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Mais de 200 criminosos ligados ao PCC no Estado

Mais de 200 criminosos ligados ao PCC no Estado

Kananda Natielly e Taynara Nascimento | Arte: André Felix
Crime organizado

Dados do Gaeco apontam que são 150 presos ligados ao maior grupo criminoso do País, além de outros 50 que estão fora da cadeia

Apesar do controle das unidades prisionais, o Espírito Santo conta, atualmente, com 150 presos ligados à facção Primeiro Comando da Capital (PCC).

O número de pessoas “batizadas” (ou seja, relacionadas) na organização é ainda maior, se considerarmos os integrantes que estão fora das cadeias: são mais de 200 criminosos em todo o Estado.

Os dados foram apresentados pelo Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, que descobriu ainda que boa parte dos envolvidos com a facção moram na Grande Vitória.

As investigações apontaram aumento expressivo no número de “batizados” em sete anos.

“Segundo nossas investigações, em 2014, o Espírito Santo contava com apenas três integrantes desta facção. Hoje, estimamos em mais de 200, sendo que 150 estão dentro dos presídios e os outros 50 fora deles”, afirma o promotor do Gaeco de São Paulo, Leonardo Romanelli.

Atuando especificamente nas investigações contra o grupo criminoso há muitos anos, o promotor diz que conta com alguns recursos, entre eles interceptações telefônicas, para apurar novas informações que chegam ao órgão.

“O monitoramento é constante. Usamos interceptação telefônica o tempo inteiro. A gente tem monitorado muito mais o PCC nas ruas, mas, ainda assim, fazemos monitoramento penitenciário, onde eles dominam mais de 80%”, disse.

Para Romanelli, o aumento no número de batizados está relacionado à política de expansão, adotada pela facção, que é considerada a maior da América Latina.

“Eles querem expandir os 'irmãos' para todo o Brasil, tanto é que eles pularam, no ano de 2010, onde tinham 10 mil batizados, para 25 mil. A implantação das sintonias (filiais da criminalidade) nos estados também contribui para o número de batizados”, explicou.

Sobre as parcerias do PCC, as investigações do Gaeco apontam que a facção paulista tem relação comercial com uma organização criminosa, já conhecida pelos capixabas: O Primeiro Comando de Vitória Capital (PCV), que é comandado por Carlos Alberto Furtado da Silva, o Beto, que está preso.

Divulgação

Operação no bairro da Penha, em Vitória

Armas e drogas para facção do bairro da Penha

Em uma relação extremamente comercial, criminosos do Primeiro Comando de Vitória Capital (PCV), que é comandado por Carlos Alberto Furtado da Silva, o Beto, que está preso, encomendam armamentos pesados e drogas da maior quadrilha do Brasil: o Primeiro Comando da Capital (PCC).

De acordo com fontes da segurança pública do Estado e de pessoas que já foram envolvidas nos trâmites da facção, não há qualquer domínio da facção paulista sobre o tráfico de drogas do Espírito Santo.

“Já vi o PCC vender armas para o PCV. Mas ele (PCC) não se alia a nenhuma facção. Sei que já tentaram, mas, como o PCV não quis mudar o nome, não rolou a 'conversão'. Hoje, é só parceria comercial mesmo”, contou um ex-integrante da facção, que pediu para não ter a identificação revelada.

PCV

O braço armado do PCV é o Trem Bala. As duas facções trabalham juntas, mas cada uma tem sua função. O PCV é o centro administrativo do tráfico no Complexo da Penha, em Vitória.

reprodução/ redes sociais

Ônibus incendiado

Um cartaz em represália a supostos maus tratos sofridos por detentos foi deixado após um ônibus ter sido incendiado em julho do ano passado, no bairro de Roda D’Água, em Cariacica.

Testemunhas contaram que criminosos chegaram de moto, invadiram os coletivos e, com arma em punho, ordenaram que os motoristas saíssem dos ônibus. Em seguida, jogaram combustível e incendiaram os veículos. O cartaz foi assinado como “Sistema prisional”.

Antônio Moreira - 03/05/2019

Presos integrantes

Três criminosos, suspeitos de integrarem a facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC), foram presos, na semana passada, em Cidade Pomar, na Serra. Dois homens de 26 e 23 anos e uma mulher, de 25, estavam em uma residência do bairro, quando foram surpreendidos pelos policiais do 11º Distrito Policial (DP) de Jacaraípe.

“Eles negaram, mas investigações da polícia de São Paulo apontam que são ligados ao PCC”, disse o delegado Rodrigo Henrique Rosa.

O que é PCC

Primeiro Comando da Capital

É uma facção criminosa brasileira que comanda assaltos, sequestros, assassinatos, tráfico de drogas e rebeliões em presídios, e outros crimes.

