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Netflix versus cinema. Vocês ainda não viram nada
Tribuna Livre

Netflix versus cinema. Vocês ainda não viram nada

Maninho Pacheco (Foto: Tribuna Livre)
Maninho Pacheco (Foto: Tribuna Livre)
Nova Iorque, 6 de outubro de 1927, Picadilly Theatre. Na tela, diante de um público que desconhecia o que lhe aguardava, o ator branco Al Jolson, pintado com tinta preta, interpreta um cantor de jazz negro. Próximo à metade do filme, Jolson olha para a câmera e diz, literalmente em alto e bom som, as primeiras palavras faladas do cinema: “Wait a minute! You ain't heard nothing' yet”. Algo como “Esperem um minuto. Vocês ainda não ouviram nada”. E canta uma canção.

O cinema aprende a falar. “The jazz singer” provoca um corte na história do cinema: a morte dos filmes mudos e o triunfo dos falados. A Sétima Arte jamais seria a mesma.

Cannes, 19 de maio de 2017, Palais des Festivals. Luzes se apagam. Projetor acionado. O icônico logotipo vermelho da Netflix ocupa toda a tela e apresenta a fábula anticapitalista com porcos mutantes “Okja”, de Bong Joon-ho. Vaias da plateia. A participação inaugural em festivais de cinema analógico de um filme digital produzido por uma empresa que trabalha exclusivamente com tecnologia streaming é marcada por forte reação contrária do público, o inverso do sucesso da exibição do primeiro filme falado.

Charles Chaplin foi quem melhor encarnou a resistência do cinema mudo contra o falado. Para ele, fala era uma regressão estética. O cinema já havia adquirido uma autonomia de linguagem ao construir uma narrativa própria, visual e universal. Mas havia uma dimensão política por trás da militância silente de Chaplin. Atacado pelas elites culturais pelo “baixo nível” dos seus filmes voltados para trabalhadores, imigrantes e desempregados, ele via na sonorização o enquadramento político e moral decisivo dos cinema pelos grandes estúdios: “Os ricos compraram o barulho”, sentenciou.

Noventa anos depois, Steven Spielberg incorporaria a militância chapliniana em repúdio às inovações do cinema. Torna-se a mais combativa e respeitada voz anti-Netflix. No Oscar deste ano, por pouco sua produção “Green Book: O Guia” perde a estatueta de melhor filme para o belo e improvável “Roma”, de Alfonso Cuarón. Preto e branco, diálogos minimalistas e em espanhol, “Roma” foi comprado pela Netflix e levou três Oscars (diretor, fotografia e filme estrangeiro). Uma surpresa não ter recebido o de melhor filme, cereja do bolo da premiação que Hollywood confere às produções exibidas em... Cinema. E “Roma” foi produzido originalmente para a TV. Se vencesse “Green Book”, decretaria o triunfo de uma mídia sobre a outra.

Spielberg entende que a Netflix não pode ficar tão perto de ganhar o grande prêmio de Hollywood quando não joga com as mesmas regras que os estudios tradicionais: sobretudo por lançar suas produções simultaneamente na plataforma doméstica e nos cinemas. Para ele, “uma vez que a Netflix se compromete com um formato de televisão deveria disputar o Emmy, não o Oscar. Aquilo é televisão, não cinema”.

Os 124 anos da história do cinema têm sido marcados por desafios. Som, cor, televisão, sistemas On Demand, apenas para citar algumas questões técnicas, emparedaram o cinema e o impuseram saídas para sobreviver.

Produções com selo Netflix, são apenas um desses emparedamentos. Seu grau de impacto só o tempo dirá. Parafraseando Al Jolson, nós ainda não vimos nada.

Maninho Pacheco é jornalista

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