Os corsários
Confira a coluna de domingo (02)
Dia desses, relendo um livro de história, fiquei a pensar no coltan. Trata-se de uma palavra cunhada lá na África, fruto da combinação dos nomes de dois minerais, columbita e tantalita. Desta mistura rara são extraídos metais mais cobiçados que o ouro, e de altíssimo valor estratégico.
Este mineral de cor azulada é realmente raríssimo. Suas maiores jazidas conhecidas estão na República Democrática do Congo, Brasil e Austrália. Mas fiquemos hoje com o primeiro destes países, detentor de nada menos que 64% das reservas já mapeadas.
Este país, a República Democrática do Congo, não foi abençoado apenas com o coltan - também é rico em ouro, cassiterita, cobalto, cobre, diamantes e madeiras nobres. Surpreendentemente, no entanto, ei-lo sempre ocupando os últimos lugares no Índice de Desenvolvimento Humano.
Esta aparente contradição tem uma explicação: a extração do coltan está na origem de um dos mais sangrentos conflitos do planeta, que já deixou cinco milhões de mortos e contribuiu para o estupro de mais de 300 mil mulheres nos últimos 15 anos - e eis aí dados já validados pelo Conselho de Segurança da ONU.
No não tão distante ano de 2003 uma investigação identificou 157 empresas de diversos países envolvidas de alguma forma com a extração ilegal de minerais na República Democrática do Congo. Pouco tempo depois calculou-se o custo de um telefone celular produzido com coltan extraído naquele país: a vida de duas crianças. Fico a pensar no custo de um computador, de uma turbina de avião ou da maioria das engenhocas eletrônicas que nos cercam. Quantas crianças elas custam?
O mais grave é que este quadro reflete a realidade de larga parcela do riquíssimo continente africano - estima-se que nos últimos 15 anos 23 conflitos foram suficientes para retirar da África nada menos que US$ 18 bilhões, reduzindo o PIB em 15%.
Dizem alguns que vivemos em plena era da globalização e da transparência. Trombeteiam-se aos quatro ventos as virtudes do denominado “mundo livre”, repositório da esperança de toda a humanidade. Seria oportuno, assim, que sob os ventos de toda essa liberdade fossem divulgados os nomes das empresas e países responsáveis pela morte de cinco milhões de semelhantes nossos.
Existem, no mundo, milhares de outros exemplos de ganância sobrepondo-se à decência, ao custo da vida e do sofrimento de milhões de seres humanos. Quão bom seria que cada um deles fosse levado ao tribunal da opinião pública! Quão bom seria que as pessoas soubessem quem, ao fim do cabo, fiel à terrível acusação de Samuel Butler, conseguiu até mesmo estabelecer uma relação de amizade e simpatia com as vítimas que pretende devorar - todos nós, cada um de nós.
Isto, no entanto, dificilmente acontece - a verdade quase sempre acaba silenciada, ora pura e simplesmente abafada, ora na esteira de processos científicos de convencimento engendrados a bordo de mentes as mais brilhantes. É assim, suspeito eu, que vivemos o surpreendente contraste da alienação em plena era da informação!
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