Considerada pelo Ministério Público a maior organização criminosa do País e da América Latina, o PCC foi criado em 31 de agosto de 1993 no Anexo da Casa de Custódia de Taubaté (SP), conhecido como Piranhão.

Origens: o grupo foi formado por oito presos integrantes de um time de futebol que tinham a “missão” de vingar o episódio do massacre do Carandiru (SP), que culminou com 111 assassinados, em 1992.

Número de batizados

LEVANTAMENTOS do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) revelam que o PCC tem 30 mil membros filiados no País – 200 batizados no Estado.

Facção Capixaba

PCV, Primeiro Comando de Vitória, segundo o MP-SP, teria apoio do PCC no fornecimento de armas e munições.

Os morros da Grande Vitória são dominados por integrantes do Trem Bala, que é o braço armado do PCC.

A função no crime

TREM BALA é o braço armado, firmado por criminosos mais violentos que expandem o território, enquanto o PCV faria a aquisição e distribuição da droga. O PCC, segundo fontes, assumiu o controle do tráfico de drogas no Estado, através do PCV e do Trem Bala desde 2013.

Você sabia?

No batismo do PCC, o iniciante responde questionário sobre ética e drogas, por exemplo, para integrar o grupo criminoso. Há batismos que são realizados durante conferências e encontros com várias demandas do PCC que chegam a durar entre 4 e 5 horas.

Algumas regras

Estatuto do PCC

1 Diz que todos os integrantes devem lealdade e respeito à facção.

2 Os integrantes do Comando têm por direito expressar sua opinião, mas também devem respeitar a opinião de todos, inclusive, da hierarquia.

3 Todo integrante que está fora dos presídios tem a obrigação de manter o contato com a Sintonia (filial do PCC) do local onde ele mora.

4 O comando não admite entre seus integrantes, estupradores, pedófilos, caguetas (delatores), aqueles que extorquem, invejam.

5 Aquele que usufrui dos benefícios que a facção fornece e pedir para sair, demonstrando desinteresse pela organização criminosa, serão avaliados. Se constatado que o mesmo agiu com oportunismo, serão mortos.

Fonte: Ministério Público de São Paulo e entrevistados consultados na reportagem.

Kananda Natielly

Autônomo cumpriu pena em cadeia de segurança máxima por 25 anos

“Fui o bandido número 1 do Espírito Santo”

Após passar 25 anos de sua vida cumprindo pena em uma cadeia de segurança máxima do Estado, um autônomo, que hoje está com 52 anos, decidiu mudar de vida. Ele, que chegou a se dedicar à facção Primeiro Comando da Capital (PCC) por oito anos, disse que já foi considerado o bandido mais perigoso do Estado.

Na condição de não se identificar, ele conversou com a reportagem de A Tribuna e revelou detalhes do PCC.

A Tribuna – Como entrou para o PCC?

EX-PCC - Eu estava cumprindo pena em um presídio e conheci uma pessoa que me indicou para o responsável pelo recrutamento que era de São Paulo.

Foi fácil entrar então?

Não. Você fica três meses na “experiência” e só depois que você entra de verdade para a facção.

Como que é o processo para entrar para a facção?

Primeiro, alguém precisa te indicar. Depois, eles dão o estatuto para você ler e dizer se concorda. Se concordar, é marcado a cerimônia do batismo.

O que diz o estatuto?

São várias regras, mas se a irmandade descobre que você tem alguma mancha na vida do crime, você não entra.

Que tipo de mancha?

Se você foi preso por estupro, roubar morador, passar perna em traficante, aí você não entra.

E o batismo, como que é?

Participam você e as pessoas responsáveis pela sintonia do seu estado. Eles fazem perguntas e depois vão lendo o estatuto. No final, pedem para você falar uma frase.

Qual frase?

Paz, justiça e liberdade!

O que é sintonia?

São os responsáveis por cada filial, digamos assim, do PCC nos estados.

E quando a pessoa entra para a facção?

Aí, ela começa a interagir com as demais pessoas da facção. Exemplo: se ele for traficante, está preso e com dificuldade para sair, ele vai receber ajuda para o que ele precisa. Só que aí ele vai ter o compromisso de se envolver nas atividades da facção. Se precisar fazer algum corre, ir até São Paulo, outros estados, tem que ir.

E se ele se recusar e se quiser sair da facção?

Acontece o pior, né! A pessoa morre mesmo. Só pode sair do PCC se você se converter a alguma religião e provar que se converteu. Fora isso, morre.

Você ficou preso por quanto tempo?

Quase 25 anos, pelos crimes de tráfico de drogas, assalto, queima de ônibus e fui pego em interceptação telefônica também.

Se arrepende de tudo?

A vida no crime é ilusória. Eu fui o bandido número um do Estado, já fiz muita coisa errada, mas depois que conheci a palavra de Deus, minha vida mudou.

