O cuidado fora dos hospitais e o foco no paciente

Andre Campana é angiologista e cirurgião vascular. (Foto: Divulgação)
Andre Campana é angiologista e cirurgião vascular. (Foto: Divulgação)
A palavra desospitalização pode até assustar, mas nada mais é do que tirar, na medida do possível, os pacientes de dentro dos hospitais, garantindo a eles o melhor cuidado, com as terapias necessárias, em um ambiente que se aproxime ao máximo do clima acolhedor que se tem em família, fazendo-o sentir-se em casa.

O foco está no paciente, levando em consideração o que ele demanda e onde ele poderá receber o acompanhamento mais adequado ao longo do tratamento.

É preciso racionalizar a relação da população com o atendimento de saúde. Nem tudo precisa ser feito em hospital, nem tudo demanda internação. Por que levar para o ambiente hospitalar um paciente cujo tratamento pode ser feito em uma clínica de saúde? Por que ocupar um leito com um paciente cujo procedimento é minimamente invasivo e no qual a recuperação pode se dar em casa? Por que expor um paciente aos riscos hospitalares?

A saúde está caminhando para a desospitalização, principalmente se levarmos em consideração dois aspectos: o alto padrão de clínicas que estão se firmando no mercado e a evolução dos tratamentos, com tecnologias que tendem a simplificá-los cada vez mais.

Com relação aos estabelecimentos de saúde, vemos o conceito One Stop se estabelecendo com mais força a cada dia. É a oferta de tudo o que o paciente precisa em um só lugar, de consultas a exames e procedimentos cirúrgicos. Em se tratando de angiologia e cirurgia vascular, isso é totalmente possível, uma vez que nós dispomos de técnicas de ponta, minimamente invasivas, e que não demandam estrutura hospitalar. É possível que o cuidado com o paciente seja feito, do início ao fim, com uma proximidade que acolhe, em um ambiente com menos riscos.

Um exemplo de tratamento complexo que se tornou minimamente invasivo é a retirada de safena, veia responsável pela circulação do sangue dos membros inferiores para o coração, graças à técnica do endolaser. A safena danificada é queimada por meio de uma fibra ótica. O procedimento pode ser feito em clínica, desde que haja um ambiente montado especialmente para isso, e o paciente recebe alta no mesmo dia, passando por um processo de recuperação muito mais simples e menos doloroso.

Isso, sim, é focar no paciente, mas, para que a desospitalização deixe de ser um tabu, são necessárias, entre os profissionais e empresários da saúde, respectivamente, mudança de consciência e força de vontade.

Mudança de consciência porque os médicos precisam separar com mais rigor os casos que demandam de fato internação hospitalar dos que podem ser solucionados fora dos hospitais. Força de vontade porque os centros e clínicas de saúde precisam estar em constante evolução, para que sejam, de fato, uma alternativa segura e eficiente para os profissionais e para os pacientes.

Na outra ponta, quando levamos em consideração quem demanda cuidados, é preciso haver uma mudança de cultura. Muitos pacientes acham que precisam ficar internados para serem bem tratados. É aquela velha história da consulta que só é boa, se o médico passar um monte de remédio. Os pacientes precisam deixar de enxergar como descaso o que, na verdade, é a nossa máxima preocupação. Um tratamento bem feito nem sempre requer um ambiente hospitalar. Cada caso deve ser analisado de acordo com suas particularidades.

Andre Campana é angiologista e cirurgião vascular


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