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Professores, super-heróis na vida e no cinema
Claquete

Professores, super-heróis na vida e no cinema

Sociedade dos Poetas Mortos, de 1989 (Foto: Divulgação/ Disney)
Sociedade dos Poetas Mortos, de 1989 (Foto: Divulgação/ Disney)

Por Adilson de Carvalho Santos

No início de outubro, mês que homenageamos os profissionais da educação, uma professora foi agredida física e verbalmente por ter impedido que uma mulher não autorizada retirasse da escola um aluno, que não era seu filho. Diante de todos, a professora de Carapicuíba, cidade paulista, sofreu esta terrível humilhação, completamente indefesa. O fato é mais um dado estatístico na crescente violência que aflige os professores deste país. Que nessa data possamos recarregar nosso espírito combalido, mas incansável, que ao menos na ficção coleciona mais vitórias que no mundo real.

Se o papel de um professor é ser inspirador, melhor começar relembrando o idealista John Keating, interpretado pelo saudoso Robin Williams em “Sociedade dos Poetas Mortos” (1989). Sua paixão por literatura o leva a ensinar a seus alunos valorosas lições sobre a importância do pensamento livre, de valorizar cada minuto. O filme popularizou a expressão latina “Carpe diem” e despertou muitos para as belas poesias de Walt Whitman e Henry David Thoreau, autores do século XIX cujos trabalhos são de alcance e beleza atemporais. Williams, na ocasião, revelou que interpretou Keating com a convicção de que este seria o tipo de professor que adoraria ter tido. No final, a sequência dos jovens de pé sobre as mesas ao som do brado “Oh Capitão, meu Capitão!” levou muitos, incluindo eu mesmo, às lágrimas e à constatação de que plantamos sementes nos corações daqueles cujas vidas tocamos. É parte da essência do que o Magistério tem de mais bonito, mas que raramente conseguimos realizar na dimensão desejada, quando nosso espírito é açoitado por salários reduzidos e condições de trabalho deprimentes que em nada lembram a aula de Literatura de Keating ou a envolvente aula de História de William Hundert, personagem de Kevin Kline em “O Clube do Imperador” (2002). Hundert é de uma ética admirável e vive à flor da pele todo o valor da visão histórica, ligando presente e passado em suas aulas para moldar o carácter dos jovens de forma construtiva, direcionando suas vidas para um futuro melhor através de uma competição sobre a antiga Roma. Esse papel moralizador, ainda que falível e vulnerável, torna a docência ainda mais fascinante mesmo que não desfrutemos os louros da vitória em nossa dura realidade.

Sacrifício é assim parte indissociável da alma deste profissional que forma todos os profissionais, que passa pela vida de cada um de nós e pode mudar o curso de vidas. O exemplo da professora Erin Grumwell, que sofreu perdas pessoais, mas nunca desistiu de ensinar seus alunos a importância da leitura. Fato real, adaptado para as telas em “Escritores da Liberdade” (2007), sua história se tornou um belíssimo filme estrelado pela oscarizada Hillary Swank, onde sua devoção cria um elo de confiança precioso com alunos marginalizados da periferia de Los Angeles. Desfavorecidos por sua condição social, desiludidos com o futuro e atraídos pela violência de gangues e drogas, os alunos de Erin gradativamente se permitem abrir seus olhos para a importância da educação, enquanto Erin briga com diretores e professores descrentes a dar uma chance real para o grupo, que passa a escrever sua experiência pessoal em diários vindo a ser publicados, inspirados no exemplo de Anne Frank. Erin consegue inclusive trazer para sala de aula Miep Gies, a mulher que abrigou a pequena Anne e seus pais num gesto de coragem e humanidade. A figura de Grumwell foi um divisor de águas na vida daqueles jovens e continua a colher seus frutos através da “Freedom Writers Foundation” que amplia o alcance de seu trabalho para outros.

Como em qualquer área encontramos maus profissionais, mas devemos nos espelhar nos exemplos de Keating, Hundert e Grumwell, bem como nos exemplos de muitos grandes que tiveram a experiência de ser um professor. Nomes como Albert Einstein, Barack Obama, Stephen King e Renato Russo trabalharam como professores, viveram um período de suas vidas em uma sala de aula e deixaram um legado. A ficção pode inspirar realidade e se misturar a ela. O professor E.R. Braithwait escreveu sobre sua vida docente e sua história também foi adaptada às telas no clássico “Ao Mestre Com Carinho!” (1967). O protagonista foi rebatizado de Mark Tackery e interpretado por Sidney Poitier, eternizado na canção “To Sir With Love”, cantada pela britânica Lulu, marcando gerações. Assim como Grumwell, Tackery vence obstáculos, enfrenta o preconceito e as agruras sociais do subúrbio londrino para provar o valor de uma educação no rito de passagem para as responsabilidades da vida adulta, no conflito entre uma educação formal e a busca por um meio de subsistência. A professora Debora Garafolo de São Paulo alcançou também a glória, a de ter estado entre os 10 finalistas para o “Global Teacher Prize 2019”, tido como o prêmio Nobel da Educação, por sua atuação, a primeira mulher brasileira a alcançar esse pódio.

Professores podem ser rudes como Fletcher (J.K.Simmons) em “Whiplash”(2014), duronas como Louanne Johnson (Michelle Pfeiffer) em “Mentes Perigosas” (1995), malucos beleza como Dewey Finn (Jack Black) em “Escola de Rock” (2003), sensíveis como a Professora Helena (Carrossel), ou bem humorados como o icônico Professor Raimundo (Chico Anysio & Bruno Mazzeo) na TV, mas entre tantos talentos são a força que impulsiona o mundo, razão pela qual países como a Finlândia, Suécia, Japão e outros concedem reconhecimento aos mestres, como a luz que espanta a escuridão quando a maturidade se mostra vindoura, a juventude tão passageira mas o saber é a única riqueza que legamos aos nossos descendentes. Talvez um dia em nosso país percebam que o professor é o super-herói de que todos precisamos, mas não nos damos conta... de que somos homens, mulheres, de ferro.

 


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