DIVULGAÇÃO

PROFISSIONAIS da Segurança da Justiça do Estado: comando de 35 unidades prisionais

Sejus nega existência de facção

Mesmo com as informações fornecidas pelo Ministério Público de São Paulo, a Secretaria da Justiça do Estado (Sejus) informou, por meio de nota, que mantém o total controle das 35 unidades prisionais no Estado e disse que não reconhece essas organizações criminosas.

“Não realiza a separação de internos em galerias ou unidades por autodeclaração de participação em facções ou organizações criminosas”, informou a Sejus.

Ainda segundo a Sejus, a Diretoria de Inteligência Prisional é responsável por um trabalho de monitoramento e ações preventivas nas unidades para coibir atividades criminosas, atuando também em parceria com as demais forças de segurança do Estado.

Também por meio de nota, a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp) informou que todas as atividades do crime organizado no Estado são monitoradas de forma constante, a fim de subsidiar investigações que resultem na prisão de elementos que liderem, ou estejam envolvidos com a criminalidade violenta e tráfico de drogas em solo capixaba.

“As forças de segurança trabalham diariamente para realizar a detenção de membros das organizações criminosas e, caso seja identificado algum tipo de atividade ilícita, será coibida imediatamente, conforme trabalho que já está sendo realizado” diz a nota.

Acervo Pessoal

Raphael Pereira: “Triste rotina”

Ordens para incêndiar ônibus

Em menos de dez dias, cerca de quatro ônibus foram incendiados em julho do ano passado. Os ataques, segundo a polícia, foram ordenados por líderes do tráfico de dentro das cadeias. Em todos os casos, recados foram deixados no local contendo reivindicações ao sistema prisional do Estado.

Segundo o especialista em Segurança Pública e professor em Direito Penal, Raphael Pereira, os ataques não são novidades e acontecem há muitos anos.

“Essa determinação de queimar ônibus, por exemplo, é uma forma para levar um problema interno para a sociedade, provocando um clima de terror com consequências diretas a uma triste rotina do cidadão”, disse o professor.

Em relação ao meio utilizado para se comunicar com o externo, o especialista explicou que detentos podem utilizar, além de bilhetes, ex-detentos que podem continuar no mundo do crime, familiares que fazem visitas, advogados e até mesmo rádios comunicadores.

Já a Secretaria da Justiça do Estado (Sejus), em nota, reforçou que mantém o controle das 35 unidades prisionais e preza pela segurança e ordem no sistema.

Líder de organização evitou ataque a órgãos públicos

O líder da facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC), que cumpre pena em um presídio de segurança máxima de São Paulo, impediu que uma ação, planejada por integrantes da gangue e que cumpriam pena no Espírito Santo, realizassem um ataque contra órgãos públicos.

A informação é de um ex-integrante do PCC, que chegou a cumprir mais de 20 anos de cadeia. Segundo ele, a motivação estava relacionada com a transferência de presos.

“Isso já tem alguns anos. Na época, quem impediu foi o chefe que ainda está preso. Foi discutido em reuniões que iria ter um ataque contra policiais e órgãos públicos, porque o sistema tinha transferido um de nossos colegas para fora do Estado”, contou o ex-presidiário e ex-PCC, que não quis se identificar.

Segundo o ex-integrante da organização criminosa, na época em que ficou preso, as rebeliões dentro das unidades prisionais também aconteciam com frequência, inclusive, por motivos banais.

“Um tratamento ruim que tínhamos no presídio, comida ruim, tudo isso era motivo”, revela.

Ele, que hoje é pastor de uma igreja, disse que se arrepende de ter entrado para a facção.

“É uma vida de mentiras, além de você viver com medo o tempo inteiro”, afirmou.

análise

Sócrates de Souza, procurador de Justiça

“Eles querem transformar o Brasil na antiga Colômbia”

“O ingresso do PCC no Espírito Santo se deu porque a facção precisava expandir suas fronteiras. Com as portas do Rio de Janeiro fechadas, devido aos atritos com outras facções, ele enxergou no Estado um bom lugar para realizar o transporte de armas e drogas e é claro, se fortalecer por meio das parcerias com demais facções.

Hoje, estamos experimentando esse índice alarmante de violência, por conta da chegada dessa facção que visa dominar o País inteiro. Eles querem transformar o Brasil na antiga Colômbia.

Suas forças se intensificam por meio da violência e de desafetos. Infelizmente, continuam se fortalecendo dentro das unidades prisionais e, por mais que se negue sua existência, é importante criar estratégias para inibir sua expansão.

Uma das sugestões para impedir sua expansão é criar um presídio específico para integrantes de facções criminosas diversas. Além disso, a pena para quem é ligado a uma facção como essa, deveria ser cumprida à risca”.

Publicado em 10 de maio de 2021

Reportagem: Kananda Natielly e Taynara Nascimento