Tragédia em Suzano: fuja do discurso raso!

Diante da recente tragédia ocorrida em uma escola de Suzano (SP), que ceifou vidas e marcou indelevelmente famílias e amigos, a sociedade volta a se perguntar o que pode levar uma pessoa a cometer barbáries contra o próximo e contra si mesmo, o que pode ter motivado dois jovens a atacarem brutalmente alunos e funcionários da escola e, logo em seguida, cometerem suicídio.

Surgem teorias simplistas que buscam explicar o aparentemente inexplicável. Muitos levantam a bandeira do moralismo, argumentando que não há mais autoridade por parte dos pais e professores, que a desordem e a promiscuidade campeiam no cotidiano da juventude brasileira, que os jovens não têm boas referências morais e que grande parte da sociedade não possui parâmetros mínimos de comportamento respeitoso em coletividade.

Em resumo: a liberdade excessiva conferida aos jovens seria a causa original da tragédia de Suzano. E, por consequência, aumentando-se o rigor e a disciplina na vida familiar e escolar das crianças e adolescentes, desgraças como a ocorrida há poucos dias não voltariam a acontecer. Porque a solução, simples e clara, no entender dos moralistas desta terra onde é pródiga a natureza (mas nem tanto a lucidez), é sufocar todo e qualquer pensamento libertário, por supostamente tratar-se de veículo promotor de vadiagem e desregramento total.

Como bem afirmou o jornalista norte-americano H. L. Mencken, “para cada problema complexo, há sempre uma solução simples, elegante e completamente errada”.

Como alguém pode se atrever a querer justificar um fato absolutamente complexo como o da escola em Suzano com explicações superficiais, rasteiras? É preciso cuidado para saber filtrar posições travestidas de imparcialidade, mas que estejam a serviço do fortalecimento desta ou daquela ideologia política. O momento por que passa o Brasil não permite a desatenção, sob pena de se deixar levar por correntes ideológicas e sair por aí repetindo discursos que interessem a tal ou qual grupelho político-econômico, sem se dar conta de que se tornou um militante inconsciente.

Pois bem. O que leva dois jovens a um ataque fatal seguido de suicídio? Mais do que a liberdade que possuíam dentro de casa ou nas escolas, o impulso de ódio, cólera e brutalidade tem outra raiz, muito mais forte e aprisionadora. À parte eventual e possível perturbação psíquica, hipótese ainda não aventada, os dois rapazes encontravam-se em um verdadeiro cárcere: porque a ira é uma prisão, o ódio social é um cativeiro. E quem se encontra nesse ponto só enxerga como resgate a explosão violenta de seus instintos antissociais.

O desprezo pelo outro é alimentado pelo desprezo do qual o agressor se sente alvo. Ao se enxergar não pertencente ao grupo social no qual inserido, ao se perceber não acolhido pela turma da escola, da rua ou pela própria família, o indivíduo pode passar a alimentar o desejo de romper com aquela “ordem social”, ainda que de maneira trágica ou atroz.

A intimidade e a proximidade afetiva que nascem da amizade e das relações familiares são mecanismos indispensáveis de prevenção de distúrbios emocionais. As sensações de desamparo e de “solidão na multidão” são perigosamente próximas das atitudes impulsivas.

Portanto, o distanciamento emocional no interior da família e nos grupos sociais é um gatilho muito mais forte para a pulsão de violência do que se supõe o “excesso de liberdade”.

Carlos Fonseca é magistrado e escritor.


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