PF prende mãe e irmão de Oruam em ação contra 'internet do tráfico' no RJ
Márcia Gama dos Santos Nepomuceno e o filho, Lucas, foram presos na Operação Backbone, que investiga o controle da internet pelo Comando Vermelho
A Polícia Federal (PF) prendeu nesta segunda-feira (19) Márcia Gama dos Santos Nepomuceno, mulher de Marcinho VP e mãe do rapper Oruam, e Lucas Santos Nepomuceno, conhecido como Lucca, filho do casal. Os dois foram detidos na Operação Backbone, que mira o monopólio do fornecimento de internet imposto pelo Comando Vermelho (CV) nos complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão, na zona norte do Rio de Janeiro.
A reportagem enviou mensagens para o advogado dos presos, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.
Ligação da família com o Comando Vermelho
Marcinho VP é apontado como um dos principais chefes da facção e está preso há quase três décadas. Atualmente, ele cumpre pena em um presídio federal.
Não é a primeira vez que mãe e filho são presos. Em abril, os dois e Oruam foram alvos de uma investigação sobre lavagem de dinheiro do CV. Lucas teve a prisão preventiva decretada, mas em agosto a 8ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio concedeu habeas corpus e permitiu que ele respondesse ao processo em liberdade, com medidas cautelares como tornozeleira eletrônica.
Na denúncia daquele processo, a Promotoria o descreve como gestor financeiro secundário do núcleo familiar, encarregado de repassar ordens da liderança e administrar dinheiro ligado à lavagem. Ele nega.
Mandados, bloqueio de bens e empresas alvo
A operação desta segunda cumpre 23 mandados de prisão preventiva e 24 de busca e apreensão expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no Rio, em Nova Iguaçu, São João de Meriti, Teresópolis, Maricá e Magé. Além de Márcia e Lucas, outras 17 pessoas foram presas até as 10h, parte delas já cumpria pena em presídios.
O tribunal também mandou bloquear R$ 558 milhões em bens e valores de 40 pessoas e 42 empresas e suspendeu as atividades dessas firmas, que incluem provedores de internet, produtoras de eventos, um escritório de contabilidade e empresas de fachada.
‘Internet do tráfico’ e impacto nas comunidades
A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) será acionada para cassar as autorizações dos provedores e interromper os serviços prestados por eles. Segundo a PF, haverá providências para que os moradores das áreas atingidas não fiquem sem conexão.
De acordo com a investigação, integrantes armados da facção cortavam cabos e ateavam fogo a caixas de distribuição de operadoras regulares e de concorrentes. Também impediam que técnicos fizessem reparos, o que obrigava moradores e comerciantes a contratar a chamada “internet do tráfico”.
Os provedores autorizados pelo grupo pagavam uma taxa mensal para atuar nas comunidades. A contabilidade da própria facção mostra que, em um único mês, a cobrança ligada à internet respondeu por mais de 40% de tudo o que o CV arrecadou no Complexo da Penha.
Para a PF, a exploração do serviço virou uma das atividades mais rentáveis do grupo e alimenta a disputa armada por território, já que cada comunidade tomada representa uma nova carteira de clientes sem alternativa de fornecedor.
Crimes investigados e força-tarefa
Os investigados podem responder pelos seguintes crimes:
- domínio social estruturado;
- extorsão majorada;
- atentado contra a segurança de serviço de utilidade pública;
- interrupção de serviço telemático;
- desenvolvimento clandestino de telecomunicações;
- lavagem de dinheiro, entre outros delitos.
A operação faz parte da força-tarefa Missão Redentor 2, coordenada pela PF para combater facções no estado do Rio, de acordo com as diretrizes fixadas pelo STF no julgamento da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, conhecida como ADPF das Favelas.
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