O perigo de nunca sentir dor

Doutor João Evangelista, médico e colunista de A Tribuna (Foto: Arquivo/AT)
Doutor João Evangelista, médico e colunista de A Tribuna (Foto: Arquivo/AT)
A presença da dor é essencial para a integridade e a sobrevivência da espécie. Jesus enfrentou o sofrimento, sabendo que estaria abandonado da presença misericordiosa de Deus.

O cálice da maldição divina por causa do pecado estava prestes a ser derramado sobre o Nazareno na cruz do calvário, experimentando o martírio para redimir o ser humano. Aquele que nunca pecou, se fez pecado, gritando pelo afastamento da dor.

Não sentir dor não caracteriza benção. A dor é necessária. Ninguém consegue crescer sem experimentar sofrimento.

Algia é um sinal de alarme que protege o organismo. Diante da sua ausência, os gestos mais simples do cotidiano podem acarretar lesões graves.

O indivíduo que não retira a mão do fogo, ou que suporta, sem reclamar, pancadas intensas, orienta para o diagnóstico de analgesia congênita.

Presença de queimaduras, feridas, hematomas ou fraturas, sem que haja queixas, apontam para essa patologia.

Bebês com marcas de automutilação involuntária, como mordidas nos dedos, no interior da boca e na língua, são indícios de analgesia congênita.

Algumas vezes, a insensibilidade congênita à dor é descoberta apenas na adolescência ou em idade adulta, de forma acidental, quando uma fratura não produz nenhuma dor, por exemplo.

A etiologia dessa estranha enfermidade permaneceu por bastante tempo sem explicação.

Hoje se sabe da relação entre a falta de sensibilidade à dor, com anomalias genéticas que modificam o funcionamento de determinadas fibras nervosas.

Algumas formas de analgesia congênita provocam perda de sensibilidade tátil e da noção da posição dos membros.

Em outros casos, observa-se uma alteração do sistema nervoso autônomo, levando à ausência de lágrimas, crises de febre inexplicáveis e transpiração deficiente ou excessiva.

Diferentes genes foram associados a diversos tipos de analgesia. Assim, em uma das ocorrências mais raras, o motivo é a modificação de um gene que permite a diminuição do fator de crescimento, indispensável ao desenvolvimento das fibras responsáveis pela dor.

Essa mutação acarreta uma analgesia grave, acompanhada, por vezes, de uma situação de atraso mental.

A insensibilidade congênita faz com que seus portadores não percebam diferenças de temperatura, podendo sofrer queimaduras com facilidade e, embora eles sejam sensíveis ao tato, são incapazes de sentir dor física, ficando propensos a graves lesões, como amputações e esmagamentos de membros.

Dor é um sinal emitido pelo corpo, cuja função é servir de proteção.

Ela indica indício de perigo, auxiliando a identificar enfermidades, como infecção de ouvido, gastrite, ou outras mais graves, como o infarto agudo do miocárdio.

Quando a pessoa não sente dor, a doença vai progredindo e se agravando, sendo descoberta apenas numa fase avançada.

O diagnóstico da analgesia congênita é feito com base na observação clínica da criança, já que normalmente é descoberta na infância.

O tratamento não é específico, pois esta doença não tem cura.

Imobilizações e cirurgias podem ser necessárias para tratar lesões ortopédicas e evitar a perda dos membros.

Por mais sedutora que a ausência de dor possa parecer, basta refletir um pouco para se descobrir que essa premissa é mais um problema, que uma solução.

Sentir dor é a melhor maneira para evitar perigos e se recuperar o mais rapidamente possível de danos já ocorridos.

Agindo como um mecanismo de alarme, ela avisa ao cérebro de que algo potencialmente ameaçador está acontecendo em algum local do corpo.

Dor frutifica memória. Ter sofrido é não esquecer a tristeza e a dor, mesmo quando elas já se diluíram no passado. Só é feliz quem um dia foi triste.

João Evangelista Teixeira Lima é clínico geral e gastroenterologista


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