O Sheik do Cachimbal

 (Foto: Reprodução)
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Quem não tem dinheiro, conta história. De preferência, com muito dinheiro no enredo. Aquele que hoje cruza o município de Jaguaré se vê cercado de vastas culturas de pimenta-do-reino, coqueiros, mamão, café, milho e eucaliptos em algumas áreas de relevo ondulado e que nas décadas de 60 e 70 viveu o ciclo da madeira de lei. Depois veio o petróleo jorrando do subsolo. Claro, tinha também muito mosquito, febre amarela, a ausência de água tratada e energia elétrica, estradas ruins: o outro lado do desafio das terras a serem conquistadas no Norte do Espírito Santo.

Bem no início dos anos 1960, um jovem aprendiz de alfaiate, que morava em Vitória, recebe o convite do pai, já sexagenário, para ir a Jaguaré vistoriar umas terras que havia adquirido à custa de muito trabalho na lavoura como meeiro e alguns bicos – ele era versátil e prático, construía casas, criava porcos, fazia linguiça para vender, enfim se virava – e muita economia a duras penas.

Jaguaré, então, não passava de uma remota vila ao lado da estradinha batida. Seu comércio se resumia a um modesto armazém de secos e molhados, um boteco, uma igrejinha de madeira e o cemitério na parte mais alta. Entreposto de imigrantes e descendentes, principalmente italianos, negros ainda errantes das fazendas da senzala, tropeiros, mascates, aventureiros em busca de algum tipo de ouro.

O jovem alfaiate vistoria as terras do pai: era mato e mata pura em cerca de quinze alqueires. Fora levado ali para ver se a ele interessaria trocar agulhas e tecidos pela exploração daquela propriedade. O pai, 60 anos de uma vida de luta criando 11 filhos e tal, acalentando passar a bola para sucessor na linha direta. O jovem alfaiate não pensou duas vezes, recusou de pronto. Morava e estudava em Vitória, aquela vida de namoradinha e encontros com amigos nos finais de semana, praia, cinema, clube…

“Não vou trocar a cidade para me enfiar no mato”, pensou e disse. E repetiu ao pai aquilo que outros dois irmãos mais velhos, devidamente urbanizados, já haviam dito. Desanimado, não restou alternativa ao pai, senão vender aquelas terras, no barato, “para se livrar do abacaxi”. Pouco tempo depois, começa a exploração da madeira de lei na região, motosserras cantando, o fausto madeireiro que enricou muita gente e, claro, provocou arrepios de indignação no ambientalista Augusto Ruschi. Quando a madeira acabou por cima da terra, acharam petróleo por baixo. Jaguaré é hoje um dos principais produtores de petróleo do Estado embolsando grande receita em royalties.

O resumo, dentro da perspectiva do caso, é que o aprendiz de alfaiate trocara um robusto pote de ouro – e sem precisar ir ao fim do arco-íris – por panos, tesouras e agulhas. Hoje, quando os irmãos se reúnem e algum chora pitangas financeiras, gostam de zoar um ao outro aludindo ao episódio. Ao antigo alfaiate coube devidamente a alcunha de “O Sheik do Cachimbal”, referência àquelas terras menosprezadas situadas próximo ao Córrego do Cachimbal.

O pai, sem saber, havia encontrado o Eldorado solenemente ignorado pelos filhos. Eu entre eles. Mas, naquela época, eu era só uma criança que não entendia nada. E que desse episódio herdou apenas uma rica piada familiar.