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Medo e ansiedade levam à queda da imunidade

Medo e ansiedade levam à queda da imunidade

Kariny Baldan
Bem-estar físico e emocional

Durante o isolamento, o estresse provocou aumento de casos de gastrite, úlcera, queda de cabelo, pressão alta, entre outras doenças

O estresse é natural em momentos de incertezas, como o que está sendo provocado pela pandemia da Covid-19. Entretanto, deve ser controlado, pois, associado ao medo e à ansiedade, pode provocar queda na imunidade e elevar o risco de adoecer.

Nos consultórios, médicos relatam mais queixas, mesmo de quem não foi contaminado pelo vírus.

Gastrite, queda de cabelo, pressão alta, dores musculares, espasmos, síndrome do pânico ou de burnout, paranoia e úlcera são algumas consequências do estresse.

Outra queixa recorrente é a dor de cabeça. De acordo com pesquisa do Ibope, 31% dos brasileiros afirmam que o cenário provocado pelo novo coronavírus causa cefaleia.

Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, Antônio Geraldo da Silva afirma que a quarentena é gatilho para todas as doenças mentais. “Mas temos percebido maior volume de transtornos ansiosos, depressivos, por uso de substâncias e compulsões alimentares”.

“A saúde mental tem impacto direto na qualidade de vida. O bem-estar psíquico interfere no modo de enfrentar condições físicas.”

Os efeitos negativos se devem ao estresse continuado. O médico Jean Rafael Santos Rodrigues explica que essa emoção é necessária quando o corpo precisa se preparar para reagir contra um perigo.

“O estresse muda a química hormonal e libera cortisol, o que prejudica o sistema imune se for prolongado. Isso dá abertura para infecções e vírus.”

A imunologista Milena Piana acrescenta que a queda na proteção do corpo pode afetar doenças controladas e agravar o quadro. “Asma, dermatites ou rinites podem ter piora, e doenças autoimunes serem descompensadas.”

As emoções ainda provocam náuseas, enjoos e diarreia. O clínico geral e colunista de A Tribuna, João Evangelista, associa o mal-estar à liberação de adrenalina no organismo quando há medo, que estimula a liberação de ácido clorídrico no estômago, causando irritação.

“As fake news e o excesso de negatividade alimentam emoções como angústia, apreensão e ansiedade. Isso pode ser traumático e desencadear quadros psicológicos”, enfatiza o médico.

Treino em casa

A alteração na rotina impactou as emoções da fisioterapeuta Patrícia Meriguetti, 43. De início, ela manteve o ritmo de exercícios e a boa alimentação, mas perdeu as energias.

“As incertezas me abalaram. Tive medo de os meus pais adoecerem”, lembra. “A chave para melhorar foi criar uma rotina: meditar, vestir roupa de trabalho mesmo em casa e me exercitar.”

Praticante de crossfit, Patrícia treina online com o professor Wagner Rabelo e conta com ajuda do filho Guido, 9 anos.

Saiba mais

As queixas

Dor de cabeça, gastrite, náusea, queda de cabelo, diarreia, alterações no sono, dores musculares, úlcera e pressão alta são algumas queixas que podem estar relacionadas a emoções negativas e a mudanças nos hábitos devido ao distanciamento social.

Alopecia (perda de cabelo), psoríase, vitiligo, alergias e outras doenças com quadro controlado podem ser descompensadas e agravadas pela queda na imunidade.

Impacto emocional

O cenário criado pela pandemia pode ser gatilho para todas das doenças mentais, entre elas a depressão, a síndrome do pânico, o transtorno obsessivo-compulsivo, os distúrbios alimentares e o abuso de substâncias.

A instabilidade emocional ainda prejudica a criatividade na hora de buscar soluções para os problemas.

Impacto nas defesas

O estresse é uma emoção necessária para o organismo lidar com ameaças, preparando-se para combater ou fugir do perigo. Entretanto, libera o hormônio cortisol, que prejudica o sistema imunológico quando dura por muito tempo. Assim, o corpo fica exposto e vulnerável a vírus e infecções.

