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Viva Jane Fonda
Luiz Trevisan

Viva Jane Fonda

À espera do elevador e carregado de sacolas de plástico de supermercado, o tiozinho recebe um olhar atravessado de uma moça, dessas engajadas ambientalmente. “Bonito, hein, ajudando a poluir mais o planeta”, recriminou a engajada, não se contentando apenas com o olhar enviesado. Por delicadeza ou por não estar disposto a mais uma querela ambiental naquele momento, o tiozinho silenciou à espera do elevador. Porém, como o elevador havia estancado no 6º andar, rompeu o silêncio dirigindo-se à ambientalista, em tom incisivo: “Perto do que fazem o Trump e a China, essas sacolas não significam nada”.

Ali começou uma discussão em que a ambientalista apontou os perigos dos canudinhos, as tartarugas entupidas, as ilhas de plástico formadas no Pacífico Sul. O tiozinho preferiu citar as queimadas da Amazônia, os agrotóxicos despejados nas lavouras e rios, as toneladas de lixo recolhidas periodicamente na Baia de Vitória, os esgotos e entulhos despejados nos rios. E daí ele avançou rapidamente pelas praias do Nordeste empesteadas de óleo de petróleo. Então, chegou o elevador de serviço, por onde devem subir as compras, e o tiozinho, lacrando, antes de fechar a porta: “Se mal conseguimos fiscalizar o que está em terra e à vista, imagine no mar”.

Agora sem o tiozinho e suas sacolas assassinas ao lado, embarco no elevador social juntamente com a ambientalista engajada. Para não deixar o silêncio pesar, e também demonstrar que havia prestado atenção na naquela conversa à espera do elevador, perguntei se ela concordava com a adolescente sueca Greta Thunberg, que vive alardeando que o ponto de não retorno do equilíbrio ambiental do planeta já teria sido atingido.

Para minha surpresa, ela ainda desconhece a ativista militante Greta, aquela que foi na ONU recentemente dar puxão de orelha nas grandes lideranças políticas do planeta. Tentei refrescar sua memória: “É aquela mocinha que a turma do Bolsonaro apelidou de mala ecológica”. Perdurou o silêncio, num sinal de que a ambientalista engajada, que mora alguns andares abaixo do meu, anda prestando muita atenção nas sacolas e ignorando conteúdos.

Antes de sair do elevador, finalmente, ela acusou vulnerabilidade. “Olha, aquele cara tem razão quando diz que é muito difícil fiscalizar o mar. Acho que agora vou pensar sempre nisso quando olhar para o horizonte de Camburi, com aquele monte de navios ancorados ao largo da ponta de Tubarão”, citou. Concordei, e disse que também vou fazer o mesmo. Ela deu tchau, saiu e eu segui sozinho com meus botões e os do elevador: “Será que existe alguma fiscalização mínima em relação a tudo aquilo que os navios despejam no mar a todo instante?”

Rapidamente, lembrei também das denúncias de trabalho escravo a bordo de navios, dos despejos de esgotos e lixo sem nenhum tratamento, da pesca predatória praticada, das mercadorias contrabandeadas, dos vazamentos e entulhos das plataformas marítimas. Visto assim o panorama, na costa ou em alto-mar, aquelas rixas de marujos rebeldes, sedentos de álcool e sexo, se atracando com peixes vorazes ou em meio a ondas gigantes, mais parecem histórias da carochinha.

Por último, há toneladas de óleo de petróleo não identificado contaminando as praias do Nordeste. Mal comparando, criminalizar as sacolas, os copos e canudos de plástico, é como tentar eliminar alguns focos de uma imensa praia contaminada, e a perder de vista. Ou tentar esvaziar um oceano com baldes e tonéis. Enfim, a porta se abre e chega o momento de sair do elevador. Desde então, venho evitando as sacolas de supermercados – copos e canudos eu ainda não sei como fazer. Vai que dou de cara com a ambientalista engajada e meio desconectada, o elevador atrasa e fico outra vez exposto a toda aquela rasa ladainha verde. No mais, viva a atriz Jane Fonda, 81 anos, nossa eterna ativista, presa por protestar contra as agressões ambientais.


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