Uma tragédia anunciada

Vania Caus (Foto: Divulgação)
Vania Caus (Foto: Divulgação)
Não teve quem não se indignou ao assistir a tragédia no Museu Nacional do Rio de Janeiro que destruiu 90% do seu acervo. Enquanto as labaredas consumiam os 200 anos de pesquisa, uma coisa se passava pela minha cabeça: esse é o resultado do descaso com o patrimônio material e imaterial.

Há quase dois meses do incêndio, todos ainda estão incrédulos. A missão da Unesco que chegou ao Rio para avaliar o restauro do Museu Nacional deu a previsão é que, pelos próximos 12 meses, será organizada a reestruturação do Museu Nacional do Rio, o que levará no total cerca de 10 anos para a conclusão do trabalho. Uma verdadeira tragédia.

Diante do Museu Nacional em chamas, de costas para o palácio, de frente para onde deveria estar o povo, estava a imagem televisionada de Dom Pedro II em estátua. Aquele que deu ao Brasil como presente do Império, um dos instrumentos civilizatórios desta então nova nação que se constituía.

Além deste, outros patrimônios nacionais foram instaurados na mesma época: a Biblioteca Nacional, que guarda as obras de minha mãe Élida Rigoni, o Jardim Botânico do Rio, a Imprensa Régia (atual Imprensa Nacional), a Casa de Suplicação (que se tornaria o Supremo Tribunal Federal), o Banco do Brasil, a Academia Real da Marinha e a Escola Real de Ciências, Artes e Ofício (atual Escola de Belas Artes), além da Junta do Comércio.

Tenho a plena certeza da importância do Banco do Brasil, STF e da Junta Comercial para a atual conjuntura do país. Mas me indigna o descaso com um patrimônio da mesma importância e carregado de tanta história como foi o acontecido com o Museu Nacional, patrimônio material brasileiro.

Segundo a mesma Unesco que veio auxiliar na reconstrução da nossa história, o patrimônio material é formado por um conjunto de bens culturais, do ponto de vista arqueológico, paisagístico, etnográfico, histórico ou artístico. Eles estão divididos em bens imóveis (como centros urbanos, sítios arqueológicos e paisagens) e bens individuais (como coleções, acervos museológicos, documentais, bibliográficos, fotográficos e cinematográficos). É por este motivo que tragédia já era anunciada, o descaso com o patrimônio cultural material não é de hoje.

A preservação do patrimônio material é uma importante pauta que me debrucei durante anos da minha vida. A ideia de que a cultura é um tema de menor importância sempre me revoltou. A cultura é feita de símbolos, valores e rituais que criam múltiplos pertencimentos, sentidos, modos de vida e identidades. Por isso o restauro não é uma simples reforma, muito menos o restauro de um patrimônio que carregou anos da história do Brasil. Mesmo reconhecido na comunidade artística e arquitetônica, o restauro também é muito mais do que uma técnica: é uma prática de resgate da história de um povo, sua cultura e tradição.

O abandono público apagou grande parte da nossa história. Um verdadeiro descaso governamental em relação ao patrimônio cultural. Ainda em tempo, me questiono: você já avaliou nas propostas dos seus candidatos a importância da cultura e sua preservação? A sensação que tenho é de que naturalizamos a ideia de que a cultura não faz parte do projeto Brasil, esse mesmo Brasil que atuar na cultura sequer é considerado trabalho.

Vania Caus é artista plástica.


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