Um Panorama Visto da Ponte

“Agora está desenhado outro desafio para o futuro governo do Estado, que é tirar do papel uma alternativa de mobilidade que não seja exclusivamente rodoviária. Vitória é uma ilha cercada de veículos por todos os lados”

Clássico do teatro, “Um Panorama Visto da Ponte”, de Arthur Miller, 1955, fala de imigrantes ilegais vivendo perto das docas, desemprego, paixões primais e delações, que são temas atemporais e universais. No nosso caso, o panorama mais recente da Terceira Ponte revela outro cenário, além da exuberante beleza natural da baía e a Grande Vitória vista do alto: o drama dos suicidas, deprimidos ou histriônicos, cidades interditadas e estresse coletivo.

Como pano de fundo, um dos grandes mistérios da vida capixaba, que é o contrato entre governo e Rodosol, de baixa transparência e alto anacronismo. Até hoje não se sabe bem a real validade desse contrato, seu prazo e nem qual o faturamento da concessionária num negócio onde o custo da instalação de uma tela protetora precisará ser bancado pelo governo, e não por quem fatura com o pedágio. E pensar que na virada deste século um esperançoso outdoor, nas proximidades da Terceira Ponte, sinalizava que em poucos anos mais o capixaba atravessaria a ponte sem pagar pedágio. Pois é...

Beiraram comédia as explicações anteriores da concessionária refutando a instalação de grades protetoras. Em palestras aqui e ali era reverberado que é relativamente baixo o índice de suicídios na ponte (48 tentativas só neste ano), e que barreiras não impedem o suicida, que vai buscar outro lugar ou outro meio. Então, foi preciso surgir um novo tipo de ação, quase um terrorismo sem viés político ou religioso, para levar água abaixo a tese da nulidade das telas. O sujeito sobe a ponte a pé, se encarapita na mureta e durante horas e horas interrompe o ir e vir coletivo, sob holofotes da mídia. Uma tragédia da vida real reprisada ali. Em tempo: desde 1999, foram registradas 441 tentativas de suicídio e 90 mortes na ponte.

E o que dizer das motivações humanas vistas do alto da Terceira Ponte, seja do protagonista desnorteado, da plateia próxima que o incita ao ato derradeiro ou dos policiais em ação? “É um palco para quem quer chamar a atenção”, aponta o psiquiatra Sérgio Vellozo Lucas. Para o psicólogo Adriano Jardim, ponte “é associada à transição libertadora da realidade”. Já o poeta Paulo César Pinheiro cravou, tempos atrás: “Quando um muro separa, uma ponte une”. Então, teremos ponte e muro ao mesmo tempo.

Agora está desenhado outro desafio para o futuro governo do Estado, que é tirar do papel uma alternativa de mobilidade que não seja exclusivamente rodoviária. Vitória é uma ilha cercada de veículos por todos os lados, sem um sistema aquaviário integrado que leve a população pelo curso natural, o caminho das águas. Quando era prefeito de Vitória, Luiz Paulo Vellozo Lucas costumava enumerar entre os desafios que “a cidade precisa deixar de andar de costas para o mar”. Não mudou muito. A posição refratária do influente empresariado rodoviário ao aquaviário explica por que o sistema segue à deriva, porém não se justifica até por imposição geográfica.

Além do tempo nos engarrafamentos da vida, há nisso toda uma beleza perdida, um turismo escondido, uma brisa marinha negada, uma poesia engavetada. O elegante sambista Paulinho da Viola, apaixonado pelo mar, considera que uma das melhores sensações da vida é contemplar o mar.”É algo que me descansa. Tenho a sensação, quando vejo a linha do horizonte lá longe, de que ela separa o tudo do nada”, filosofa. No entanto, andamos presos a um modelo de transporte que, ao contrário do poeta, ignora o mar. E prefere nada que não seja o mesmo. Do mar, só paisagem.