Simples assim

“Se aqui na Terra os chineses querem dominar tanto o lado visível quanto oculto, imagine na Lua. Em pouco tempo, estarão por lá vendendo lotes e quinquilharias”

Após passar por prédios suntuosos, verdadeiros espetáculos da arrojada arquitetura moderna, em pleno deserto irrigado por petrodólares, o carro avança por um bairro popular de Dubai – onde os turistas dos Emirados Árabes não costumam ir – até que estanca num sinal fechado. Logo surge um grupo de crianças malvestidas, pedindo comida e dinheiro, o visitante se inquieta, mas o motorista, versado na cultura muçulmana, o tranquiliza e abre a janela.

Em seguida, aponta duas vezes o dedo indicador para o céu. Como por encanto, as crianças se dispersam rapidamente. Motorista segue adiante, e o visitante, intrigado, quer saber o significado daquele gesto mágico. “Significa: Deus proverá”, simples assim. É cena de cinema americano, o visitante é vivido por Tom Hanks, que em outro filme encarnou um célebre contador de histórias em Forrest Gump, ganhador de Oscar em 1994.

Um amigo comparou nosso Gerson Camata ao personagem cinematográfico, tantas são as histórias deixadas pelo saudoso ex-governador e senador por três mandatos. Uma dessas histórias aconteceu no final do seu governo (1983-1986), quando a região Noroeste atravessava longo período de estiagem, a produção de leite e café secando, produtores e cooperativas reclamando, padres rezando, procissão de fieis, e nada de chuva.

Então, Camata apelou para uma tecnologia cearense, do aviãozinho teco-teco que borrifava as nuvens de sal e, pimba, começava a chover. Simples assim. Governador convocou a imprensa e anunciou a novidade, em meio alguns repórteres incrédulos, eu no meio. Pós- entrevista, na conversa em off brinquei que talvez fosse mais prático chamar os índios de Aracruz para uma dança da chuva.

E tome avião pra lá e pra cá com raros anúncios de chuvas esparsas de resultado. Ao cabo de algumas semanas, o serviço do comandante Zaranza, eis o nome do piloto, iria terminar, e Camata fez questão que eu embarcasse no avião para uma experiência nas nuvens. Em nome da reportagem, decolamos, sobrevoamos um Noroeste seco, quente e nada de nuvens. Zaranza se limitou a fazer uma encenação, lembrando que faltava a outra parte da matéria-prima, as nuvens, e não era qualquer uma, tinha que ser cinzenta, do tipo nimbostratus, de preferência, sinalizando que carregava água. Máximo que encontramos foram camadas altas de cirros próprias de dias ensolarados.

De volta à redação, um telefonema do gabinete do governador, era Camata querendo saber como havia sido a experiência. Minimizei a decepção, mas não perdi a piada: “Camata, ainda acho melhor chamar aqueles índios de Aracruz...” Na verdade, aquela história já começava meio piada-pronta: tecnologia cearense pra fazer chover, como assim? Mal comparando, parece a história da “tia” encalhada dando conselhos amorosos às amigas em conflito conjugal.

De volta ao futuro, dias atrás houve mais uma cena digna de cinema: a chegada da sonda chinesa no lado oculto da Lua, bem ilustrada pelo nosso chargista Pater mostrando o fim do sossego por aquelas bandas. A face oculta do satélite, que inspirou poetas, ficcionistas e um clássico do rock, “Dark side of the moon”, do Pink Floyd, agora está na mira dos chineses. Se aqui na Terra os chineses querem dominar tanto o lado visível quanto oculto, imagine na Lua. Em pouco tempo, estarão por lá vendendo lotes e quinquilharias. Com direito a uma paradinha – bobeando, Anita aparece – no concorrido churrasquinho de gafanhoto bem na beira de uma cratera. Simples assim.