Atenção para a mente

As queixas devem ser avaliadas por profissionais para verificar se têm causas emocionais e descartar outras possibilidades. A saúde mental deve ser acompanhada por profissional.

Arquivo/at

Depressão: ajuda do profissional

Fonte: Especialistas entrevistados.

Divulgação

Mariana: alimentos saudáveis

Mudanças nos hábitos afetam qualidade de vida

O distanciamento social modificou a rotina de todos, fazendo as pessoas terem suas atividades limitadas e passarem mais tempo em casa. Com isso, hábitos foram alterados, o que impacta na saúde.

Alimentação desregrada, sedentarismo e vícios, como o tabagismo e alcoolismo, surgem como válvulas de escape para o estresse. Só que afetam a defesa do organismo, deixando-o mais vulnerável ao vírus, alertam os especialistas.

Doutor em Odontologia pela USP, Hugo Lewgoy avalia que é comum aumentar a prática de hábitos negativos quando se está em estado de tensão emocional.

“Como resultado da vulnerabilidade combinada aos maus hábitos, há um maior risco do surgimento de doenças que prejudicam a saúde oral, como cáries, gengivite e halitose”, alerta o especialista.

Pelo impacto emocional, a dentista Catarina Riva tem observado maior incidência de bruxismo, fratura dentária, apertamento dental e espasmos musculares.

“É cedo para afirmar, mas há casos de placas nos dentes possivelmente por ficar um longo período sem escovação por estar em casa.”

A nutróloga Mariana Comério destaca o risco de compensar as emoções descuidando da alimentação. Com o coronavírus, a obesidade é uma comorbidade.

“Tinha pacientes equilibrados que descompensaram nesse período e engordaram 5 kg ou 10 kg em 30 dias”, afirma. “A comida é uma fonte de prazer, mas dá para comer saudável e incluir alimentos funcionais que até melhoram a imunidade e têm efeito protetor, como mel, gengibre e limão.”

Cuidados para proteger a saúde

Os cuidados com a saúde devem ser intensificados quando há uma ameaça invisível que afeta tanto o corpo quanto a mente. Alimentação equilibrada e exercícios físicos associados a práticas de relaxamento ajudam a se manter saudável.

Criar uma rotina adequada ao contexto atual também auxilia a administrar as emoções e evitar os maus hábitos. Os especialistas recomendam planejar os dias de forma realista, criando sensação de controle sobre a própria vida.

A nutróloga Mariana Comério orienta se reorganizar para viver esta nova realidade e evitar compensar as emoções na comida. Ela desenvolveu um programa que foca na readequação do dia a dia e trata aspectos como autoestima e sexualidade, que contribuem para o fortalecimento pessoal.

“As pessoas tendem a se desequilibrar quando há desajuste na rotina. Tenho percebido melhoras nos pacientes só de reorganizar as atividades diárias deles”, analisa Mariana.

Os exercícios físicos, mesmo que limitados devido às medidas de distanciamento social, são indispensáveis, pois fortalecem o corpo e ainda estão associados à sensação de prazer e bem-estar, que auxiliam no controle das emoções.

A meditação e outras práticas prazerosas provêm o relaxamento do corpo e da mente. Pode ser leitura, pintura, ouvir música, assistir a filmes ou então se conectar a pessoas queridas com o auxílio de ferramentas digitais.

O psicólogo e gestalt-terapeuta Enéas Lara recomenda evitar a negatividade e ter atividades lúdicas e criativas, como organizar fotografias ou gavetas e pertences.

“O que reduz o estresse é manter-se ativo, alimentar-se com informação de qualidade, ajustar-se criativamente, fazer escolhas que promovam o bom humor e procurar atividades físicas regulares, além de buscar relaxamento e meditação”, acrescenta.

O cuidado com a saúde mental ainda inclui a criação de redes de apoio, que podem ser compostas por familiares, amigos, vizinhos ou grupos religiosos, esclarece a gestalt-terapeuta Lucélia de Paula.

