O vilão da vez

“Uma ilha remota no Pacifico Sul formada por plástico trazido em correntezas de diferentes cantos do planeta. E tartarugas abocanhando cotonetes em calda”

Impressionante como perdemos tempo em situações replicadas, reprisadas, e vivemos cercados de produtos que tanto podem ser heróis ou vilões, quando não as duas coisas. O vilão da vez é o canudinho – que acaba de ser reprovado pela Câmara de Vereadores de Vitória –, assim como já foi a sacola de plástico, o glúten, o sal do Himalaia, o açúcar refinado, a lactose. Aliás, ainda estamos no apagar do boom que considera a lactose a explicação genérica para uma série de problemas gastrointestinais. Na falta de um vírus doméstico, o diagnóstico médico aponta “mal causado por um vírus desconhecido”.

Na era farmacológica do não-identificado, tudo vira culpa do alienígena. Até mesmo o “Oumuamua”, aquele comprido e esquisito objeto interestelar que avança pelo sistema solar. Alguns astrofísicos de Harvard suspeitam ser uma nave guiada à distância por ETs, porém é preciso dar um desconto, pois sabemos que essa turma que perscruta estrelas também é chegada a uma viagem na maionese das galáxias.

No terra a terra de agora pegaram no pé do canudinho de plástico, até então inocente auxiliar para operações prosaicas. Polui e não se desintegra fácil. Mata animais marinhos quando ingerido. Bobeando, causa câncer na espécie humana. Tempos atrás, a mídia foi tomada por uma campanha, associada a insistentes matérias, falando do mal ambiental da sacola de plástico, e dos seus trezentos e tantos anos para virar pó.

Fez-se um carnaval, parlamentares apresentaram leis reguladoras, voltaram à venda as sacolas reutilizáveis, supermercados começaram a cobrar por sacolinhas de plástico. E virou outro nicho de mercado. Como pano de fundo, imagens intimidadoras, como uma ilha remota no Pacifico Sul formada por plástico trazido em correntezas de diferentes cantos do planeta. E tartarugas abocanhando cotonetes em calda.

Saindo dos acessórios plastificados, chegamos à prateleira de produtos palatáveis, como o moranguinho de Aracê e o tomate de Itarana, porém bombardeados por agrotóxicos sem controle. Recorremos às feiras orgânicas, mas quem fiscaliza aquilo? Como medir o grau de pesticida do inhame sem casca? O fato: agrotóxico virou condenável solução de produtor rural. Ele argumenta: “Ibama proíbe queimadas, e como vou limpar meu roçado? Na enxada sol a sol?” E aí o cara empesteia o terreno de Roundup e toca em frente. O Espírito Santo é hoje líder nacional no uso de agrotóxicos, e nossos representantes, em Brasília, acompanham timidamente as discussões sobre uma nova legislação que tende flexibilizar ainda mais a venda desses produtos. É a força do agrobusiness e sua poderosa bancada no Congresso.

Voltando à mesa, há um notável quarteto formado pelo ovo, vinho, café e cacau. Dependendo da maré e do clima mercadológico são benéficos pela manhã, perniciosos à noite, porém se mostram palatáveis e imprescindíveis em certas horas. Todos quatro já estiveram no céu e no inferno do consumidor. De vilão a herói da saúde, conforme os humores e interesses das linhas de montagem comercial do que levamos à mesa.

Tudo isso entre exotismos e extremos. Não tem gente que se delicia com gafanhotos crocantes? Já Paul McCartney considera comida vegana manjar dos deuses em plena harmonia com a fauna livre da degola. No túnel da cozinha do tempo, a comida vegana é quase uma linha evolutiva do que foi a lenta macrobiótica. Então o japonês, sem tempo nem espaço a perder, passou a cobrar pela duração da refeição e não pela quantidade. Com isso, japa mostrou que esse negócio de mastigar trocentas vezes, pausadamente, e sem nem um filé suculento no prato, não passa de tortura chinesa.