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[especial] - Principais desafios da nova geração de crianças

Principais desafios da nova geração de crianças

Lorrany Martins
ESPECIAL: comportamento

Especialistas apontam que, quem nasceu após 2010, é mais conectado e aprende mais rápido, mas tem dificuldades em se comunicar

Alguns ainda nem aprenderam a escrever ou nem mesmo a falar, mas já sabem escolher o vídeo que querem ver no aplicativo de celular ou na televisão. Outros, um pouco mais velhos, até ensinam truques das tecnologias para os pais e avós.

Assim é a nova geração de crianças que já nasceram ultraconectadas. Chamadas de “Alphas”, as crianças que nasceram depois de 2010 e as que ainda virão ao mundo até 2025 vão enfrentar desafios diferentes da geração de seus pais por causa das mudanças, cada vez mais rápidas, que a tecnologia traz.

Elas vão precisar superar obstáculos como dificuldades na comunicação, pensamento acelerado e falta de paciência, típicos dos tempos atuais.

Mestre em Psicologia de Crianças e Adolescentes, Fernanda Furia explica que a geração Alpha se diferencia das anteriores principalmente pelo fato de crescer com máquinas inteligentes. Ela, que é fundadora do Playground da Inovação, acredita que tecnologias imersivas estão moldando a formação cerebral, social e psicológica desta nova geração.

“A geração Alpha está se desenvolvendo dentro de um contexto global muito peculiar. Hoje as novas tecnologias estão bem mais desenvolvidas. O uso dessas ferramentas tecnológicas também é diferente. Os desafios ambientais são mais preocupantes”, ressaltou.

O professor e diretor do Sistema de Ensino pH, Cláudio Falcão, chama a atenção para o desafio na comunicação interpessoal.

“Esse é um dos riscos. Pelo fato de ser uma geração que se relaciona com o mundo externo via tela e que consegue respostas de forma imediata, a comunicação interpessoal pode, de fato, ser prejudicada”.

De acordo com a especialista em Educação Janaína Spolidorio, essa geração tem maior facilidade para aprendizagem intuitiva. No entanto, os conhecimentos podem se tornar superficiais.

“Significa que, embora tenham facilidade para aprender com rapidez, não têm uma importante característica necessária à aprendizagem, que é o aprofundamento. Possuem menor paciência e menor foco. O foco é egocêntrico, ligado a desejos pessoais e marcantes”.

Beto Morais/AT

De olho no celular

A pequena Sônia Vitória Rafael Soares, 4 anos, adora ver vídeos e brincar com o celular. Os pais dela, o pintor Cristiano Batista Soares, 31, e a dona de casa Francimara Rafael da Silva, 31 anos, permitem o uso, mas sempre com supervisão e algumas regras.

“Percebo que ela aprende muito rápido as coisas novas. As pessoas até dizem que é bem inteligente, mas acho que isso é mesmo da geração dela. Eles aprendem as coisas antes mesmo da gente”, disse a mãe.

O que é

Geração Alpha

são as crianças que nasceram depois de 2010 e vão nascer até 2025. O termo foi dado pelo sociólogo australiano Mark McCrindle.

São curiosas, espertas e atentas. vão experienciar um novo sistema escolar: mais personalizado e híbrido, ou seja, on-line e off-line.

Vão se relacionar de forma mais horizontal e menos hierárquica. Viverão em um mundo ultraconectado com acesso a produtos e serviços mais personalizados e sob medida para elas.

Fonte: Fernanda Furia, mestre em Psicologia de Crianças e Adolescentes.

Fernanda Ramos

Caçula é impaciente

O casal Humberto Langa, 46, e Naralandes Langa, 45, já observa a diferença de gerações nos filhos Henrique Langa, 14, e Arthur Barbosa Langa, de 7 anos. De acordo com a mãe, os dois gostam de tecnologia, mas o filho mais novo é mais impaciente do que o mais velho.

“Acho que a geração do mais velho demorou mais a ter contato direto com a tecnologia. Já a do segundo, o acesso foi mais rápido. O Arthur é bem imediatista, então temos que mostrar, de forma prática, que precisamos de tempo para tudo”, disse a mãe.

Desafios

1 Linguagem

Antes mesmo de aprender a falar, as crianças da geração Alpha já reconhecem ícones de aplicativos e programas de computador e celular e muitas já sabem como acessar.

Como a linguagem de aplicativos e internet são menos formais do que em um texto culto, por exemplo, um desafio para essas crianças será a escrita correta, sem abreviações e ícones. O uso de emoticons, que são ícones para representar expressões nos aplicativos, é uma característica dessa geração.