“Com a pandemia, as famílias que já tinham uma boa relação de apoio conseguiram se estruturar melhor e manter a funcionalidade. As pessoas são fortalecidas quando se sentem conectadas e protegidas”, pontua Lucélia.

Kadidja Fernandes/AT

Meditação e oração em família

Em um primeiro momento, o casal de fisioterapeutas Raquel Pompermayer, 39, e Pablo Pompermayer, 42, adotaram hábitos poucos saudáveis para lidar com o tempo ocioso, como churrascos e bebidas frequentes, até que perceberam que deveriam ajustar a postura para o bem da saúde deles.

“No início estávamos perdidos, até que buscamos orientação”, conta Raquel. “Agora estamos mantendo a alimentação equilibrada, fazendo atividade física diariamente e lendo um bom livro, além do home office.”

A meditação e a oração também têm contribuído para fortalecer o emocional dos pais e dos filhos, Luca, 10, e Lorenzo, 4. Desde que reorganizou a dinâmica do lar, a família sentiu a melhora no desempenho.

A humanidade já passou por situações críticas e ainda assim criou coisas novas e teve aprendizados

Lucélia de Paula, gestalt-terapeuta

Quinze minutos de sol por dia ajudam a liberar neurotransmissores que geram calma e alegria

Thiago Silveira, dermatologista

Corpo manifesta emoções

A preocupação com o financeiro ou o medo de ser contaminado não se manifestam apenas na mente. O corpo sente e reflete as emoções.

Essa somatização ocorre quando o organismo expressa condições psicológicas através de sintomas físicos. Podem ser alergia, espinhas, dor ou outros sinais. Durante a pandemia, a principal queixa tem sido de queda de cabelo.

O dermatologista Tiago Silveira, da Sociedade Brasileira de Dermatologia, esclarece que muitas pessoas acham que questões emocionais são frescura. “Até que sentem falta de ar ou tontura causados pela ansiedade ou pelo estresse.”

O médico ainda relaciona o peso emocional ao agravamento de vitiligo, psoríase e queda de cabelo. Cada caso deve ser avaliado por médico.

Coceiras e irritações na pele podem surgir com o estresse e não se deve aplicar produtos para aliviar o incômodo, pois pode agravar a lesão e dificultar o diagnóstico.

A dermatologista Aline Aarão destaca que os cuidados com o corpo não devem ser negligenciados. “Em casa, as pessoas estão lavando menos o cabelo, o que propicia a dermatite seborreica. Então deve ser mantida a higienização. Além disso, cuidar da saúde mental com meditação, lendo um livro ou tendo outros hábitos relaxantes.”

Orientações

Tenha paciência

Não é possível controlar tudo. Então aceite o que não pode mudar.

Fuja da negatividade

Relações difíceis e muitas informações negativas – especialmente as falsas – alimentam emoções ruins.

Opte por atividades relaxantes

Deve ser algo que agrade a pessoa. Pode ser meditar, ler, ouvir música, assistir a um filme, desenhar... Manter-se ativo ajuda a combater o estresse.

Faça exercícios

Os exercícios físicos contribuem para a saúde física e ainda liberam hormônios associados ao bem-estar.

Não desconte no prato

Alimentação é uma fonte de prazer, mas é preciso evitar exageros. É possível saborear bons pratos que ajudam a equilibrar o ritmo do organismo.

Banho de sol

Quinze minutos diários de sol liberam neurotransmissores de bem-estar.

Seja resiliente!

Adapte-se e se reinvente para superar os problemas e se fortalecer.

Durma bem

O organismo libera estressores durante o sono e recupera as energias.

Suporte profissional

Não tenha medo de pedir ajuda. Quando a funcionalidade for afetada, busque um profissional.

Fonte: Especialistas entrevistados.

Fábio Nunes/at

Espaço mágico

O administrador Fernando Batalha, 39, e a jornalista Grazieli Esposti, 37, que é educadora parental em disciplina positiva, implantaram duas ferramentas na rotina de casa: o “espaço mágico da calma” para relaxar e a “pausa positiva” para se acalmar em meio ao estresse.

Os filhos Bernardo, 9, e Henrique, 6, também aderiram às práticas.

