Sobre paternidade e machismo

As expressões “machismo” e “feminismo” são, não poucas vezes, confundidas como se fossem antagônicas, antitéticas. Mas não são. O machismo é uma construção cultural que entroniza a figura masculina como central na sociedade.

Trata-se de um modo de viver em que preponderam a palavra, o interesse e a autoridade do homem, a começar, é claro, pela estrutura patriarcal familiar. Por sua vez, o feminismo não é o movimento contrário, que visa à supremacia da mulher, mas significa o conjunto de ideias e ações que tem por objetivo a igualdade entre os gêneros, o tratamento isonômico entre mulheres e homens. Logo, o feminismo defende a paridade de consideração e a equidade de oportunidade entre os gêneros.

Esclarecida tal diferença básica, é preciso reconhecer que existem vertentes derivadas do feminismo que têm em vista a sobreposição das mulheres em relação aos homens, conhecidas como ultrafeminismo ou feminismo radical. Se o machismo é absolutamente condenável, decerto o radicalismo oposto também não é digno de elogio. Pois bem.

Nas últimas décadas, as mulheres alcançaram patamares razoáveis de inserção no mercado de trabalho e nas posições de poder. Entretanto, os homens ainda detêm as condições socioeconômicas mais favoráveis – basta analisar, p.ex., as diferenças salariais entre homens e mulheres, além dos níveis de violência daqueles em relação a estas. Verifica-se, então, que a real isonomia, propósito maior do feminismo, ainda é uma meta distante.

Há muitas teorias que apontam o caminho para a igualdade. Uma das mais aceitas é a que defende o plantio dessa semente nas jovens gerações, de modo que novos frutos sejam colhidos dentro de alguns anos. Significa dizer que a forma como as crianças de hoje são criadas é capaz de tornar a sociedade de amanhã mais inclusiva e menos discriminatória. Os primeiros passos dessa caminhada são a conscientização e a assunção das responsabilidades inerentes à paternidade. Ser pai não pode ser meramente contribuir para a reprodução da espécie. Ser pai não pode ser apenas “colocar dinheiro” em casa. Ser pai não poder ser representar uma figura austera e emocionalmente distante da família.

Nós, homens, pela conformação machista da sociedade, que condiciona nossos pensamentos e atitudes, ainda que não queiramos, em muitos momentos, sentimos receio de “baixar a guarda”, de nos aproximarmos afetivamente dos filhos e de assumirmos tarefas tradicionalmente cumpridas pelas mulheres.

A paternidade ativa, que compreende e pratica a divisão consensual das atribuições de cuidados com a casa e com os filhos, contribui para que as crianças, meninas e meninos, cresçam com o exemplo de que pai e mãe podem, de igual maneira, trabalhar, zelar pela casa, envolver-se diretamente com a educação e a criação dos filhos, tudo na medida do que for combinado. Corresponsabilidade!

O pai não ajuda nas tarefas da mãe, mas divide tarefas com ela. Porque ambos possuem as mesmas capacidades e responsabilidades. Assim, a figura masculina abre mão de sua centralidade na família e, tão logo, na sociedade (vai doer um pouco, eu sei, mas é necessário), cedendo espaço à figura feminina e igualando-se a esta na partilha dos cuidados familiares e domésticos. As meninas e os meninos oriundos desse modelo familiar certamente crescerão percebendo-se com mais equidade e desenharão, no porvir, um contexto social menos excludente e mais igualitário.

Carlos Fonseca é magistrado e escritor


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