2 Paciência

A geração Alpha está crescendo com informações constantes e rápidas. Então, ter paciência e respeitar os processos será um desafio para a geração que é imediatista e não consegue esperar por uma resposta. Esse tipo de comportamento pode trazer ansiedade para a criança.

3 Relacionamento interpessoal

Tecnologias como realidade virtual e realidade aumentada serão parte do cotidiano das crianças dessa nova geração. Cada vez mais vai aumentar a parceria entre as pessoas e as máquinas inteligentes.

No entanto, os relacionamentos com outras pessoas pode ficar prejudicado, já que a tendência é conversar de forma virtual. Esse desafio tem que começar a ser trabalhado dentro de casa, em conversa com os pais.

Por passarem mais tempo usando aparelhos eletrônicos, têm também maior tempo centrado em desejos próprios, sem convívio e interação social. As deficiências na comunicação ocorrem exatamente porque possuem menor experiência social do que a geração anterior.

4 Falta de foco

Como é uma geração de crianças que fazem várias coisas ao mesmo tempo, completar as tarefas e ter foco nelas será um desafio. O foco é egocêntrico, geralmente ligado a desejos pessoais e marcantes.

Se essa geração não for desafiada rapidamente, a motivação se perde e, com isso, o processo de aprendizagem fica comprometido.

divulgação/Andreia Fink

Excesso de informação

Na casa da fotógrafa Fernanda Ramos Lopes Soares, 42, e do analista de TI Rodrigo José Soares, 41, os dois filhos são exemplos da geração Alpha. Nícolas Lopes Soares tem 10 anos e Thales Lopes Soares tem 7 anos. De acordo com Fernanda, o casal observa que os filhos têm facilidade para aprender e sabem lidar muito bem com a tecnologia em jogos, vídeos e no celular, mas a paciência é um ponto fraco.

“Noto que aprendem rápido. Mas, às vezes, há uma impaciência, principalmente do mais velho, com algumas coisas. Acredito que seja por causa do excesso de informações que recebem com essas tecnologias”, disse a mãe.

5 Diferenciar real do virtual

Como já crescem na era digital, entender o que é real e virtual, o que faz parte do mundo digital e o que não faz, será um desafio para as crianças dessa nova geração. Elas não conseguem pensar o mundo sem a internet e as conexões.

Por não entender a diferença do real para o virtual, é uma geração que não demonstra interesse por privacidade e tem dificuldade em entender o conceito da mesma. A maioria das crianças tem uma forte tendência ao exibicionismo, já que desde pequenas são expostas nas redes sociais por seus pais e familiares.

6 Gestão emocional-digital

É uma geração que terá de desenvolver uma inteligência emocional-digital. Ou seja, formar um conjunto de habilidades sociais e emocionais aplicadas ao mundo digital, como entender os próprios hábitos tecnológicos e comportamentos nas redes sociais, administrar as emoções quando se está online, refletir sobre o impacto das tecnologias no desenvolvimento pessoal, entre outras.

Esse tipo de comportamento também vai ajudar a prevenir muitos casos de bullying, de exposição excessiva, de pedofilia, de crimes cibernéticos, entre outras questões de segurança na internet.

7 Comprometimento

Por causa da agilidade de informações e a superficialidade em relação às relações sociais, esta nova geração está sendo muito impactada por falta de parâmetros sociais. O egocentrismo é maior e muitos já apresentam sinais de pouco comprometimento, mesmo que ainda jovens. Especialistas se preocupam com a falta de comprometimento com questões como estudos e mercado de trabalho.

A aprendizagem hoje é mais dinâmica, porém, mais superficial. O grande desafio está em como conseguir mobilizar essa nova geração para a sua própria aprendizagem, além de ajudá-los a encontrar uma causa frente à vida, algo que realmente possa fazer sentido para eles.

Fonte: Especialistas consultados.

Saber diferenciar o real do que é virtual

Há hábitos na vida que são tão naturais que ninguém imagina como era viver sem eles. Para quem nasceu depois da luz elétrica, fica difícil imaginar como era a vida sem energia. Assim é para as crianças que nasceram depois de 2010 em relação à internet, que fez surgir o mundo virtual.

Diferenciar o real do virtual é uma função difícil para eles. Alguns estudiosos chegam a usar o termo “mentalidade biônica” para explicar essa relação.

“Gosto de dizer que a geração Alpha tem uma ‘mentalidade biônica’, pois são crianças que vivem a tecnologia e suas possibilidades como verdadeiras extensões de seus membros e pensamentos. É uma geração que nasceu num mundo conectado, ativo, acelerado e instável”, explicou o psicanalista e diretor da escola para pais Mundo em Cores, Rodrigo Quintão.

