O ninho da alma

Quando eu era acadêmico de Medicina, durante uma aula de Anatomia, segurando um cérebro na mão, meu professor perguntou se alguém sabia onde ficava a casa da alma.

Como ninguém respondeu, ele ministrou uma verdadeira aula de esoterismo, mostrando uma diminuta glândula em forma de pinha localizada entre os dois hemisférios cerebrais.

O notável médico Galeno disse que sua função era apenas glandular.

Já o famoso filósofo Descartes achava que esse diminuto órgão era a morada do pensamento, de onde a consciência envia informações para o resto do corpo, enfatizava nosso professor.
Muitos acreditam que a glândula pineal é uma espécie de antena poderosa, teoria essa estimulada pela presença de cristais de apatita nela, os quais vibrariam de acordo com as ondas eletromagnéticas por eles atraídas.

No ser humano, esta glândula estaria em conexão direta com o córtex cerebral, que teria a capacidade de traduzir as mensagens transmitidas por ela. Assim, seria possível explicar eventos considerados paranormais, como clarividência, telepatia e mediunidade.

Segundo alguns pesquisadores, a glândula pineal comanda as emoções, pois tem acesso irrestrito a todo o sistema endócrino, atuando principalmente na esfera sexual.

Ela também seria capaz de dirigir as forças do inconsciente, apenas com o poder da vontade.
Alguns estudos apontam para o fato de que a glândula pineal seria o órgão sensor que capta informações por ondas e as convertem em estímulos neuroquímicos, de forma análoga à antena do aparelho celular para sinais eletrônicos.

Curiosamente, esse diminuto órgão também é chamado de epífise, que significa “acima da natureza”, revelando que a pineal encontra-se em grau superior em termos de qualidade natural.

Descobriu-se, recentemente, que a glândula pineal, antes considerada vestigial, tem função perceptiva.

Esta propriedade tem sido ligada com o entendimento de que a glândula pineal seja o centro de controle do cérebro. Ela processa informação externa e controla ritmos importantes do corpo.

A melatonina, por ela produzida, embala o sono, local onde habitam os sonhos, esses misteriosos fantasmas. Esta substância influencia a reprodução e o sistema imunológico, além de ser antioxidante, o que significa que pode ser eficaz na luta contra o câncer e em reduzir os efeitos do envelhecimento.

A glândula pineal produz melatonina em ambientes escuros e interrompe a sua produção em ambientes com luz.

Este diminuto órgão capta radiações do sol e da lua, esses regentes de tempo. Isso dá ao organismo a referência de horário.

Durante o dia, a glândula pineal dorme. Quando o sol se põe, ela derrama sua melatonina, embebedando o corpo com uma inebriante vontade de adormecer.

Algo acontece durante o sono, além do descanso. Basta observar que dormimos com um estado de espírito e acordamos com outro.

Ao penetrar no mundo louco dos sonhos, o tempo é desarticulado. Os sonhos confrontam experiências atuais com as passadas, limpando a mente e tonificando o corpo.

O sono é outra morada onde, deixando a nossa, vamos dormir.
Infelizmente, como acontece em outras partes do corpo humano, o conhecimento acerca da glândula pineal ainda é precário.

Passado quase meio século, ainda lembro-me daquela memorável aula de Anatomia, onde nossa sede de saber buscava explicações na fonte do mistério.

Entretanto, éramos muito jovens para compreender que nem tudo pode ser compreendido.

Quarenta anos depois, eu percebo que a alma não permanece na glândula pineal, mas viaja pelo corpo inteiro, sussurrando seus mistérios, onde a adrenalina da ilusão faz sonhar, a loucura da razão faz sorrir e a efemeridade da paixão faz chorar.

João Evangelista Teixeira Lima é clínico geral e gastroenterologista


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