“Eu não preciso dizer para eles irem para o espaço mágico da calma quando estão nervosos. Eles decidem ir por conta própria para se acalmarem”, conta a mãe.

Divulgação

Jean Rafael diz que o sentimento real de gratidão ameniza o estresse

“Gratidão melhora o sistema imunológico”

O sentimento conecta áreas cerebrais capazes de estimular a produção de hormônios que interferem na proteção do organismo

Se sentimentos ruins deixam o organismo exposto a ameaças, emoções positivas protegem a saúde. A gratidão, por exemplo, fortalece o sistema imunológico e aumenta as defesas.

Valorizar as coisas boas e pensar positivamente também interferem no bem-estar do corpo e da mente.

Segundo o médico, palestrante e escritor Jean Rafael Santos Rodrigues, a gratidão genuína conecta áreas cerebrais capazes de estimular a produção de hormônios que interferem na proteção do organismo.

“As áreas do cérebro afetadas pela gratidão amenizam o estresse. Mas o sentimento deve ser real. É a gratidão de perceber o lado bom das coisas mesmo quando o momento não é favorável. Perceber que tem algo a aprender ou que a situação poderia ser pior.”

Para trabalhar a gratidão, Jean Rafael recomenda praticar, listando motivos para agradecer. No início, pode ser difícil. Com o tempo e aos poucos, a pessoa passará a ser grata por pequenas coisas ou momentos que viveu na infância, por exemplo.

O médico é autor do livro recém-publicado “A ciência da gratidão: Como prevenir as doenças da mente e aplicar o gerenciamento de estresse”, que mostra como esse sentimento ajuda a enfrentar dificuldades e doenças emocionais.

A positividade também é apontada como proteção pela psicóloga e psicoterapeuta Débora Monteiro Coelho. A especialista explica que pessoas que não sabem lidar com problemas podem se deprimir.

A ansiedade em buscar soluções quando não há como controlar todos os aspectos da vida aumenta a sensação de ameaça, pânico e fobias.

“Não dá para controlar tudo. Então tem que ser cuidadoso, com critério e equilíbrio. Deve ter pensamento positivo, acreditar que está fazendo a sua parte e que as coisas ficarão melhores”, afirma.

Outro sentimento indispensável em meio a incertezas é a esperança em contraponto da ansiedade, diz o clínico-geral João Evangelista.

“Os dois sentimentos são sinônimos de esperar. A diferença é que um é negativo e o outro é positivo. A esperança é necessária, pois é pacífica e calma. Já a ansiedade consome energia sem necessidade.”

O estado de espírito auxilia na resolução dos problemas. A gestalt-terapeuta Lucélia de Paula explica que “quando ficam mais tranquilas, as pessoas acessam melhor sua criatividade, essencial para se reinventar e encontrar soluções para seus problemas”.

Análise

Valber Dias Pinto, médico psiquiatra e professor de pós-graduação da UVV

“Recomendação é adotar nova rotina e dar atenção ao sono”

“O aumento da exposição a estressores durante a pandemia está associado a: medo da doença, frustração pelos planos cancelados, tédio pelo isolamento social, insegurança financeira e até mesmo por insegurança quanto à qualidade das informações recebidas, tamanha a quantidade de 'fake news' sobre o tema.

Outro fator que cresce conforme o número de casos aumenta é o estigma da doença, gerando o receio de ser rejeitado pelos demais, o que leva muitos a esconderem o diagnóstico.

Esses sentimentos podem levar a uma maior irritabilidade e alterações no sono. Em casos específicos, piorar ou causar quadros ansiosos graves, podendo agravar quadros dermatológicos ou cardiológicos, como a descompensação da pressão arterial.

Para lidar com isso, a recomendação mais importante é desenvolver uma nova rotina, com atenção especial ao sono e aos horários que antes eram habituais.

Outra forma de fortalecer a saúde mental é saber oferecer suporte ao outro, bem como estar aberto a receber e mostrar que se importa.”

Publicado em 24 de maio de 2020

Reportagem: Kariny Baldan

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