A especialista em Educação Janaína Spolidorio fez uma pesquisa com crianças da geração Alpha para perceber essa distinção do analógico e do digital.

“É como se o digital fosse uma extensão da vida dela, mas sem a divisão que nós, adultos, fazemos. Eles acreditam que os amigos virtuais são reais, que a televisão só passa o vídeo que alguém escolher, que o que acontece no virtual faz parte do real. É como os adultos com a eletricidade, nem pensamos em lamparina na iluminação”.

Essa relação com o virtual pode trazer mudanças e até problemas para a comunicação, por exemplo.

Símbolos para expressar sentimentos, abreviações e gírias utilizadas no meio virtual já fazem parte do vocabulário dessas crianças. No entanto, a professora de Português Aurélia Pedroni alerta que esse tipo de comunicação pode prejudicar o rendimento escolar e a comunicação no mundo real.

“Trabalho com crianças que já não querem mais escrever a matéria no caderno, querem apenas fotografar o quadro. Além disso, tem as abreviações que são comuns nas redes sociais mas não são aceitas em provas, e isso acaba causando uma dificuldade”.

Para a escritora e educadora Janine Rodrigues, o grande desafio dessa nova geração será o equilíbrio entre o virtual e o real. “É difícil para o adulto saber o que é exagero, normal ou bom. O desafio para essa geração é entender o que é bom em relação a limites. Os pais precisam conversar com essas crianças, criar mudanças de hábitos para fortalecer o equilíbrio”.

O desafio dessa geração será entender quais os limites no mundo virtual. Uma tarefa que já é difícil para o adulto”

Janine Rodrigues, educadora

Linha do tempo

“Vão ver o mundo através de uma tela”

O casal Moira Resende, 37, e Luiz Paulo Bastos, 40, contou que já observa características da geração Alpha na pequena Maria Vitória Resende, 3.

A mãe conta que a criança adora ver vídeos na internet e tem até uma conta nas redes sociais, gerenciada pelos pais.

“Essa geração vai ver o mundo através de uma tela. Minha filha já mostra que não vai fugir à regra. É claro que tento limitar o seu tempo, pois sei da importância da relação com outras crianças para o seu desenvolvimento. Procuramos, inclusive, limitar o nosso tempo no celular para estar mais perto dela, trocando experiências. Nada substitui a relação humana e esse é o maior desafio dos pais de filhos Alphas”, disse Moira.

Divulgação

João Mattar disse que a universidade terá que trabalhar mais parcerias com empresas

Universidade vai ter de se reinventar

Para atender ao aluno da geração Alpha, a tendência é o ensino híbrido, que mistura aulas práticas com conteúdos a distância

A chegada de novas tecnologias e a mudança de geração faz com que escolas e universidades tenham de mudar seu modo de ensinar. Com a geração Alpha não será diferente.

Assim como as escolas já estão mudando o jeito de ensinar, a universidade vai ter de se reinventar para formar o jovem da geração hiperconectada que terá mais de uma ocupação no mercado de trabalho.

De acordo com o diretor de desenvolvimento científico da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed), João Mattar, uma das grandes preocupações, até mesmo internacionalmente, é se a universidade vai continuar existindo.

“Esse foi um dos assuntos no evento internacional que aconteceu recentemente. A universidade não será o único lugar para ensinar. Hoje já tem cursos massivos on-line e tem as universidades corporativas. A universidade é pressionada a mudar”.

De acordo com Mattar, a universidade tem de mudar e se aproximar ainda mais do mundo do trabalho, que está cada vez mais rápido. “Quando, e se, esse aluno da geração Alpha entrar na faculdade, ele vai trabalhar com algo que não existia quando ele entrou na instituição. A universidade terá de trabalhar ainda mais parcerias com empresas”.

Outra tendência que o diretor da Abed destaca é a forma de aprender. O ensino que mistura aulas práticas com conteúdos on-line e a distância estará cada vez mais presente nas universidades.

“Em todo lugar do mundo, o que se tem visto é a aprendizagem híbrida. Vai ter algumas atividades presenciais e outras a distância. Vai haver atividades presenciais nas empresas. A mistura entre as duas coisas é tendência promissora”.

O mercado de trabalho também sofrerá impactos com a chegada da geração Alpha, que ainda está na escola, mas já estimula mudanças significativas.

De acordo com a gerente de gestão de pessoas da Crowe, Rosana Daniele Marques, os jovens Alphas serão capazes de lidar com diversas atividades simultaneamente e serão responsáveis pelos seus próprios aprendizados.

