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Outro condomínio
Luiz Trevisan

Outro condomínio

Pouca gente sabe que o grande sucesso (“Jenifer”) do cantor vítima de acidente aéreo é assinado por oito compositores, quase um condomínio existente numa espécie de fábrica de música, em Goiânia. Ali, se reúnem de segunda a sexta-feira para elaborar canções depois oferecidas às duplas sertanejas, cantores de sofrência e outros gêneros

A trágica morte do cantor Gabriel Diniz, que deu vida a “Jenifer”, a música mais chiclete dos últimos tempos, revelou duas outras situações intrigantes. Primeira, que voar em avião pequeno não é tão seguro quanto propagam os aeroclubes da vida. Tornou-se um negócio sem controle eficaz. Lembram o avião do Boechat, também em situação irregular? Desconfio que poucos desses aeroclubes seriam aprovados numa fiscalização básica.

Voar de aluguel virou um negócio lucrativo e, dependendo das condições operacionais, nem sempre seguro: terminais carentes de instrumentos adequados ou necessários, pousos e decolagens feitas a olho nu, torre de comando nenhum etc. E há uma espécie de lenda que paira sobre os monomotores garantindo que acidentes só ocorrem quando o piloto sofre mal-súbito, pois em caso de pane no motor, o avião pode planar até achar um local seguro de pouso. Mas vá saber qual a real manutenção da aeronave e dos imprevistos nas alturas.

A outra situação é mais prosaica, porém chama atenção. Pouca gente sabe que o grande sucesso do cantor vítima de acidente aéreo é assinado por oito compositores, quase um condomínio existente numa espécie de fábrica de música, em Goiânia, sob a sigla Big Jhows. Ali, no horário de expediente convencional, eles se reúnem de segunda a sexta-feira para elaborar canções depois oferecidas às duplas sertanejas, cantores de sofrência e outros gêneros. Diariamente, são feitas ali de quatro a seis músicas vendidas entre R$ 3 mil a R$ 20 mil cada, mais os direitos autorais.

Até agora, “Jenifer” foi o maior sucesso dessa usina goianiense, bombou no último Carnaval e alcançou mais de 100 milhões de visualizações nas redes digitais. Mesmo ela, passou por um processo inicial de rejeição. A música foi feita em junho de 2018 e logo vendida a Gusttavo Lima, que chegou a cantá-la num festival em São João de Campina Grande, no mês seguinte. Mas o cantor parece não ter se empolgado com a música, tanto que a vendeu para Gabriel Diniz, depois de ter sido oferecida e recusada por Wesley Safadão. Vá entender?

Há muitas histórias parecidas como, por exemplo, quando Frank Valli resolveu gravar a canção “Can`t take my eyes off you”, que se tornaria um mega hit mundial – até a torcida do Flamengo fez uma adaptação que é entoada nas conquistas –, ele teve um trabalho danado para convencer o diretor da gravadora, que queria por todos os meios vetar a música. Não via naquele petardo de Bob Gaudio e Crewe chance de sucesso, imagina. E o cara era considerado “especialista”.

Antes da usina de Goiás, o condomínio musical surgiu nos concursos de samba-enredo das escolas do Rio de Janeiro. Se antes um ou dois compositores bastavam para fazer um samba-enredo, ultimamente costumam ser assinados por cinco, seis, oito, dez compositores. Nada, porém, garante que a quantidade de autores seja sinônimo de qualidade. Silas de Oliveira, por exemplo, fez sozinho um dos mais belos sambas-enredo de todos os tempos, “Aquarela brasileira”, para o desfile do Império Serrano, em 1964.

E Cole Porter, notável compositor americano, escrevia sozinho, música e letra, e várias se tornaram clássicos populares mundo afora, como “Night and Day” e “I get under my skin”. Isso num tempo em que locutores anunciavam os autores da música. Quase Impossível fazer isso hoje diante de tantos autores e toda pressa midiática. Uma rádio hoje pode ser tocada por computador e duas pessoas, não mais.

De todo modo, como música popular ainda é um negócio rentável – embora a venda tradicional de discos venha caindo vertiginosamente, pois quase ninguém compra, “baixa” na internet –, a busca insaciável por sucesso/dinheiro vai se tornando empreendimento corporativo: tem quem banca, quem gerencia, quem carrega o piano, quem toca, os que cuidam de elaborar a canção, os que fazem a divulgação, pagam o jabá, e vai por ai afora. Não raramente, vários assinam a música, mesmo não tendo escrito um verso, uma nota ou vírgula. Duplas como Roberto e Erasmo Carlos, Lennon e Mc Cartney dominando as paradas é coisa de mercado jurássico em extinção.

Ainda a propósito do business musical da era digital, Léo Souza integrava o grupo dos oito compositores de “Jenifer”, aquela que faz umas paradas e tal, só que no dia em que a música foi composta, ele não estava na usina. Um acordo no grupo estabelece que só entra na parceria como beneficiário quem estava ali no dia. Guardada a proporção, Léo Souza é quase um Peter Best, aquele baterista dos Beatles que foi sacado na última hora, antes do grupo decolar para o sucesso. Daí cedeu a Ringo Starr o lugar no tapete mágico da fama e da fortuna.

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