O homem criminoso e as agressões contra mulheres

A visão da sociedade ainda é muito ingrata com as mulheres, séculos de discriminação e desrespeito não são facilmente apagadas do nosso cotidiano, mas o empoderamento feminino, que é a luta pelo respeito as suas opções e pela total igualdade entre os gêneros, parece estar conseguindo diminuir essa impressão de vulnerabilidade. Com o crescimento da participação feminina nas decisões cotidianas, muitos homens começam a se sentir vítimas deste processo e utilizam sua força para “se vingar”, “lavando sua honra” através de ameaças, agressões e espancamentos.

Com grande apelo da mídia isso está começando a mudar, mas essa mudança é sempre muito lenta.

Na atividade de defensor público é comum se deparar com relatos de espancamento feminino que foram mantidos em segredo pela vítima e seus familiares, talvez por ter conhecimento de histórias similares na sua comunidade que também foram mantidos em sigilo, quem sabe por receio de ficar desamparada financeiramente, quiçá pelo machismo das autoridades públicas que muitas vezes duvidam dos fatos ou tentam procurar alguma atitude da mulher que justificaria o homem agir daquela forma.

A antiga máxima “ruim com ele pior sem ele” ainda impera em nossa sociedade, sem contar que muitas vezes as famílias apoiam o homem agressor e colocam a culpa nas mulheres, mesmo quando elas são membros da sua família.

Não me parece representar a verdade a impressão de muitos operadores do Direito que alegam que a violência contra a mulher sempre existiu na intensidade atual, porém, que apenas agora está reluzindo devido ao estímulo das autoridades policiais para que ocorra sua comunicação.

Como os dados passados relacionados a violência doméstica são obscuros, em razão dos motivos acima alegados, não é possível fazer uma análise estatística fidedigna, mas a impressão após atuar por quase 10 anos como Defensor Público nas mais diversas áreas e regiões do Espírito Santo, alimenta a ideia que a violência doméstica vem crescendo a ponto de se admitir a existência de um surto.

Minha experiência profissional demonstra, que na maioria dos casos, um homem não começa a ser violento do dia para a noite, mas de forma gradual e as agressões vão aumentando à medida que o homem percebe que a mulher está sozinha.

Nesse sentido, a ira dos homens pode se voltar com tranquilidade contra suas parceiras dentro de casa, pois, muitas vezes, elas vão tolerar esses episódios de violência, sem se rebelar, até a morte.

Dentro desse cenário de empoderamento feminino aliado a crescente comunicação dos episódios de violência doméstica observo uma forte reação masculina de aversão ao feminismo.

Deste modo, para conter esse surto entendo que o melhor caminho a seguir é a estigmatização do homem como um criminoso, talvez dessa forma a culpa masculina que nunca existiu comece a aparecer.

Raphael Maia Rangel é defensor Público do Estado do Espírito Santo


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