“Serão facilmente adaptáveis às novas tecnologias, inteligentes e principalmente independentes. Já existe um processo de desenvolvimento vindo de gerações anteriores e que gradativamente se prepara para o futuro com estes novos profissionais”, destacou.

Pais podem ajudar na socialização

Apesar de as mudanças acontecerem cada vez mais rápido, especialistas acreditam que os pais ainda podem tomar atitudes para transformar o comportamento ruim da geração Alpha para que seus filhos estejam preparados para enfrentar os desafios.

Uma das mudanças significativas é em relação ao uso das tecnologias. Segundo educadores, é preciso ensinar os limites de uso e incentivar o relacionamento das crianças com outras pessoas, começando dentro de casa, com os familiares.

“A vida é feita de equilíbrio. Infelizmente percebo um desequilíbrio no uso das tecnologias. O que nos diferencia das máquinas é o modo de interagir com os outros. Os laços sociais estão se afrouxando. Acredito que a família ainda é o primeiro ambiente de aprendizagem. São os pais que apresentam o mundo às crianças e eles devem ser exemplo”, comenta a educadora Jane Haddad.

Para a mestre em Psicologia de Crianças e Adolescentes, Fernanda Furia, um caminho importante é a educação para o desenvolvimento de uma inteligência emocional-digital. “Isto significa ajudar as crianças a formar um conjunto de habilidades sociais e emocionais aplicadas ao mundo digital”.

Médicos alertam para doenças dos hiperconectados

Miopia, obesidade, isolamento social, irritabilidade, ansiedade e distúrbio do sono são algumas das doenças que a geração hiperconectada pode desenvolver e que já preocupam os médicos.

De acordo com o neurologista infantil Thiago Gusmão, é comum ver crianças ainda muito pequenas com celular ou tablet nas mãos, mas ele alerta que é preciso moderação. “Essa é uma geração que tem a conexão na palma da mão. Quando há falta de limites, o abuso da tecnologia reflete não só dentro de casa, na parte comportamental, como o isolamento social, mas também no ambiente escolar, trazendo transtorno no aprendizado”, destacou.

A pediatra Camila Mendes Telles lembra que o assunto é de grande preocupação e que a Sociedade Brasileira de Pediatria já divulgou diretrizes sobre o uso e os efeitos do excesso de telas para crianças.

“Menos de 2 anos a gente não orienta o uso. O pai tem de evitar ao máximo porque essa é a fase onde a criança tem grande desenvolvimento cerebral. Mas, vemos muitos pais dando celular para distrair a criança, o que pode prejudicar. Tem de haver o uso com intuito educativo”, disse a médica.

Dicas

Dê um tempo no digital

Embora o mundo hoje é bastante digital, onde a tecnologia pode encantar a todos, o corpo é analógico. Desta forma, há um desenvolvimento que precisa trazer ao corpo experiências, especialmente por meio dos sentidos.

Muitas brincadeiras que os avós antigamente faziam com os pais contribuem para desenvolver habilidades como a atenção, a concentração, habilidades sociais e controle das emoções, por exemplo.

Controle o tempo na internet

Para crianças maiores de 6 anos, o ideal é em torno de 2 horas por dia na frente das telas. Tempo esse que pode ser direto ou intercalado.

É importante fazer combinados com a criança antes de deixá-la acessar a internet ou ver vídeos na televisão. Além disso, não tirar a criança de uma hora para outra dos eletrônicos, pois isso pode causar situações conflitantes. Quando for chegando a hora de desligar ir avisando que está quase na hora.

Incentive momentos de conversas

Estabeleça horários e lugares na casa em que não se pode usar celulares ou aparelhos eletrônicos, como a mesa de refeições, ou depois do jantar. Utilize esse momento para conversar com a família.

A família é o primeiro lugar de aprendizado, por isso, incentive o relacionamento interpessoal, o diálogo é importante para o nativo digital.

Fonte: Especialistas consultados.

A escola precisa se adaptar e orientar uma potencialização dos pontos positivos da nova geração”

Janaína Spolidorio, esp. em Educação

Educar nunca foi uma função para amadores. É algo árduo, penoso e que requer tempo e dedicação”

Jane Haddad, mestre em Educação

As escolas vão precisar preparar indivíduos capazes de ter mais de uma profissão ao longo da vida”

Rodrigo Quintão, esp. em Educação

As crianças precisam mais do que nunca de adultos com capacidade de se interessar por elas”

Fernanda Furia, mestre em Psicologia

Publicado em 01 de março de 2020

Reportagem: Lorrany Martins

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