Relações virtuais

 (Foto: Reprodução)
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No Alegre, um sujeito foi preso por cometer “estupro virtual”, coisa assim de abalar o Pico da Bandeira e a “Companhia do Pastel” onde a boca maldita da cidade se reúne. O sexo à distância, quem diria, existe. O criminoso virtual coagiu uma garota a se exibir, intimamente, via skype. E pimba. Isso bate com a pesquisa da Consumoteca, feita com mil brasileiros entre 18 e 50 anos – a pesquisa considera que não existe vida sexual depois dos 50 (emoji com cara de espanto + ???) –, que diz: “Jovens usam internet para ampliar conquistas virtuais e se sentirem desejados, contato físico não importa”.

Outra pesquisa, internacional, aponta que 94% dos jovens entre 16 e 22 anos preferem ficar sem transar do que abrir mão do celular. Lá no Alegre, principalmente para os excluídos acima dos 50 anos, isso é coisa de... Bom, deixa pra lá. Mas nem tudo é tão virtual com dose de platonismo. A internet, ao mesmo tempo, amplia o horizonte dos contatos. A uma revista nacional, uma cariaciquense revelou que namora uma pessoa de Viçosa, Minas, se apaixonaram através da telinha mágica. Agora, o casal se encontra de fato, olho no olho, pelo menos uma vez por mês.

Ou seja, a tecnologia permite que você se encontre com gente que nunca imaginou, de outra esfera geográfica e social. Diferente do encontro possibilitado pelo circuito tradicional: escola, bairro, vizinhança, trabalho, igreja, relações familiares. Namoro à distância sempre foi visto como coisa de adolescente, euforia passageira e sem futuro, do tempo do onça em que se escreviam longas cartas e as pessoas liam romances. Flaubert, baita escritor do século XIX e um ermitão dos campos, tinha uma namorada à distância, Louise Colet, mesmo já sendo bem grandinho. Quando a encontrava, dizia: “Olha só que maravilha, vamos poder ficar juntos um dia inteiro”. Misantropia pouca é bobagem. Agora, isso foi redimensionado pela tecnologia.

Leopoldo Nosek, especialista em Freud, defende seu cadinho corporativo argumentando que nunca antes quanto agora a psicanálise se torna fundamental. Aponta que a atribulação da vida moderna e a internet tiram o tempo das pessoas olharem para si próprias e ao redor. Isso ajuda a entender um pouco aquela cena clássica da família reunida para almoço onde todos manipulam seus celulares, ao mesmo tempo, e não se olham nem se falam. Ou ainda a imagem de jornal que traz pessoas na fila de emprego, a maioria digitando celulares, cada qual no seu mundinho distante. Emprego não tem, contato humano é pouco, mas o celular não pode faltar.

E volta Nosek com sua psicanálise antropológica. Ele diz que as redes sociais são como a pracinha do interior, antes da TV surgir, onde as pessoas se encontravam. Terminava a missa, a cidade passeava, se exibia, havia paquera e futrica. “As redes sociais são como a praça do interior, trazem aparências de intimidades, mas a coisa intima, de verdade, não circula lá. Ninguém diz, por exemplo, que brochou numa transa”, frisa. É a tal bolha da felicidade replicada.

Mais antigo ainda, as igrejas e suas quermesses antecederam o shopping nessa relação de encontros, compras e lazer. As igrejas eram abertas, os shoppings são fechados: exclui a malta em nome da segurança e aparências. E para onde vamos? Às cidades robóticas? Estudiosos apontam que lá por 2035 muitas profissões serão extintas e a grade curricular terá que ser radicalmente alterada para inserir novas tecnologias. Por outro lado, será fundamental manter obrigatórias disciplinas como filosofia, para estimular o pensamento crítico, e alguma atividade lúdica (música, pintura etc.) para humanizar as relações. Ou vira tudo Avatar, meio homem meio máquina.

Porém, é difícil prever o futuro, chuta-se bastante. Gastamos muito tempo projetando computadores sofisticados, carros voadores, prédios inteligentes, contatos intergalácticos, viagem ao centro da Terra, mas ninguém previu o surgimento da internet. E agora discutimos a sua consequência no comportamento cotidiano. Igualmente, nenhum Casanova poderia supor que um dia haveria relação e estupro à distância. E, ainda por cima, bem lá no Alegre.