Pios do Coelho

“De pios para abater caça, viraram instrumentos de harmonização com a natureza. E também recurso para gravações musicais de diferentes estilos, incluindo Tom Jobim”

Não há visitante, parente ou amigo de capixaba que não tenha sido agraciado com algum mimo peculiar, desde panelas de barro para a moqueca, passando pela caixa de bombom Garoto – ­ de preferência, antes de ter sido abocanhada pela Nestlé – ou uma coleção de pios de aves. Tão antiga quanto resistente e intrigante, a fabricação dos pios em Cachoeiro, iniciada em 1903, já foi contada e cantada em prosas e versos.

Essa fábrica mostra uma curiosa inversão de metas em sua trajetória: de pios para abater caça, viraram instrumentos de harmonização com a natureza. E também recurso para gravações musicais de diferentes estilos, incluindo o maestro soberano Tom Jobim. Bobeando, arrisco dizer que atravessaram uma caixa do legítimo pio dos Coelho para campanha do Che em Sierra Maestra.

Amante dos pássaros que adorava caminhar cedinho na mata para “escutar a natureza”, o maestro Tom Jobim, em sua juventude, quem diria, utilizava pios de caça para atrair macuco, juriti, inhambu e... Passava fogo. Anos mais tarde, penitenciando-se, passou a defender a fauna e flora por meio de canções, palestras, nas entrevistas. Foi a tomada da consciência ecológica que começou a ganhar força ali pelos anos 1970. Até então, o que se ouvia em muitas matas era o cantar devastador de motosserras. Ao redor, donos de terras se endinheirando com o fausto da madeira.

Quando Tom Jobim lançou, em 1976, o disco “Urubu”, o álbum logo se tornou antológico, não apenas pela bandeira ambiental explícita, mas também por misturar música popular com erudita.

Além disso, recheado de faixas longas – “O boto” tem 6:09 segundos, “Arquitetura de morar”, a mais longa, 8:09 segundos – não se encaixava no padrão das gravadoras. O conceito predominante era que toda música acima de três minutos não tocava no rádio. Foi preciso que o sagaz Andre Midani bancasse o projeto, que acabou inaugurando no País a gravadora Warner Music.

Com esse suporte, Tom Jobim pode gravar o álbum nos Estados Unidos, contando com arranjos de Claus Ogerman e músicos de primeira linha. Seria o décimo disco-solo de sua carreira. Havia ali, naquele vinil, duas jóias da canção brasileira, “Lígia” e “Correnteza”, além do auxilio luxuoso dos pios do Coelho na abertura do álbum. Era a nata da MPB passando por Cachoeiro, como diz a turma bairrista da “capital secreta”.

O escritor e historiador musical Ruy Castro, em seu livro “A arte de querer bem” fala do “maestro piador” e chama atenção para a faixa “O boto”, que abre o álbum “Urubu”. “É uma sinfonia de pios. Estão integrados com tal naturalidade à orquestração que podem ser escutados pelos menos atentos. Mas estão lá no disco e executados pelo próprio Tom. Eram os pios de ipê ou bambu, torneados por seus fornecedores: os velhos artesãos piadores da Fábrica de Pios e Aves de Cachoeiro de Itapemirim, da qual certamente ouviu falar por Rubem Braga”, deduz e relata Ruy Castro. Detalhe: o escritor não associa a fábrica à família Coelho, que toca aquele negócio há 115 anos passando de pai para filho.

A primeira vez que fui à casa dos Coelho, na Ilha da Luz, entre mangueiras frondosas, fui atraído não pelos pios, mas por canções. Era um refúgio quase silvestre encravado numa área urbana bem bucólica, hoje bastante adensada. Era tempo de festivais anuais de música na cidade, e um dos Coelho, Hésio, de talento musical nato, promoveu uma reunião para gravar no “tijolinho” – aparelho de fita-cassete – músicas autorais apresentadas por amigos no Festival Cachoeirense da Canção de 1971.

Uma das músicas gravadas no ”tijolinho”, “Poeira” (Estelemar- Cleomar Martins), seria depois gravada em disco e lançada nacionalmente por Ciro Monteiro, que foi presidente do júri daquele festival. Essa canção traz também mensagem ambientalista (“Poeira no espaço, poeira no chão, poeira pó do meu irmão, poeira atômica, poluição, fatal consequência da evolução/ Poeira quanta, quanta poeira...”). Outra prova de que mestres do nosso cancioneiro já beberam bem na fonte de Cachoeiro.