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O banheiro de Dadainha
Luiz Trevisan

O banheiro de Dadainha

“Na última sexta-feira, aos 91 anos, Dadainha foi sepultada em Laranjeiras, na Serra, cercada de parentes e amigos. O irmão famoso (João Gilberto), 88 anos, com limitações naturais da idade, não pôde comparecer, mas deve ter sentido muito”

Se a capixaba Nara Leão teve em Copacabana o apartamento mais badalado da então moderna MPB, coube à Maria da Conceição Oliveira Sá, a Dadainha, cuidar do banheiro mais famoso da Bossa Nova. Era ali, na residência em Diamantina, que seu irmão Joãozinho passava horas e horas, de pijama, violão em punho, burilando acordes em busca da batida perfeita. Anônimo, sem dinheiro e morando de favores aqui e ali, Joãozinho preocupava a família com seu jeito avoado e introspectivo. Pois ali, aos cuidados da irmã, passou oito meses – a maior parte naquele banheiro, seduzido pela acústica local, que possibilitava timbres nítidos – de onde seguiu para encontrar Tom Jobim, Vinícius de Moraes, no Rio de Janeiro, lançar a Bossa Nova e fazer história como João Gilberto.

Na última sexta-feira, aos 91 anos, Dadainha foi sepultada em Laranjeiras, na Serra, cercada de parentes e amigos. O irmão famoso, 88 anos, com limitações naturais da idade, não pôde comparecer, mas deve ter sentido muito. Eram bastante próximos. Volta e meia se falavam por telefone. Dadainha morou muitos anos em Vitória, casada com Péricles, engenheiro e professor e quem ajudou acolher João Gilberto, naquele período em Diamantina pré-bossa nova, entre 1956 e 57. Ou como observou o historiador e escritor Ruy Castro, “quando a ostra preparava a pérola”.

Os dois tinham estreita relação, desde Juazeiro, na Bahia, a terra natal. Joãozinho foi quem apresentou Dadainha a Péricles, quando este chegou do Piauí e logo se enturmou com o pessoal da seresta sob o tamarineiro da praça. E onde Joãozinho, então cantor de peito aberto, fazia sucesso interpretando canções de Orlando Silva. Por contingências funcionais, por volta de 1955, casados, Dadainha e Péricles mudaram para Diamantina, a terra de JK. E por pura necessidade de sobrevivência, foi ali que Joãozinho obteve guarida após uma passagem obscura pelo Rio de Janeiro.

O professor da Ufes Pedro Sá, filho de Dadainha, relata que o pai tinha bom gosto musical, incentivava Joãozinho, e só reclamava quando era acordado altas horas pelo violonista obcecado querendo lhe mostrar um novo acorde. Diferente do pai do Joãozinho, que apreciava mesmo um “baião pé de serra que varre o chão”, e achava aquele negócio de Bossa Nova muito “nhém-nhém-nhém”. Já Péricles, assim como a maioria dos ouvintes mundo afora, após a surpresa e estranhamento inicial, acabou se rendendo ao encanto daquelas harmonias, a batida diferente e um jeito novo de cantar, baixo, sem vibrato, sílabas expostas. Às vezes, sussurrando voz de flanela.

Numa ocasião, no Rio de Janeiro, quando João Gilberto já fazia sucesso com “Chega de saudade” (Tom e Vinícius), Péricles lhe confessou que seu sonho de consumo era conhecer e ouvir Dilermando Reis, ícone do violão seresteiro. João Gilberto fez a ponte e certa noite, bastante esperada por Péricles, foram ouvi-lo. Após a apresentação, Péricles se deliciava com o recital informal de Dilermando ali nos bastidores, uisquinho rolando. A certa altura, Dilermando interrompe e passa o violão para João Gilberto, pedindo: “Toca aí o seu violão moderno que todo mundo comenta”. Não recebeu aprovação de Péricles, que murmurou: “Pô, esse aí eu ouço sempre...” Sinal de que nem os sonoros anjos de casa fazem milagre.

Assim como fez em Diamantina, volta e meia, João Gilberto, aparecia em Vitória para visitar a irmã Dadainha e Péricles, para a alegria de familiares e curiosidade alheia. E não há registro de qualquer apresentação pública, no Espírito Santo, o que pode ser explicado em parte pelo perfil do músico: não gosta do barulho de plateias, é exigente com equipamentos, acústica, implica com o ar-refrigerado, “pois desafina as cordas do violão”. Outra faceta curiosa: se pessoalmente é praticamente impossível falar com João Gilberto – isso já virou tema de livro e documentário recente – pelo telefone é bem mais simples. Até bem pouco tempo ele adorava passar horas e horas, noite adentro, falando com pessoas. A cantora capixaba Ester Mazzi, por exemplo, praticamente virou amiguinha de infância dele, sempre pelo telefone.

Ultimamente, a coisa complicou. O arredio João Gilberto, saúde frágil, anda envolvido numa briga entre filhos e ex-mulher, além de querelas financeiras. Foi obrigado a deixar o imóvel, no Leblon, e onde não deixava ninguém entrar. A filha Bebel Gilberto virou curadora do pai, mas não se dá com o meio-irmão, João Marcelo. Rixas e picuinhas em família só costumam mudar de endereço. Mas, certamente, não é este o desfecho que merece o sujeito que inventou a batida perfeita, naquele banheiro de Dadainha, e harmonicamente exalta que os desafinados também têm coração.


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