Luiz Fernando Brumana

Luiz Fernando Brumana

O Grande Circo Místico: a aposta do Brasil ao Oscar

 (Foto: O mestre de cerimônia Celavi - Jesuíta Barbosa/ Divulgação)
(Foto: O mestre de cerimônia Celavi - Jesuíta Barbosa/ Divulgação)

Um filme que não foi feito para todo mundo. Talvez o indicado ao Oscar pelo Brasil, “O Grande Circo Místico”, de Cacá Diegues, requeira um aviso aos desavisados. Afinal, esta não é uma obra ao estilo hollywoodiano e nem um entretenimento puro e simples. É um exemplo de arte brasileira com tons dramáticos e poéticos.

Utilizando a frase de introdução dita pelo personagem Celavi — o mestre de cerimônia, interpretado pelo sempre intenso Jesuíta Barbosa, que passa por todas as gerações da família Knieps — aquele é um espetáculo de “picardia, putaria e poesia”.

Há no filme toda uma atmosfera de encantamento que outrora envolvia as apresentações circenses e que infelizmente vem se perdendo. Ao espectador mais velho traz uma sensação que beira à nostalgia.

 (Foto: Celavi e Beatriz/Divulgação)
(Foto: Celavi e Beatriz/Divulgação)
Os personagens contam com um ar de mistério e fascínio, principalmente a bela Agnes, nome verdadeiro da bailarina e acrobata Beatriz, vivida com maestria pela talentosa Bruna Linzmeyer. É o amor que surge entre ela e o aristocrata Fred (Rafael Lozano) o responsável pelo início desta história repleta de reviravoltas e nem sempre de alegrias, o que contrasta com aquilo que se vê no picadeiro.

A evolução da família é contada em capítulos que simbolizam o passar do tempo. Há referências pontuais há grandes longas-metragens, como o premiado Moulin Rouge (2008), mas o ritmo é outro e o enredo também. Toda a história é baseada no poema “O Grande Circo Místico”, do escritor modernista Jorge de Lima, escrito em 1938 e publicado no livro “A Túnica Inconsútil”. O texto virou peça de teatro na década de 1980 e agora filme. Até por isso, a trilha sonora é tão arrebatadora.

As músicas foram compostas por Chico Buarque e Edu Lobo, em uma das suas mais primorosas parcerias. Há canções dignas de estarem no panteão da música brasileira, como “Beatriz”, cantada por Milton Nascimento, ou a doce “Ciranda da Bailarina” e a marcante “A História de Lily Braun”.

 (Foto: Jean Paul, pai de Oto/ Divulgação)
(Foto: Jean Paul, pai de Oto/ Divulgação)
Na escalação do elenco também há acertos. Além de Bruna e Jesuíta, há nomes consagrados que também estão bem, como Juliano Cazarré, que vive Otó, o neto de Beatriz. Quem faz uma ponta no longa-metragem é Marcos Frota, que não poderia faltar sendo um dos maiores entusiastas do circo no Brasil.

Se a trilha sonora encanta ao ponto de emocionar e o enredo é rico, há alguns pontos neste filme que poderiam ser melhor explorados. Alguns cortes de cenas fazem perder a tensão de momentos decisivos do roteiro. O mesmo ocorre com o ritmo da edição, que parece acelerado demais e que não deixa o telespectador criar empatia com os personagens de alguns capítulos. Todos têm capacidade de cativar, mas não há tempo o bastante para isto.

 (Foto: o mímico Jean Paul/Divulgação)
(Foto: o mímico Jean Paul/Divulgação)
A fotografia é belíssima em tons de azul e vermelho. Porém, algumas vezes, lembra o tradicional enquadramento das novelas globais. Nada que comprometa, na verdade, mas chama atenção.

Há quem diga que “O Grande Circo Místico” não deva ser selecionado entre as obras principais para competir ao Oscar. Realmente, muitas coisas poderiam ser melhores. Mas é um longa-metragem que me levou a refletir, me encantou e até mesmo me fez querer saber mais sobre cada um dos personagens. Pensando bem, talvez seja este o objetivo real de um filme.