Homem mata 1 pessoa e fere outras 5 perto de Paris
Homem abriu fogo de carro entre Trappes e La Verrière, matou um jovem de 26 anos e feriu outras cinco pessoas em ataque de motivação racista
Uma pessoa morreu e outras cinco ficaram feridas após um homem abrir fogo de dentro de seu carro nos arredores de Paris, na França, na manhã desta sexta-feira (23). A Promotoria abriu uma investigação e trata o caso como suspeita de ataque terrorista. Parte das vítimas é de origem imigrante.
"Um homem foi morto por um de nossos compatriotas com base em uma ideologia racista", afirmou o presidente francês, Emmanuel Macron, em visita à cidade no fim do dia.
O ataque ocorreu por volta das 10h30 (horário local) em um trajeto entre as cidades de Trappes e La Verrière, a sudoeste da capital francesa, pouco depois de Versailles. O suspeito acabou sendo detido em Coignères, quilômetros adiante, com uma submetralhadora e granadas de efeito moral.
Kevin T., 39, era morador da região e, segundo os promotores, deixou uma armadilha montada com três botijões de gás em seu apartamento, demonstrando premeditação —seu sobrenome não foi informado pelas autoridades.
Laurent Nuñez, ministro do Interior, parabenizou os agentes que interromperam "esse périplo mortal". Ao lado de Aurore Bergé, ministra dedicada ao combate à discriminação, Nuñez afirmou no meio da tarde que a motivação do ataque poderia ter conotação racista, o que mais tarde foi confirmado pelo presidente.
O homem morto, de 26 anos, tinha origem africana, e um dos feridos, em estado grave, é magrebino.
"Um indivíduo a bordo de um veículo disparou, ao que parece, com uma arma de guerra ou, pelo menos, uma arma automática, contra cinco pessoas em locais diferentes", relatou o ministro. Apenas em Trappes, o suspeito atirou contra um posto de gasolina, um centro de saúde e um parque público infantil.
Segundo o prefeito da cidade de 30 mil habitantes, Ali Rabeh, o atirador parecia estar disparando de forma aleatória contra pessoas que cruzavam seu caminho. O suspeito "queria causar um massacre", disse o político à BFMTV, e "é um milagre que não tenhamos mais vítimas".
Antes receoso de cravar uma motivação racista, o prefeito foi bem mais enfático após encontro com Nuñez e outras autoridades. Para ele, o atentado foi "racista, provavelmente islamofóbico".
Entre os feridos está uma menina de 12 anos, atingida por oito tiros. Seu estado de saúde é estável. Até o começo da noite, equipes de emergência e forças de segurança permaneciam nos diversos locais do ataque.
Em uma semana em que foi alvo de muitas críticas, notadamente pela condução errática da onda de protestos sociais no país, Macron foi à cidade após afirmar, em rede social, que estava "ao lado das vítimas e de suas famílias". Segundo ele, o atentado representa um ponto de inflexão no país.
"É a primeira vez que ocorre um ato terrorista planejado para matar nossos compatriotas, nossos filhos, por causa da cor de sua pele ou da religião que lhes é atribuída", disse o presidente. "Isso não tem lugar na República, não tem lugar na França."
O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, também lamentou o ocorrido, afirmando que "todos os recursos das forças de segurança e da autoridade judicial" tinham sido mobilizados.
A chance de o evento ser politizado é grande, dado o conturbado cenário da França neste momento. Nuñez anunciou nesta sexta-feira o envio de 70 mil policiais e militares para evitar novos distúrbios durante os protestos previstos para sábado (23), após a onda de violência no último fim de semana.
Manuel Bompard, coordenador nacional do partido de ultraesquerda França Insubmissa, escreveu no X que, "nesta manhã, um homem atirou de dentro de seu veículo contra vários transeuntes em Trappes e La Verrière, escolhendo-os com base na cor da pele".
Jean-Luc Mélenchon, candidato do partido à Presidência, afirmou em sua mensagem que "o racismo mata". O ícone da esquerda francesa estava visado pelos críticos, acusado de fomentar a violência dos protestos, que começaram com estudantes e ganharam adesão de sindicatos e dos Coletes Amarelos.
Marine Le Pen, nome da ultradireita que lidera as pesquisas e sustenta um discurso anti-imigratório na campanha, foi mais neutra em sua manifestação. "O massacre ocorrido nesta manhã em Trappes é um ato bárbaro cujas motivações deverão ser apuradas, e os responsáveis severamente punidos."
Desde o ataque terrorista do Hamas em outubro de 2023 e a reação de Israel em Gaza, atos antissemitas e antimuçulmanos aumentaram na França. Segundo a AFP, atos islamofóbicos aumentaram 88% no ano passado, alcançando 326 episódios, em um contexto de avanço da extrema direita.
"Nossa responsabilidade é garantir que todos os franceses possam viver na República Francesa sem nunca temer por sua segurança devido a sua origem, cor da pele, orientação, identidade real ou suposta", declarou a ministra Bergé. "É nessa República que acreditamos e queremos preservar."
Numa tentativa de conter os protestos, Macron recebeu nesta sexta líderes estudantis para ouvir suas demandas. "Não estamos satisfeitos", afirmou após o encontro Nathanaël Combary, presidente do sindicato estudantil Renouveau lycéen. Ele defendeu "manter a pressão" sobre o governo.
Os protestos começaram com mobilizações de estudantes do ensino médio contra a queda da qualidade do ensino e a deterioração das escolas, mas se ampliaram e passaram a refletir a insatisfação com a alta dos preços e a piora dos serviços públicos.
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