dos varejistas relevantes do Brasil e criar hábito de uso. Queremos ser algo mais simples e 100% construído sobre os trilhos do Pix, que é um meio de pagamento seguro, moderno e rápido. A ambição é superar o que o cartão tem feito nas últimas décadas.
Hoje são pouco mais de 7 milhões de clientes. Há uma meta de onde querem chegar?
Não temos um número específico fechado, mas a ambição é estar em 50 milhões, 60 milhões, 100 milhões de consumidores. Ou seja, todo mundo que usa pagamentos parcelados. A ambição é que todo mundo conheça e use a Pagaleve.
Você diz que dívida boa é dívida que a pessoa consegue pagar. Como é isso na prática?
Se você tem um parcelamento atrasado, nem que seja de cinco centavos, não consegue fazer uma nova compra pela Pagaleve até quitar. Partimos da premissa de que você não pode empilhar dívida se não consegue honrar a anterior.
Outro ponto importante é que, se você atrasar o pagamento, a multa não aumenta com o tempo. Se demorar um dia ou três meses, ela permanece constante até o pagamento. Não vira aquela bola de neve. É uma lógica muito diferente do rotativo do cartão de crédito.
A Pagaleve pode ser uma pedra no sapato dos bancos?
Desde que começamos, já falamos com praticamente todos os 10 maiores bancos do Brasil. Houve muita curiosidade. Um deles, o Banco do Brasil, investiu na Pagaleve e virou acionista minoritário.
Os bancos acompanham de perto porque temos resultados fortes em áreas nas quais eles têm muita experiência, como análise de crédito. Existe uma métrica chamada KS, que mede a eficiência da decisão de crédito. Os melhores grandes bancos do Brasil têm cerca de 30%. O nosso KS está em 44%.
Isso significa que somos mais eficientes para distinguir um potencial bom pagador de um potencial mau pagador. Com isso, temos inadimplência menor, conseguimos aprovar mais compras e trazer mais varejistas e consumidores.
A Pagaleve está de olho em parceiros no Espírito Santo?
Sem dúvida. Já temos parceiros no Espírito Santo. Não temos uma frente comercial instalada aqui, porque nosso time em São Paulo atende o Brasil inteiro, mas estamos abertos a novas parcerias.
O uso proporcional da Pagaleve aqui é forte. O Sudeste como um todo é muito relevante para nós, e o Espírito Santo acompanha muito o perfil que vemos em Minas, São Paulo e Rio. Não há hoje um plano específico de abrir escritório aqui, mas há um uso bastante grande.
Que conselho daria a quem quer empreender?
Para mim, não se deve achar que uma grande ideia será responsável pelo sucesso. A ideia é 5% ou 10% do sucesso. Os outros 90% são execução. É prática, dia a dia, estar matando um leão por dia e fazendo pequenas mudanças no negócio. Na minha opinião, a execução importa muito mais do que a ideia.
Curiosidades
BB é acionista
O Banco do Brasil está entre os investidores da Pagaleve e tornou-se acionista minoritário da fintech após participar de rodadas de investimento.
Segundo Henrique Weaver, o banco também é parceiro da empresa e contribui com sua experiência em temas relacionados ao Banco Central.
Sem bola de neve
Quem atrasa uma parcela da Pagaleve fica impedido de fazer nova compra até quitar a dívida, mesmo que o atraso seja de apenas cinco centavos.
Em contrapartida, a multa não cresce com o tempo.
Segundo o CEO, o valor é o mesmo com um dia ou três meses de atraso.
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