Os efeitos colaterais da paixão

Amo mais que a ti, ao meu amor por ti”, diz o poeta. Não seria esta declaração de amor, na verdade, uma confissão de paixão?

Estar apaixonado é adoecer por alguém. Apesar da inebriante sensação que proporciona, este sentimento desregula a mente e o corpo.

Paixão, a primeira vista pode parecer agradável. Inicia-se através de uma atração, fazendo nascer grande interesse e admiração pelo outro. Por fim, se transforma em perigosa obsessão.

Apaixonados sentem o coração bater mais rápido e um frio na barriga. Eles passam noites sem dormir e perdem o apetite. Nesse ponto, a paixão é muito diferente do amor, que é um sentimento muito mais voltado para a estabilidade, sem provocar sobressaltos.

Várias substâncias cerebrais são liberadas quando estamos apaixonados, o que auxilia a explicar, do ponto de vista químico, as noites insones e a anorexia. É tudo culpa de estimulantes naturais, como a dopamina e a noradrenalina, produzidas em quantidades maiores que o usual, por quem se apaixona. Essas substâncias são as mesmas utilizadas em moderadores de apetite.

Não existe paixão sem liberdade de escolha. Entretanto, isso não basta. Para apaixonar-se é preciso estar com o coração predisposto. Ao contrário do que diz o senso comum, não nos apaixonamos por acaso. É necessário estar pronto para essa experiência.

Indivíduos com medo de dar esse mergulho no escuro inconscientemente criam barreiras para não se apaixonar. Geralmente nos apaixonamos pelas pessoas que correspondem a um conjunto de expectativas que formamos ao longo da vida, muitas vezes com base em experiências vividas na infância, embora seja impossível explicar cientificamente por que nos apaixonamos por uma determinada pessoa. Os motivos são inconscientes e incompressíveis.

Assim como acontece com certas enfermidades, a paixão gera inquietação, preocupação e desgaste físico. Além disso, inundado pela euforia, o apaixonado costuma relaxar nas responsabilidades exigidas pela vida.

Paixão faz o indivíduo agir de maneira obsessiva, passando horas sonhando acordado com seu novo interesse amoroso. No interior do seu cérebro deslumbrado e dependente borbulham grandes quantidades de substâncias estimulantes.

A dopamina desencadeia imensa sensação de euforia. Este é um dos neurotransmissores mais famosos do sistema nervoso. Ele é conhecido como o neurotransmissor do prazer. Sua função principal é ativar os circuitos de recompensa do cérebro.

A noradrenalina aumenta o estado de vigília e acelera os batimentos cardíacos.
A serotonina deixa a mente temporariamente insana. Substância responsável pelo bom humor e sensação de bem-estar, ela é chamada de neurotransmissor da felicidade.

A vasopressina e a oxitocina, hormônios liberados pelo sistema nervoso, têm papel na formação de laços, gerando apego e estímulo sexual.

Acelerado por overdoses de neurotransmissores, o cérebro tenta se defender, abreviando o tempo do êxtase. Nenhuma paixão dura muito. O paraíso necessita voltar à normalidade. Apesar de ser um sentimento delicioso, uma paixão que perdurasse acabaria com a saúde do indivíduo. Seria biologicamente impossível manter a mente e o corpo acelerados por muito tempo. Nenhum ser humano suportaria permanecer anos a fio sem comer ou dormir direito. Em média, o prazo de validade da paixão é de dois a três anos.

A paixão não morre de amores pela liberdade. Abraçada por esse sentimento ardente, demora um pouco para que a liberdade volte a caminhar sem a paixão. Um dia o desejo de liberdade acaba sendo mais forte que a paixão. Um pássaro não amaria quem lhe cortasse as asas. Um barco não amaria quem lhe amarrasse no cais.


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